Os desenhos abaixo são de Angel Ganev, ou como ele mesmo se chama, o melhor unicórnio da cidade, lá na Inglaterra.

Para ver mais desenhos dele clique aqui.

Essa semana vou indicar dois episódios de um podcast que talvez não se comunique com todo mundo. Como diz a lenda — e também os fatos — existem tipos diferentes de humor e de maneiras encarar a vida. Nem todos concordam e algumas pessoas podem ficar bastante ofendidas com certas ideias ou piadas.

O podcast indicado é o SModcast, um dos podcasts mais antigos e tradicionais. Esse é o podcast do cineasta — além de algumas outras coisas — Kevin Smith e o do seu amigo e produtor Scott Mosier. Se você se identifica com o tipo de humor e discussões que eles propõe, recomendo bastante esse podcast. Existem alguns episódios com discussões e interpretações das coisas que são bem legais, não só pelo conteúdo mais “filosófico”, mas pelo humor mesmo.

Algumas semanas atrás o sr. Kevin Smith teve um ataque cardíaco e quase morreu e esses dois episódios foram gravados depois do ocorrido. É legal ver a avaliação dele das coisas e ele falando sobre uma vita que gravou pros pais pouco tempo antes de ir fazer o curso de cinema que lhe ensinou as técnicas pra fazer o filme que lhe lançou como cineasta, o fez conhecer o próprio Scott Mosier e literalmente mudou sua vida.

Seguem os links, mas se você preferir este podcast está também nos aplicativos por aí.

Podcast: SModcast (em inglês)
| Episódio: 391- Premo Kev, Pt. 1
| Episódio: 392 – Premo Kev, Pt. 2

“Pessoas” acontece uma vez por semana e é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 16 — Ela que a mão doía

Ela acordou bem cedo, tinha muitos planos pra esse dia. Anseios de dias melhores, de dias diferentes, de horas e minutos que lhe coloquem em tarefas que lhe façam bem além de pagar as contas. As contas estão pagas, é hora então de reagrupar, organizar as ideias e seguir em frente. Se possível.

Ela está sentada em sua mesa. O papel a frente dela tem o começo de um desenho que ela gostaria de terminar. Ela já tem a ideia, ela já sabe o que fazer, mas sua mão dói. Ela abre a mão, estica, fecha, abre de novo, agora com mais força, fecha e pega a caneta na mão. Ela quer continuar o desenho, mas a dor é maior do que a sua vontade.

Ela não bateu a mão, ela não se lembra de ter feito exatamente nada. Ela imagina que seja só o cansaço, só a atividade repetida, o mover do mouse, o digitar no teclado, nada além disso. Ela sente raiva, ela pensa que essa não é uma cicatriz que ela gostaria de carregar consigo como memória da sua rotina da semana. Ela quer que as horas todas que o emprego e a rotina que paga as contas exige não interfira com seu tempo, com seu momento, com sua mão, com sua hora.

Ela estica a mão mais uma vez, abrindo bem aberta, levanta o braço e apontando ele pra janela, vendo a luz do Sol que passa por seus dedos. Ela não precisa ir até a janela pra saber que aquele é um dia bonito, que o céu deve estar azul e que talvez fosse bom também gastar algumas horas respirando o ar de fora, estar livre de qualquer cercado de paredes.

O desenho que ela quer terminar é um retrato. O personagem é uma mistura de um homem e uma árvore. Ele tem corpo de homem, terno de homem, mas seu pescoço tem sulcos como se fosse um tronco e a partir dali, onde deveria estar uma cabeça se abrem galhos. Ela pensa na simbologia do que seu subconsciente produziu, pensa que se a árvore represente a família e o terno o trabalho, o desenho faria sentido se ela fosse alguém que trabalhando pensando em sua família. Talvez nesse caso os símbolos não tenham sentido ou pros tempos modernos de hoje apenas precisamos de novos símbolos.

Ainda abrindo e fechando a mão, esticando os dedos e fechando, ela pensa na sua família. Não na família de onde veio, não nas pessoas que cuidaram dela quando ela não era capaz de cuidar de si mesma, mas na sua casa vazia, cheia de pó, material de desenho e silêncio. Ela pensa na idade dela, nos anos que não voltam mais, na mão que dói, nos desvios dos planos dos sonhos e tem dúvida se vai conseguir desenhar e ganhar dinheiro com isso, ao mesmo tempo em que não vai terminar sozinha, enrolada no cobertor, postando coisas numa rede social qualquer, ironizando a vida e buscando ver graça no absurdos das pequenas coisas.

