“Pessoas” acontece uma vez por semana e é quando eu escrevo, venho e posto um conto sobre pessoas. Em outras palavras, hoje é dia de falar de uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 14 — Ela que oscilava

Ela olha pra ele enquanto eles jantam e os menores gestos e não gestos causam uma irritação difícil de controlar. A expressão facial tenta se manter de um jeito, mas o desejo de expressar o descontentamento é tão grande que o rosto estica numa posição no meio do caminho e a expressão que fica não é de raiva, nem de alegria, é só aquela cara que diz que as coisas estão erradas.

“Não, tá tudo bem, impressão sua”.

Para ela, ser sincera é um problema. Sempre foi. Dizer a verdade causava problemas porque as pessoas não entendiam, porque as pessoas iriam julgar, porque as consequências eram piores do que fingir e se conformar.

A verdade é que ela própria preferia não dizer ou expressar o total do que sentia porque seus sentimentos não eram exatamente imóveis e claros. O ódio e o amor se misturavam, o medo e o desejo, a vontade e no nojo, os opostos mudavam de ponto de ação no palco da vida, sob o foco da luz que manda, por motivos quase sempre aleatórios.

Ela odiava os hormônios, odiava os ciclos do próprio corpo, as dores, as lágrimas, a variação de apetite, de sono, de sede, de vontade de fazer qualquer coisa. Não sabia com certeza se era isso que deixava tudo tão confuso ou se era era algo particular dela própria, da pessoa complicada que ela era. Ouvia as amigas que falavam, tem sempre uma amiga que fala demais, mas não via na versão delas da história algo pra se identificar. Talvez contassem mentiras. Talvez fosse outra coisa. Talvez foda-se, porque no meio da vontade de descobrir e entender a vontade mudava e já era outro o interesse.

Ela sabia que era alguém difícil de lidar. Não tinha paciência pra encontros sociais, pra conversas sociais. Preferia livros, internet e seu quarto. Tinha amigos, tinha amigas, tinha momentos em que preferia algo que não fossem livros, internet e seu quarto. De vez em quando tinha o sentimento de solidão, de vazio, uma falta de alguém, não só pra saciar o desejo do sexo, de se sentir desejada, de ser bem comida, mas de se sentir admirada, amada, protegida, não sozinha e aceita apesar de tudo.

É por isso que ela não fala o que está errado. Fica com o rosto contorcido sem dizer que os jeitos dele já a incomodam, que talvez o relacionamento tenha chegado ao fim e a fórmula esteja esgotada. Ela não gosta da opção de não tê-lo por perto, prefere manter o que há ao invés de ficar só. Os anos pesam e colocam fantasmas de obrigações em sua cabeça, os hormônios femininos, as obrigações sociais do matrimônio, da monogamia, da dona de casa, de ser mãe, de ser vó, de assumir uma vida de arquétipo, de ser em si uma vida de estatística e não só uma sequência de vontades expontâneas. Ela prefere ser um conjunto de vontades expontâneas, mesmo que vez ou outra elas sejam incoerentes.

O jantar continua e ela conversa com ele. A conversa é boa, flui e tem pontos e opiniões que fazem ela pensar como gosta da companhia dele. O momento após o jantar é bom, a volta pra casa e a despedida também. No banho antes de dormir, ela pensa como poderia ter estragado tudo se tivesse dito o quanto tinha ficado incomodada com o jeito que ele pegou o garfo, como colocou a comida no prato, como falou e riu, daquele jeito que algumas vezes ela gosta e outras vezes ela odeia.

Ela dorme pensando que é melhor assim e que ela ainda tem tempo. No mês que vem as coisas vão se ajeitar. Depois vão melhorar. Aquilo e aquele, os problemas, os desejos e o dinheiro vão se apaziguar, se compatibilizar, haverá sucesso, sossego e boas noites de sono. Ou talvez não. Tudo isso importa, mas não importa.

Hoje é dia de mentiras. Qual tipo de mentiras? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios disso, daquilo e daquele outro negócio lá. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque as pessoas se irritam?

Motivo 1 – O curto
Por sua culpa!

Motivo 2 – A história
A discussão é intensa. Todos tem um ponto de vista. As falas são longas e elaboradas. Já dura um bom tempo e ainda não temos conclusão. O que se discute é tão complexo e multifacetado que todos os lados parecem estar certos.

A seu momento, cada um levanta em seu lugar e diz o que pensa e o que acha daquilo. Todos tem um tom educado. Todos sabem quando falar e quando ouvir. O tempo passa e nada é construído.