A solidão não é exatamente o problema. O problema é pensar que talvez nada daquilo faça sentido ou tenha propósito. Alguma voz mais primitiva permeia seus pensamentos sólidos de muitos anos que tinham a certeza de que ela não queria casar, que não queria ter filhos, contaminam tudo isso com a ideia de que os anos estão passando e logo em breve a solidão vai virar ausência e num piscar de olhos terão se passado mais trinta anos.

Ela se imagina com sessenta anos. Sentada da mesma forma, tomando chá de hortelã com torradas, ainda confusa sobre as coisas, sobre como o tempo passa e sobre como, não importa quantos aniversários ela faça, ela ainda se sente, no máximo, uma adolescente.

Por aqui, pelo menos uma vez por semana, é dia de mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios disso, daquilo e daquele negócio lá. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque as vacas fazem mu?

Motivo 1 – O curto
Porque foi tudo que lhes restou.

Motivo 2 – A história
Através dos tempos e do pó dos ares é sabido que o carisma pode ser muito perigoso. É sabido também que as vacas são dotadas de carisma. Não é sabido, porém, que um dia foram também dotadas do saber.

Havia em outro lugar, muito parecido com este, só que outro, um tempo e um momento em que as vacas faziam mais do que pastar e servir como alimento. Lá havia uma história e uma enorme sequência de fatos, ironias e ilusões que colocaram a vaca como o topo da evolução do planeta.

Apesar de serem muito parecidas com as vacas conhecidas e estabelecidas pelo consciente coletivo e a mídia popular, seja ela sensacionalista ou não, aquelas vacas podiam falar livremente o que quisessem. Não apenas falavam, mas eram dotadas de inteligência e cultura. Por lá havia quase que para todo personagem humano na história conhecida um personagem vaca que fez de uma forma ou de outra o mesmo feito.

Em uma época a frente da nossa, o planeta se organizava em torno de um império, o Império Vaca. Aqueles eram tempos de grande prosperidade e harmonia. Foi nesse cenário que certos questionamentos passaram a borbulhar com maior fervor nas mentes das vacas mais pensantes de lá, questionando o papel das vacas e sua relevância no universo.

Será que teriam nascido para fazer apenas aquilo que tinham já tanto feito ao longo dos anos? Será que tudo que existia tinha como propósito apenas construir rotinas para alcançar vidas bestas e desinteressantes?

Foi nesse contexto de grande questionamento, temperado por uma leve camada de arrogância, que o império vaca decidiu que iria fazer algo impossível, algo que levaria ao limite sua sociedade e o próprio espaço tempo. Decidiram que construiriam planetas, estrelas, cometas e pedras ocas, todas voando em harmonia, todas alinhadas em um conjunto feito do zero, da engenhosidade que somente as vacas eram capazes de ter. O Império Vaca iria construir sua própria galáxia.

O plano era criar uma galáxia em espiral num canto tranquilo do espaço. Para isso, primeiro foi preciso achar o local, organizar o local e então trazer e ordenar toda a matéria necessária para uma galáxia existir. Transportar tudo até lá, viajando por anos luz até um ponto de anos luz de vazio, pra depois posicionar trilhões de trilhões de elementos em coordenadas precisas pra que a dança da gravidade pudesse assumir e tomar monta de tudo, era bastante trabalhoso e, se as vacas não fossem tão arrogantes e pungentes em sua necessidade de mostrar sua pungência ao Cosmos, representavam em si um projeto digno de ser algo assim tão grandioso e tomador de recursos e tempo, feito para apenas alegrar o ego e massagear a inteligência de alguém. Neste caso de um império inteiro.

O caminho escolhido pelas vacas era criar uma máquina capaz de invadir universos paralelos e de lá retirar a matéria da qual precisavam. Por esse plano, bastava levar a máquina até o local desejado, escanear dentre os infinitos universos possíveis quais tinham os materiais desejados e apertar um botão vermelho em forma de pata de vaca escrito “vai fundo”.