Ficam assim por horas.

Ficam assim por dias.

Ficam assim por anos. Por séculos. Por milênios.

Não conseguem alcançar a conclusão.

De repente, algo começa a florescer fraco e depois forte dentro de mais de um deles. É um fogo, uma fúria, uma impaciência. Existe um desequilíbrio, uma incompatibilidade entre o que precisam fazer e o que fazem. As falas e os tempos começam a ser inúteis e é aí que a ordem vira caos e do caos algo novo nasce.

As falas ficam apaixonadas e não há mais um silêncio completo quando alguém qualquer coisa diz. Se mexem em suas cadeiras, fingem tosses, começam pensamentos que ocupam as cabeças e eis que então não conseguem mais ouvir os outros pontos de vista. Quando o outro fala, já não importa mais, a única coisa que importa é estar certo, é não perder o tempo todo investido defendendo o determinado ponto de vista. Não é uma busca por correção, por perfeição, pela resposta final. Essa busca ficou milênios para trás.

O ar se acumula daquilo que já não cabe nos pensamentos dos envolvidos. O ar fica pesado e começa a ressoar com o que eles sentem. O ar alimenta o fogo, o fogo alimenta o ar, o fogo vira fúria e a fúria cresce e palpita, até virar batida forte, até os corações pulsarem na mesma onda, em ressonância e assim segue e assim vai até que no meio da fala de um outro acontece: um outro fala ao mesmo tempo.

Interrupção. Algo inédito, mas não gera estranheza, traz alívio, como se todos estivessem esperando que uma solução fosse dada a um problema que todos tinham. Agora todos abraçam a nova maneira e todos começam a falar ao mesmo tempo, a gritar, a berrar, a bater as mãos e os pés, a fechar os olhos. Saliva e lágrimas. Baderna. Bagunça. Som sem sem valor, som sem razão, som do qual nada pode se ouvir. Nada se aprende, nada se fala, nada se ouve, tudo apenas jorra, flui e cai, uma queda livre, uma cachoeira que soa o som de muitas vozes falando ao mesmo tempo, sem nenhuma poder se ouvir.

É aí que uma voz se sobressai. Ela não é a mais correta, mas é a mais alta, a mais descontrolada. Ela parece ter razão o bastante pra falar com coerência e seu grito maior encobre todos os outros e todos os outros escutam porque são menores, porque tem medo daquele novo tom, daquela camada que recobre o resto. O que fala o faz de tal forma que não só o que ele diz causa impressões, mas também seus gestos e sua imprevisibilidade. Quem é que sabe o que pode acontecer se não lhe derem ouvidos?

O medo faz com que a discussão sem fim chegue a um fim.

As pessoas se irritam porque sentem que o problema sendo discutido está sendo discutido por milênios, sem que ninguém ouça sua voz e o fazem porque, algumas vezes, para certas questões, a raiva é o único jeito de encerrar um argumento.

Os desenhos e a (curta) animação abaixo são trabalhos de Justin Chan, lá do Canadá.

Para ver mais trabalhos dele, clique aqui.

Além de escrever opiniões idiotas e desabafos dignos de vergonha alheia por aqui, e de postar desenhos e rabiscos por ali, eu também cuido do site everyday1music. Lá, eu posto uma música por dia e todo dia 10 de cada mês eu posto por lá (e também aqui) uma lista com as músicas do último mês.

Segue abaixo a lista deste mês. Pra escutar, é só clicar na canção da sua escolha.

\.01 – ♫ The Academic – Bear Claws  4ª mais ouvida 
\.02 – ♫ Pillowfight – Get Your Sh*t Together
\.03 – ♫ Thundercat – Where I’m Going
\.04 – ♫ Feldberg – You and Me
\.05 – ♫ AFI – Dancing Through Sunday
\.06 – ♫ Gaz Coombes – Deep Pockets
\.07 – ♫ The Revivalists – Keep Going
\.08 – ♪ Syd Matters – To All Of You (Life is Strange OST)
\.09 – ♫ Kraftklub – Fenster
\.11 – ♫ Guster – Keep It Together  3ª mais ouvida 
\.12 – ♫ Le Couleur – Premier Contact
\.13 – ♫ Attaque 77 – Por que te vas
\.14 – ♪ Dope Lemon – Marinade
\.15 – ♫ Metronomy – Everything Goes My Way
\.16 – ♫ Superorganism – Nobody Cares
\.17 – ♫ Cecilia Krull – My Life Is Going On
\.18 – ♫ Coopertheband – Rebels  A mais ouvida 
\.19 – ♫ Tomoki Miyoshi – Tender glow (I am Setsuna OST)  2ª mais ouvida 
\.20 – ♪ Joe 90 – Ferris Wheel
\.21 – ♫ Camper Van Beethoven – Take the Skinheads Bowling  5ª mais ouvida 
\.22 – ♫ The Jungle Giants – On Your Way Down
\.23 – ♫ Faces – Ooh La La
\.24 – ♫ The Aces – Volcanic Love
\.25 – ♫ The Wombats – Greek Tragedy
\.26 – ♫ MOXINE – I wanna talk about you
\.27 – ♪ The Holydrug Couple – If I Could Find You (Eternity)
\.28 – ♪♪ Drgn King – Solo Harp