A sede de realização da sociedade vaca era tão grande que o projeto seria construir todas as máquinas necessárias, posicionar todas elas e apertar os botões todos de uma só vez. Assim, a galáxia iria surgir de imediato, sendo um feito que espantaria o próprio cosmos e sendo ainda mais impactante e memorável.

Deveria dar tudo certo e poderia dar tudo certo se tivesse dado tudo certo, mas, como sabemos, não deu.

Foi que na hora que apertaram os botões em forma de pata de vaca que em um outro universo desses infinitos possíveis que uma outra sociedade fez também a mesma coisa. Com um segundo e trinta e três milisegundos de diferença, uma terceira civilização de outro universo ainda fez a mesma coisa e foi assim que, de repente, diversos pontos de diversos universos paralelos estiveram unidos em dois universos o que causou um colapso quântico, córdico, relativo, magnético, integral, convolupto. Tudo se misturou e modificou e as sabedorias foram jogadas de um povo ao outro, de um mundo ao outro, de uma sociedade e império ao outro.

O espaço tempo se rasgou e dali nasceu algo novo, num outro universo que não tinha nada a ver com tudo isso. O que nasceu foi uma galáxia, a nossa galáxia.

Por isso aqui nossa galáxia se chama Via Láctea, o caminho do leite, o leite que é da vaca, porque é a galáxia da vaca.

Mais do que isso, a vaca aqui, em parte se tornou deusa, porque ficou gravado no consciente coletivo que ela é de fato a responsável pela criação desse universo.

A vaca ficou com 4 estômagos, porque se fundiu com outros animais no processo de reestruturação do tempo e espaço.

Por fim, a parte mais triste disso tudo, é que aqui as vacas perderam a capacidade de falar. Apesar disso, conseguiram manter parte de sua inteligência, por isso ainda são carismáticas, arrogantes e pungentes. Quando nos olham nos olhos, quando conversam entre si e dizem para todos ouçam o seu característico “mu” o que tentam expressar é uma frustração, somada a um orgulho, alegria e raiva. No final, conseguiram criar do nada uma nova galáxia e fazer algo que nunca foi feito em todos os universos. O som que fazem é uma tentativa de dizer para elas e para todos o quanto se orgulham do que fizeram e o quanto acham que merecem serem reverenciadas. “Mu” nada mais é que a abreviação de “Meu Universo”. Por isso gritam “mu”, por isso repetem “mu”, por que aqui é o máximo que podem fazer para expressar tudo que sentem.

E se quiser ver o Faustão narrando mais coisas, tem um canal do Youtube cheio desses vídeos, clicando aqui.

Os desenhos abaixo são de Mauro Belfiore, lá da Itália.

Pra ver mais desenhos dele clique aqui.

A história da ciência conta como ao longo dos anos os seres humanos foram entendendo como o universo funciona. Dependeu de alguém não muito diferente de você, descobrir e tentar entender as coisas pra que pudéssemos sair das cavernas e chegássemos até às cavernas com internet. Estudando as pessoas dessa história é bem provável que hoje aqueles respeitados cientistas fossem julgados pela imensa maioria das pessoas como malucos pirados doidinhos conspirólogos loucos hereges do chapéu de papel alumínio na cabeça.

É engraçado que as descobertas que foram feitas não anulam o fato de que talvez eles fossem mesmo meio doidos e acreditassem em pseudociências. O valor está em perceber que as descobertas que eles fizeram só aconteceram porque eles olharam pras coisas com um olhar de possibilidade, acreditando que poderia ter mais lá fora do que já era pré estabelecido, uma curiosidade de acreditar, testar e investigar o que a maioria das pessoas nega e joga fora sem nem olhar com cuidado pelo menos uma vez. Na nossa conversa de podcast dessa semana vou indicar um podcast dedicado justamente a esse olhar.

O nome do podcast é Mysterious Universe. A ideia deles é falar sobre toda e qualquer história que possa ser um mistério. No mundo do podcast existem muitos podcasts que fazem isso, mas um diferencial importante deles é que as histórias contadas são retiradas de documentários, livros, artigos científicos e entrevistas. Por ser assim, tem sempre uma quantidade maior de evidências e contra pontos. Nunca é apenas um relato maluco do maluco mais maluco presidente maluco da Malucolândia.