Na nosso espaço de falar de podcast dessa semana vou recomendar dois episódios. Os dois são diferentes entre si, mas os dois mostram bem porque a mídia de podcast permite coisas que outras mídias não conseguem fazer tão bem.

Os dois episódios tem em comum o fato de serem exemplos de como uma conversa pode ser. Acaba ficando meio indireto, mas podcasts são um exercícios de ouvir enquanto se está com a boca fechada. Você até pode falar se quiser, ninguém vai te impedir de bancar o maluco por aí tentando conversar com pessoas que não podem te ouvir, da mesma forma que ninguém vai te impedir de dar “boa noite” pro homem do jornal, ou gritar com aquele personagem vilão da “novela, ou o jogador tal do time tal que fez tal coisa.

Se você gosta de podcasts é bem provável que você goste de ouvir o que as pessoas tem a dizer e se você gosta de ouvir o que as pessoas tem a dizer, dicutir ideias deve ser algo que lhe agrada. Ouvir a opinião do outro, confrotar, revalidar seus próprios ponto de vista e descobrir angulos que acabamos deixando passar. Tem certeza do que achamos que sabemos é algo muito mais importante do que se imagina.

O primeiro episódio indicado é do Rebobinando, podcast daqui do Brasil. É uma discussão mais celebrativa, que dá pontos de vista e opiniões, experiências pessoais e histórias sobre uma das séries de TV mais legais (e fodas pra caralho) que dos últimos anos: Breaking Bad. Se você não teve a oportunidade de ver, considere fazê-lo, é uma série muito boa. Acho que esse episódio é também um exemplo de como podcasts podem a partir de algo que não parece necessáriamente ser “uma pauta” fazer uma discussão, uma conversa com conteúdo, com valor. Apesar do episódio ser mais indicado para quem já viu a série, se você não viu, esse não é um tipo de série em que “spoilers” vão estragar sua experiência, então vai tranquilo.

O segundo episódio indicado é do /Filmcast (slash filmcast), podcast dos EUA, em inglês. No caso dessa indicação existe um pequeno porém, vale a pena ouvir além do episódio indicado o episódio anterior a ele, vou colocar todos os links lá em baixo. Esse podcast fala sobre cinema, falam um pouco de notícias da semana do mundo do cinema, fazem indicações de coisas legais que viram recentemente e terminam com um review mais aprofundado de algum filme ou série. No episódio anterior ao indicado eles fizeram o review do Pantera Negra, um filme que você possívelmente foi assistir ou ouviu muita gente falar, considerando o sucesso enorme de crítica e público. O episódio indicado é justamente um contraponto, uma dicussão com alguém que vê alguns problemas sérios de incoerência do filme e como ele trabalha certo ícones, colocando um pacote pop suave que diminui a real importância deles. Talvez ajude, saber um pouco sobre o que foram os panteras negras ajude a entender melhor o contexto da discussão, por isso coloco também um link pra um vídeo do youtube que dá esse background.

Seguem abaixo os links, mas caso você preferir, os dois podcasts estão por aí nos aplicativos de podcasts do seu coração.


Podcast: Rebobinando (em português)
| Episódio: AQUELE episódio de Breaking Bad


Podcast: /Filmcast (em inglês)
Episódio: 455 – Black Panther (GUEST: Candice Frederick)
Episódio: Is Black Panther an Evil Film? (GUEST: Leslie Lee III from Struggle Session)

“Pessoas” é quando, uma vez por semana, eu venho e posto um conto sobre pessoas. Em outras palavras, hoje é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei.

Pessoas: 13 — Ele que não era gentil e gostava de pipoca

Ele é veterinário. Está em sua mesa, em sua sala, em sua clínica. Do outro lado da mesa, um homem e uma mulher. São um casal, donos de um gato gorgo, velho e com medo. O gato é branco com manchas amarelas, seu nome é Pipoca. O motivo do casal estar ali é que um caroço apareceu numa das patas do felino.

Existe um desconforto no ar. Não pela situação, mas pelo tom e pela postura dele. Ele não faz questão de ser gentil e o caminho que o levou até ali mais confirmou do que negou o valor desta atitude. Ainda mais tendo ele vindo de onde veio, tendo passado pelo que passou pra estar ali agora, naquele lugar, naquela posição. Ainda mais nessa conversa que acontece agora, onde o casal questiona, pergunta e fala, eles o encurralam e cobram. Ele sente como se eles pensassem que ele é uma fraude, uma mentira, um charlatão.

Ele os tolera. Ele entende a situação e entende que precisa ter paciência. O casal tem tantas perguntas porque o caroço encontrado parece ser um tumor. Se for um tumor, pode ser câncer. Ele sabe disso, a experiência dos anos e dos livros lhe diz isso, ele pode não ter estudado na melhor univerdade da cidade e ele bem que repara quando o homem do casal vê na parede o seu diploma, entre uma pergunta e uma resposta.

Ele é, num misto de opção e reflexo, rispído em suas respostas. Não faz questão de responder de forma leiga. As palavras não simples saem de sua boca e ele não percebe que está falando desse jeito porque se sente ameaçado pelas perguntas. Ele fala com muitas palavras, com muitos termos, durante o tempo que julga necessário. As respostas são longas, enfadonhas e corretas.

Ele não gosta do casal. Entre uma pergunta e uma resposta, com um movimento leve e perceptível de olhar, aquele mesmo que o homem do casal usou pra ver seu diploma na parede, ele vê o celular da mulher do casal. É da mesma marca que o dele, mas é um modelo com a tela maior, ele reconhece ser o último modelo. Seu modelo é do ano passado. Menor e do ano passado. Ele se incomoda.

Enquanto responde repara nos cabelos e nas roupas do casal. Enquanto cospe as respostas técnicas decoradas, emitidas sem coração, ele pensa na história de como acharam o caroço no gato. Acha estranho terem achado o caroço na perna do gato, sem o gato ter mudado em nada seu comportamento e o caroço ser pequeno o suficiente pra ser invisível sem tocar a região. Acha estranho ter sido só porque “apalparam e acharam”. Fica pensando na quantidade de tempo livre que aquele casal deve ter, na vida fácil que devem ter levado pra estarem ali agora, lhe dizendo coisas, perguntando e achando que podem colocá-lo contra a parede, como se ele fosse “um empregado”. Julga terem dado ao gato o nome de “Pipoca”.

O diploma na parede, por mais que não seja de uma universidade prestigiada, é real. Ele estudou, passou e com muita dificuldade conseguiu se formar. Trabalhando e estudando, pegando horas de transporte público por dia, dormindo pouco, quase nada, vendo os outros que conhecia optarem por caminhos mais simples e mais fáceis, se perguntando se daria certo, se conseguiria, se valeria e pena.

A coisa é que não basta nascer num bairo pobre e não ter as mesmas oportunidades que outros tem, junto vem a vida de se ter nascido num lugar assim. Os problemas de família, os problemas em casa, as discussões, as dificuldades, a imensa pilha de escombros que ele teve que escalar de dentro pra fora para conseguir não apenas um diploma universitário, mas um diploma de veterinário, um diploma não fácil, que exigia horas de estudo e dedicação. Ele era também dono de seu próprio negócio, a clínica era dele e ele sabia dos problemas e dos poréns, dos pequenos segredos sanitários e perfecionistas, de tudo que faltava pra ser perfeito. A história de como aquela cena era possível, da clínica, dele sentado como dono e como veterinário era longa e difícil demais pra que alguém se sentisse no direito de a desrespeitar.

Entre uma resposta e outra ele se dá conta de que o casal está entendendo suas palavras. Ele se dá conta de que eles entendem os termos, de que eles estão prestando atenção e que apesar de sua falta de tato, estão dispostos a ouví-lo e parecem confiar no julgamento que ele faz. Ele se sente desconfortável com a quebra de seu senso comum. A regra que rege é que “gente privilegiada é filha da puta, preguiçosa e mal educada”, mas o casal a sua frente não parecer ser nada disso. As perguntas vem de preocupação, não de deboche.