Os assuntos vão desde de coisas de psicologia, paranormalidade, história, alienígenas, conspirações, biologia e outros.

Uma das coisas que eu gosto é que eles conseguem apresentar as histórias sabendo balancear a possibilidade de haver alguma verdade na história sendo contada ao mesmo tempo em que incoerências ou coisas que simplesmente não fazem sentido são tratadas como merecem. É uma merda quando alguns podcasts se propõe a falar dessas coisas, mas não deixam nem a ideia ser apresentada e eles aqui conseguem dar esse espaço muito bem pra só depois discutir e destrinchar o que tem conteúdo e o que não tem.

Esse podcasts é um desses que tem um serviço “premium” se você quiser assinar, tendo podcasts a mais por semana e algumas coisas extras. A versão gratuita já tem conteúdo o suficiente pra ser interessante se esse tipo de assuntos te interessam. Eu mesmo, só ouço a versão gratuita.

O Mysterious Universe está nos aplicativos de podcast por aí, mas você pode também ouvir pelo seu navegador de internet. Abaixo coloco os links pra 3 episódios, com temas diferentes entre si, pra ajudar a dar uma ideia de como as discussões podem ser diferentes.


Podcast: Mysterious Universe (em inglês)
| Episódio: 19.08 – MU Podcast
Sinopse: O episódio começa falando de técnicas de detecção de mentiras utilizadas pela CIA, depois vai fala do paradoxo da “Mente de Tartaruga” e como nossa inteligência pode trabalhar melhor se pensarmos sobre um problema num nível subconsciente. Depois, o episódio segue pelo caminho de Wu Wei e fala da lenda Butcher Ding, que inspirou George Lucas a criar os Jedis.

Podcast: Mysterious Universe (em inglês)
| Episódio: 18.23 – MU Podcast
Sinopse: Fala sobre um livro que apresenta um estudo sobre como o homem moderno, mesmo considerando recordes olímpicos, faz muito menos fisicamente do que foi capaz de fazer ao longo da história.

Podcast: Mysterious Universe (em inglês)
| Episódio: 19.04 – MU Podcast
Sinopse: Fala sobre Criptobotânica e Criptozoologia, que estudam plantas e animais que foram extintos muitos anos atrás e os caminhos diferentes, alguns sem saída, que a evolução já percorreu.

“Pessoas” acontece uma vez por semana e é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre pessoas. Vamos então falar sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 15 — Ele que precisava seguir com sua vida

Ele está numa fila. A fila vem da esquina, vira e desce, se extendendo pela rua inteira. É uma rua longa, ele olha e conta as cabeças, estima as distâncias e acredita ser a pessoa número 200 da fila. São 8 e 25 de uma manhã de céu limpo de sábado. Com os fones no ouvido, ele tenta se manter à parte de todo o resto, alinhado dentro de si mesmo, mantendo a calma e o comportamento adequado, até que chegue sua vez.

O plano era outro. Era não deixar pra última semana, fazer as coisas com menos urgência, com menos gente, com menos fila. Acontece que chegou pra ele a declaração do Governo dizendo que ele deveria resolver o problema, obter o papel, o documento necessário. A carta dizia assim “Se não tem, não pode isso, não pode aquilo, não pode nada. Vai fazer, tem que fazer, até o dia tal. Assinado: O Governo”.

Ele tinha tempo até ser o dia tal. Não apenas tempo ele tinha problemas para resolver, uma porção bojuda deles. Aí, nos tempos livres que teve, nos fins de semana em que podia cuidar de sua vida e não apenas trabalhar e ficar no trânsito, tratou desses outros problemas, deixou pra ir ver o documento do Governo no último fim de semana anterior ao dia tal.

Por algum motivo, ele achava que não seriam muitos os que receberam a tal carta, a tal necessidade de se ter o papel pra poderem seguir com suas vidas. Ele estava errado, não só porque muitos precisavam, mas muitos já tinham também problemas a resolver e pouco tempo pra ir até o Prédio Cartório do Governo pra fazer o tal documento pra poderem seguir com suas vidas. Ele não fazia certa ideia de que sua vida complicada era complicada como a vida de todos os outros.

Naquele dia, ele acordou bem cedo, na hora que acordava todo dia pra pegar trânsito e trabalhar. Tinha certeza que o Prédio Cartório do Governo não estaria assim tão cheio, mas estava, estava tão cheio que o homem disse pra ele que não adiantava ele entrar na fila, que não daria tempo de ser atendido. O mesmo homem, disse a ele “ei, ei, ainda há esperança, ei” ao que ele disse “pois, há?”. O homem explicou que haviam outros Prédios Cartórios, mas que sua melhor chance seria tentar ir até o Cartório Central, o maior e mais velho da cidade.

O homem cerrou os olhos, colocou uma das mãos no ombro dele, respirou fundo e então contou que o Cartório Central era um lugar selvagem onde as regras se mediam como se fazia nos tempos antigos. Lá, para obter o documento pra poder seguir em paz com sua vida, era preciso ter determinação, um coração decidido e — atenção — não ser estúpido. O homem enfatizou “se você for estúpido, nem adianta ir”. A verdade é que ele não tinha certeza se era ou não era um estúpido, mas precisava do documento e foi assim que foi parar na fila onde agora estava, esperando o Cartório Central abrir. Ele e todos ali, esperando a chance de tirar o documento pra poder seguirem em paz com a vida.

Ele espera que sua posição na fila seja mesmo o suficiente para ser atendido. Desconfia que o homem que lhe indicou o lugar, com seu discurso sobre o coração decidido e tudo mais, não passava de mais um desses funcionários do Governo semi loucos de camisa social e cheiro de suor.

Ele ouve o som de palmas, mas não tem ideia de onde elas estão vindo, até ver que um homem vem descendo acompanhando a fila, andando e observando, procurando pelo fim. Ele aplaude de forma irônica, contente não está por ter que estar ali. A fila, continua crescendo e parece ter dobrado de tamanho e ainda faltam 30 minutos pro lugar abrir.

Ele vê que a fila tem velhos, casais e crianças. Por algum motivo, ele sente que a fila é uma representação caricata da humanidade. Eles tem barulho de turba, falam entre si, riem e contam histórias com vozes estridentes. Riem mais, reclamam e falam o tempo todo, conversas sem importância, dessas assim feitas pra fazer o tempo passar. Ele não participa de nenhuma conversa, apenas observa, ouvindo em seu fone uma conversa outra, uma que lhe interessa, em formato podcast.

Um carro de polícia surge lá na frente, entra na rua e vem passando. Passa devagar. Alguns minutos depois o mesmo carro passa mais uma vez. Na terceira vez em que o carro passa ele ouve alguém da fila dizer que é bom que tenha polícia patrulhando a fila, porque no fim de semana anterior “teve ladrões que vieram e fizeram arrastão com as pessoas da fila”.

A situação como um todo o faz suar, se incomodar com as regras e os papéis, as filas e obrigações. Ele tenta digerir o sentimento, pra não deixar transparecer, pra não se destacar na multidão. Ele não nota que já se destaca porque dentre todos que lá estão ele é o único sério, sem falar e de fones de ouvido. Agora, está suando, pensando em como queria não ter que ter nenhum papel pra poder seguir com sua vida. Queria dormir mais e aproveitar seu sábado fazendo suas coisas pra si e não as coisas pro Governo. Ele teme que percebam, que olhem pra ele, que as mães protejam as crianças e que o carro da polícia pare e pergunte porque ele está suando daquele jeito e o que ele tem contra a sociedade e nosso Governo.

O Sol é quem o salva. Com o avançar das horas, o calor aumenta. O suor dele é só mais um, numa fila de suados não abençoados esperando pra tirar o papel pra poderem seguir com suas vidas.

Faltando 3 minutos para os portões se abrirem as pessoas começam a ficar mais agitadas. As conversas sobem o volume, algumas pessoas que estavam sentadas no chão, sem medo de se sujar ou serem julgadas, se levantam, se ajeitam, se preparam para a honraria do papel a receber.

Os 3 minutos correm como alguém e, quando os portões abrem, a fila caminha uma quantidade boa de passos. A multidão sorri e avança, ele até consegue ouvir que alguns cantam de alegria.