Sentindo ser mais confortável não perverter a regra, ele especula se eles não eram talvez como ele. Será que não teriam também estudado, trabalhado, feito sei lá o que, saído de um algum desses buracos de problemas todos, de pais complicados, irmãos complicados, bairros complicados, pra estarem ali agora, cheios de perguntas e interesses? Será que o olhar para o diploma não foi de desprezo, mas de reconhcimento? Será que o celular maior e mais novo não foi pago com decisão, com escolha, de um jeito certo, justo e honesto e não porque havia um alguém e um como pra “pagar por ele”?

As perguntas se acabam. Ele faz o orçamento da cirurgia e dos exames. Imprime um papel e entrega pra eles. Vão tirar o que parece ser um tumor, vão mandar o tumor pra biópsia, vão descobrir se é câncer. Como é de costume, ele apresenta o orçamento e sai da sala, fingindo que tem que algo para resolver. O serviço todo não é barato, mas não é também caríssimo. Ele pensa como custaria menos que o celular dele.

Ele vai a sala ao lado, cumprindo o ritual de que tinha algo pra resolver. Pelas paredes ele ouve o que o casal conversa. Eles falam sobre o valor, sobre como podem fazer isso e aquilo para pagar, parcelar, colocar no cartão. Falam também sobre as dúvidas que tinham e ponderam a necessidade de operar o gato. Por fim falam sobre ele, sobre como ele não faz questão de ser gentil, como parecia até irritado em responder as perguntas, mas como na hora que a resposta técnica foi necessária, ele soube o que dizer. Especulam que ele provavelmente deve estar acostumado a lidar com gente babaca que chega e trata ele como se ele fosse “um empregado”.

Ele volta até a sala. Eles dizem que vão seguir em frente. Uma data é agendada para a cirurgia, para alguns dias depois. Ele quase falha em conter uma alegria ao anotar a data. Sua alegria vem em parte do dinheiro, do puro e simples dinheiro, a venda feita, o lucro, o necessário lucro do mundo moderno que acalma de forma incomoda e inconsciente as mentes daqueles que sabem todos os problemas do não ter. A outra parte de sua alegria vem de saber da impressão que tiveram dele e que ele agora tem deles.

Agora, ele quer de verdade fazer uma ótima cirurgia. São pessoas legais, não é só uma venda. Ele vai se lembrar deles quando for a hora. Enquanto se despede do casal, fica pensando no próximo paciente e nos próximos problemas. Lembra que mais tarde naquele dia pretende ir ao cinema e fecha a porta fazendo planos de comer pipoca.

Hoje é dia de mentiras. Qual tipo de mentiras? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam mistérios. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque as pias entopem?

Motivo 1 – O curto
Porque o ser humano é sujo, produz sujeira e vive muito tempo.

Motivo 2 – A história
Considere que, para os seres humanos, o programa foi escrito de tal forma que tudo tem que ter consequência, importância e movimento. Tudo. Tudo tem que estar assim e assim, indo pra lá, ou para cá, conforme for o caso, conforme for a regra. De um jeito, ou de outro, apenas deve estar sempre crescendo, nascendo, morrendo, mudando. É assim. É a lei.

Aí, quando na casa, na cozinha, na pia, no banheiro, na pia do banheiro, dia após dia, mundos minúsculos de coisas se acumulam nos furos, nos canos, lançados com mãos leves e sorrateiras, como mágicos, como magia, como ilusionistas, as rotinas.

As pessoas vem e vão, e o sol passa bem rápido e vem a noite e depois o outro dia. E de novo e outra vez. Mais um mês e mais um dia, mais um ano e mais um tempo. Com o tempo, o tempo que passa dá tempo pra que o invisível que se acumulou fique visível. Quase como um conceito que cresce aos poucos, vira ideia e de planos salta até ser coisa real.

Ali, onde não tinha nada, agora há coisas, há uma coisa. Tem vida, tem forma, tem cheiro, tem peso, tem vontade. A água que criou a forma aos poucos, agora quando vem, encontra um filho ingrato, um que fica no caminho, que atrapalha ela seguir. A forma, sem palavras, diz não, porque até nos canos das pias, os filhos um dia enfrentam os pais.