A partir dali, conforme o prédio engole a fila, minuto a minuto, ele começa a pensar na possibilidade de não conseguir o papel, de estar muito avançado na fila e acabar tendo que voltar outro dia. Ele decide marcar o tempo, tenta estimar a quantidade de pessoas na fila. A cada nova nova movimentação da fila, ele vê quantos minutos se passam no celular. Conta quantos passos deu, compara com quantos passos acha que vai precisar dar pra ser atendido. Combina os dados todos, se mantém ocupado na análise para que seu coração comece a bater mais tranquilo e sua mão pare de tremer.

Se seus cálculos estiverem certos, ele vai ter o papel para poder seguir em paz com sua vida em mais ou menos 2 horas.

Começam a sair as primeiras pessoas que já conseguiram vencer a fila, obter o papel e estão indo embora. Passam pela fila com olhar de esperança e triunfo, como velhos experientes contanto histórias de guerras, como ex viciados incentivando os ainda viciados a encontrarem a luz, porque “ela é real”.

O tempo passa e passo a passo ele segue até que finalmente percorre a rua toda, chega até já bem perto da entrada do prédio. Ali os ânimos são mais intensos. Surgem alguns tentando cortar a fila, desavisados que não chegaram antes do lugar abrir e entram em desespero ao ver o tamanho da fila, vendedores ambulantes e sujeira no chão. Enquanto aguarda pra ser chamado, seu coração bate mais forte, algo dentro dele diz que a chance de dar tudo errado é cada vez maior.

A fila anda de novo e ele vai parar dentro do prédio. Seus olhos levam uns segundos pra se acostumar a mudança de luz e a primeira coisa que ele enxerga é que há também fila dentro do prédio. A segunda coisa que ele enxerga é que há também um ar pesado e antigo, como se no ar houvesse um ruído, um eco, reverberando baixinho as vozes de todos os que tiveram que ir até lá ou que lá trabalharam. Ele tem a impressão de que o Prédio Cartório é um ser vivo, tem receio de tocar no corre mão da escada por achar que seria como tocar por dentro um monstro mitológico milenar que não quer ser tocado.

Ali dentro o clima é tenso, dá pra ouvir burburinhos, tosses de velhos, choros de crianças, velhas suadas dizendo “ai, meu deus”. Deus não responde e ele avança pela fila prédio adentro, sobe pelas escadas de piso de madeira velha, segue e vira nos corredores, com o mesmo chão velho tão velho que parece até macio. No fim do corredor há um homem com uma mesa no próprio corredor. Este homem sabe quem ele é e o que fez e se pode ter o papel pra seguir com sua vida. Ele sabe a partir do nome e do documento que é entregue.

Ele precisa esperar pela avaliação do homem na mesa. Não demora pro homem dizer que ele tem que pagar uma multa porque o sistema exige que ele pague o valor pra liberar o papel pra poder seguir com sua vida. “O Governo pede um valor, se não pagar não tem o papel. O valor é baixo, mas precisa ser pago no banco que, aqui não recebemos, mas hoje é sábado, o banco está fechado. Pague e volte depois.”.

Ele pergunta se pode pagar com o aplicativo do celular. O homem pede ajuda. Uma mulher velha e simpática, de cabelos brancos e blusa florida, surgem caminhando e flutuando pelos corredores. Enquanto passa ela olha a todos e ele tem a impressão de que os olha como se fosse a mãe de todos. Ela diz a ele que ele pode pagar pelo celular, se tiver conta no banco certo, se tiver o aplicativo certo e se tiver o coração decidido. Ela abaixa os óculos, olha nos olhos dele e diz “O quanto seu coração quer mesmo o papel para seguir com a vida? O quanto, meu rapaz?”.

Ele quase não acredita quando vê que tem a conta no banco certo, que tem o aplicativo, e que tem a chance de resolver tudo de uma vez, sem precisar voltar outro dia, sem precisar faltar no emprego, sem precisar entrar de novo naquele lugar.

Ele abre o aplicativo e tenta escanear o código de barras. Não consegue. Ele tenta de novo, se ajeita, endireita a coluna, alinha o papel, mas novamente não consegue. Ele pensa que pode apenas digitar o imenso número referente às barras, mas o calor do momento e a quantidade de dígitos do número lhe dão medo de errar, de não dar certo, de pagar errado, de não conseguir ter o papel. Ele se lembra das palavras da flutuante senhora mãe de todos e percebe que o problema é seu coração decidido. Ele respira fundo, decide que vai, se ajeita, alinha, coloca o papel em frente ao celular e dessa vez o código é lido.

Ele paga o boleto e segue para onde tem que ir, cruzando no caminho com a flutuante senhora mãe de todos. Ela não está sozinha, ela consola duas senhoras que dizem que não tem como voltar outro dia, que trabalham nisso e naquilo, que os chefes e donos não querem saber se o funcionário não tem o papel para seguirem com a vida, que deviam ter ido no sábado, que deviam ter ido antes de ser o último sábado do último dia. Segurando xícara de alça dourada e rosa, com monóculos e cachimbos, diriam “sinto muito, mas não dá, não há nada que se possa fazer. É o sistema, sinto muito, se faltar está na rua. Muitos querem trabalhar, você talvez não queira.”.

A senhora mãe de todos diz para as senhoras que há nas redondezas um certo moço que tem conta no certo banco e que tem o certo celular com o certo aplicativo. A senhora mãe de todos aponta pra ele com o olhar, sai flutuando, rodando por sobre eles e as senhoras que choravam se lançam e pedem “por favor, por favor, por favor, queremos muito o papel para poder seguir com nossas vidas, lhe damos o dinheiro em mãos”. Ele hesita, foi ensinado muitas vezes por muitos que na vida tem que ser “cada um com seus problemas”, mas está próximo do fim de sua jornada e não quer energias negativas. Ele consegue se colocar no lugar das senhoras e sabe como frustrado ficaria se ele por acaso não tivesse a conta no banco certo, o celular certo e o aplicativo certo.

Assim que ele decide ajudar, a mulher mãe de todos surge com mais duas mulheres, também senhoras e desesperadas com o mesmo problema. Ele decide mais uma vez ajudar, desta vez com certo desconforto. A mulher mãe de todos percebe e acha que é justo não trazer pra ele mais ninguém. Ele sente que ela a julga, que diz que ele bem que poderia, se quisesse poderia, sentar ali com uma cadeira e pagar para todos que precisassem, passar o dia todo ali, escaneando e pagando, ajudando as pessoas, ajudando o Governo, mas ele não vai fazer porque é ruim. Ruim e egoísta. Como se deve ser, afinal o certo é “cada um com seus problemas”. Ela sai sorrindo e ele acha que é porque ela tem orgulho dele. Outros precisam dela por entre as entranhas do monstro Cartório.

Ele paga os boletos das 4 senhoras. Ele segue em frente no processo. Se senta em frente agora a uma mulher que coloca luvas plásticas de tamanho maior do que deveriam ser se quisessem mesmo ser do tamanho certo para as mãos dela. A figura parece algo assustador com sua cara de sono, suas luvas folgadas e uma maquiagem forte. Ela pega a mão dele, diz assim “me dê aqui esse dedo, depois esse, isso, agora o outro, esse, esse, esse não foi, vamos de novo, isso, pronto, agora a outra mão, esse, esse, esse, esse, e esse, isso, pronto.”.

Tudo foi feito, o documento está impresso e ela vai entregar a ele o papel, ela pede que ele aguarde. Algo surgiu em sua tela, no seu sistema, algo que ela não sabe como resolver. Os olhos abrem grandes e piscam uma vez e depois outra. Ela se levanta, toca um sininho e a mulher mãe de todos vem flutuando e girando pelo corredor. Elas conversam, falam sobre algo. Ela volta, se senta e diz que “estava verificando se poderia almoçar mais cedo”. Ele acha a resposta estranha, pega o documento com ela, o tão esperado papel pra poder seguir com sua vida, pergunta se está tudo finalizado pra ter certeza e se levanta pra sair. “Sim, finalizado, pode seguir com sua vida”.

Enquanto anda, ele vê novamente as 4 senhoras sendo atendidas numa outra das muitas salas de chão de madeira velha. Elas lhe cumprimentam, dizem obrigado e lhe desejam boa viagem. Ele desce ainda receoso de que algo dê errado, que vão chamar seu nome e declarar um caso especial que lhe vai prolongar ainda mais algo que já devia ter acabado, como um texto que ficou longo demais, mas que precisa ser longo demais, pra causar também no leitor a própria emoção que o personagem em si sente.