Foram anos e anos, dia após dia, partícula após partícula, um bloco orgânico cheio de histórias de restos de comidas de dias e sons. Há pedaços daquele bolo, daquela festa, daquela comida que deu errado, daquela briga, daquele feriado. Líquidos e sólidos, doces, salgados, amargos e azedos, construídos numa massa que aos humanos soa nojenta, mas que é, em essência, um registro incomum, impopular — e verídico — de sua passagem por aqui.

Preso naquele túnel, no cano, a forma não sabe se ela mesma tem vida, se tem consciência ou desejos. Ela apenas está lá, ela apenas bloqueia, ela cresceu mais do que cabe para o lugar onde nasceu. Um ponto crítico, um momento limite. Não dá mais pra ser hoje como era ontem, a água não vai mais passar. Ela bate e volta.

As pias se entopem porque a vida sempre respinganda resíduos invisíveis pra todos os lados. Atinge as pessoas. Atinge os lugares. Atinge as pias. Nas pias, nos canos, os respingos se acumulam porque lá passa mais coisa. O pó vai embora, mas os restos de comida e a gordura dos lábios, dos dedos, dos alimentos e outros, não podem voar pelo ar.

A animação abaixo é de Steve Cutts e fala da jornada de um roedor em busca de felicidade e propósito num mundo estranhamente familiar.

Pra ver mais coisas dele, clique aqui.

Os desenhos abaixo são de Jessica Luna, lá da Itália.

Se quiser ver mais desenhos dela eis o link para o instagram.

Na nossa conversa de podcast dessa semana vou indicar três podcasts que falam sobre o mundo, sobre o que acontece no mundo, uma mistura de jornalismo, com análise política, história e humor.

É um dos fatos de se envelhecer, em algum momento as dicussões políticas deixam de ser gritos apaixonados e mal informados adolescentes e existe uma necessidade de entender as regras da sociedade e como essas regras afetam sua vida. É bem verdade que muita gente não tem essa sede por esse tipo de discussão, mas se você gosta da podcasts, ou se gosta de ouvir pessoas falando, apresentando e discutindo ideias, é bem provável que esse tipo de discussão te chame a atenção. É um por isso que os podcasts de análise política e jornalística são também uma categoria bem grande nesse admirável mundo dos podcasts.

O primeiro podcast indicado é o Xadrez Verbal. É um podcast brasileiro, semanal e de política internacional. Eles pegam as notícias da semana e fazem uma análise bem interessante e muito mais aprofundada do que o que “jornalismo” mais comum costuma fazer. O tom do podcast é leve, mas o conteúdo é bastante abrangente o que pode ser algumas vezes cansativo se você não estiver no clima. Seja como for, é o tipo de podcast que realmente te ensina a ter uma “visão” das coisas e do quanto a política internacional é complexa e afeta a nossa vida. Se você inclusive é uma dessas pessoas que se interessa por diplomacia, relações internacionais e seus derivados, esse podcast é um prato cheio.

O segundo podcast é o Nós Brigamos no War, ou simplesmente NBW. O que eles fazem é parecido com o que o Xadrez Verbal faz em termos de análise das notícias e dos eventos e até mesmo do tom da conversa. A diferença principal é que o foco deles é na política nacional. Porque os veículos tradicionais não conseguem fazer o que eles fazem, não só como análise, mas na apresentação clara das coisas, é um mistério que nos levaria a elaborar milhões de teorias de conspiração. Sim, milhões.

A terceira e última indicação é um podcast em inglês que fala de política internacional, mas mais principalmente da política internta dos Estados Unidos. O nome do podcast é Real Time with Bill Maher. É um podcast semanal e em inglês, baseado em debates e opiniões. O Bill Maher é um comediante de stand up, que faz stand up de política, então as dicussões acabam sempre tendo uma pegada mais de humor. O que é interessante ver é como nas dicussões eles conseguem trazer pessoas dos dois lados e especialmente na parte que não é de debate como a liberdade que um homorística tem para falar as coisas nos Estados Unidos é bem diferente do que acontece no Brasil. Nossa noção de democracia é muito diferente. Vale dizer também que esse podcast é a versão em aúdio desse programa que também tem uma versão em vídeo que é produzida pela HBO.

Como esses três podcasts comentam os assuntos da semana, dá pra pular direto no último episódio e ver se lhe agrada. Os três podcasts estão por aí nos aplicativos de podcasts, mas, como sempre, segue abaixo os links se você preferir.


Podcast: Xadrez Verbal (em português)


Podcast: NBW (em portugês)


Podcast: Real Time with Bill Mahler (em inglês)