Ele quer logo alcançar a rua, estar livre, ir pra longe dali. Eis que surge a mulher mãe de todos, flutuando e girando pelos corredores. Ela vem na direção dele, olhando para ele. Ele sente um frio na espinha, fica paralisado, tem quase certeza que algo deu errado, mas a mãe de todos apenas passa, o contorna sobre sua cabeça e segue, ainda o olhando, olhando, até se afastar, voltar ao chão e entrar numa porta de algum corredor.

Ele segue o caminho de volta, passa de volta pela fila da escada, pela fila enorme lá fora, sente o sol e as cores do dia, sente o chão que não é mais de madeira velha e macia, sente grande um sentimento de liberdade. Agora ele pode seguir com sua vida, não só porque passou e foi além da aventura, mas porque tem um papel, aprovado pelo Governo, que diz que ele pode ser assim.

Hoje é dia de mentiras. Qual tipo de mentiras? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios disso, daquilo e daquele outro negócio lá. Ou quase isso. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque o silêncio pode incomodar?

Motivo 1 – O curto
Porque, se nada é dito, os pensamentos falam lá dentro da cabeça.

Motivo 2 – A história
Existia, muitos anos atrás, uma fronteira entre um deserto e uma floresta. Nenhuma semente, nenhum animal, nenhuma folha da floresta ia até o deserto e — por mais que houvesse vento — nenhum grão de areia entrava na floresta.

A floresta tinha vida. O deserto tinha o silêncio. A vida tinha som. O silêncio não.

Na floresta, dava pra ouvir o som de vidas bastante ocupadas, correndo de um lado para o outro com seus problemas, rituais, mentiras e necessidades. As vidas na floresta se empilhavam e se consumiam, na metáfora e no literal. Um ciclo de ida e volta, de vida e morte, nascimento, caça e canibalismo.

No deserto dava pra ouvir o silêncio. O nada. A não vida. O vazio preenchido apenas pelo ruído distante do vento acariciando o solo. No silêncio do deserto cada segundo podia durar uma eternidade.

Ninguém morava no deserto e ninguém queria morar lá. Desagradava o calor do dia e também o frio da noite. Incomodava a areia, seu jeito áspero e desconfortável. Se não bastasse, era ruim não ter onde subir, o que comprar e onde se esconder.

Foi assim até que uma noite, caiu do céu uma enorme pedra pegando fogo. Era uma pedra vinda do espaço, de lá do lado de fora, do lugar depois e acima do céu. A pedra enorme atingiu em cheio e destruiu o silêncio do deserto. O impacto brilhou, iluminou a noite e revirou todos os grãos de areia. Alguns foram parar tão alto que vagaram pelo mundo nos dedos de vento mais altos e mais ousados do topo do céu. Quando voltaram ao chão, nem mais se lembravam que um dia fizeram parte dele.

A explosão do impacto da pedra, além do brilho e som, gerou também calor de catástrofe. Uma força em chamas que escapou do deserto e invadiu a floresta. No meio da noite, o fogo veio pelo ar e queimou as árvores, os animais e a vida.

No deserto, onde a pedra caiu, o calor derreteu a areia e fez uma enorme camada de vidro, que se estendeu até onde o calor permitiu. Na floresta, tudo queimou e não muito tempo depois ela também virou um deserto.

De tudo que havia naquela fronteira, de todas as coisas que aconteceram, no final, só ficou o silêncio. Os que visitaram o deserto depois disso, pensavam no acaso das pedras que caem do céu, culpavam forças sobre humanas, o acaso, a sorte e o azar. O deserto não dava nenhuma resposta, porque a única coisa que ele ainda tinha pra dar, mesmo depois de tudo que aconteceu, era só o silêncio.

Os visitantes tentando encontrar algo, num lugar onde nada havia, acabam olhando pra si mesmos. Era isso que mais incomodava no deserto, no silêncio do deserto, ver a si mesmo, ter que lidar consigo mesmo e em si mesmo encontrar a resposta que o mundo de fora se recusava a dar.

Dois vídeos pra rir. Porque rir é sempre bom. Porque, se esse tipo de humor faz sentindo pra você, rir pode mesmo ser algo que você precisa. Porque rir é bom, como previamente mencionado. Porque sim. É.