Intermitências do abismo 03 – Lucas Mesmino e as árvores

Alguém disse uma vez que os dois dias mais importantes da sua vida são o dia em que você nasceu e o dia em que você descobre o porque. A tragédia é que muito mais frequente do que se imagina, as pessoas só descobrem porque nasceram na hora que morrem. Ou nem descobrem.

A professora Lorena observava, lá do alto do quinto andar, da janela da sala dos professores, o gramado aberto e o pátio com algumas árvores e a estátua da padroeira da escola. Era hora do intervalo e todas as crianças do 1º B, a turma dela, bem como todas as outras crianças da escola, corriam, conversavam e se moviam de lá pra cá, energizados pelo caos infantil. Todas as crianças, menos Lucas.

Sentada em uma cadeira estrategicamente posicionada, a professora Lorena tinha na mão uma caneca grande, cheia de café e açúcar. Ela bebia, observava, bebia, confabulava consigo mesma e bebia mais. Pequenos goles, pequenos e constantes, pra fazer o momento durar mais. Se nós não tivéssemos como entrar na cabeça dela, jamais saberíamos que ela não estava olhando as crianças, ela estava olhando uma criança. Ela observava Lucas. Apenas Lucas.

Lorena tinha uma fascinação levemente doentia por Lucas. Não é como se ela quisesse o mal para o menino, é que ele falava tanta maluquice e se comportava de um jeito tão diferente e inesperado, que ela não queria que o concertassem, tinha até medo que descobrissem tudo que ele dizia e fazia com medo de que tentassem “dar um jeito” nele. Uma mistura de instinto maternal com curiosidade. Ela só queria o bem do garoto ao mesmo tempo em que precisava muito ver no que aquilo ia dar.

Lucas, como quase todo dia fazia, caminhou até uma parte do pátio que tinha uma árvore bem alta e sentou ao lado dela, de pernas cruzadas. Sentou e ficou lá. Ficou lá sentado e olhando, sem se mover. Alguns dias, ele não olhava nada, ficava com os olhos fechados. Outros dias, cavava um pouco na terra antes de sentar, talvez tentando se aprofundar, ou quem sabe se enraizar um pouco mais.

Na sala de aula, ele tirava boas notas. Não fazia perguntas nem participava da aula mais do que lhe exigiam, mas vez ou outra suas maluquices iluminavam o dia da professora Lorena.

Certa vez, ela pediu que os alunos escrevessem uma pergunta científica sobre qualquer coisa que quisessem saber. Eles iriam votar e a professora iria com eles procurar a resposta. Valia qualquer coisa coisa. Lucas escreveu assim:

“O tempo passa sem voltar. As memórias não lembram tudo que aconteceu. Então o que é real de verdade?”

A pergunta de Lucas, obviamente não foi a mais votada e ele não pareceu surpreso. Especialmente porque ele mesmo não votou na própria pergunta, ele votou na pergunta vitoriosa “De onde vem a chuva?”.

Uma vez, na aula de matemática, ele quis saber porque os números não tinham escolha. Ele queria entender porque somar dois números sempre dava o mesmo resultado. Porque 2 mais 3 tinha que ser sempre 5? O 2 e o 3 não tinham escolha? E se ele fosse um 2 e a vida dele fosse um 3, e ele não quisesse se tornar um 5?

Lorena não sabia o que responder sem quebrar a fantasia de Lucas — e ela não queria quebrar. Disse só que pessoas eram diferentes de números, mas foi embora pra casa pensando na pergunta do menino e nas próprias somas de sua vida.

Um dia, todos saíram para o intervalo e ela ficou pra trás na sala para arrumar o projetor. Viu que na mesa de Lucas havia um bilhete dizendo assim “Mesmino, coma a fruta toda, não só metade!”. Quando conversou com ele depois, descobriu que “Mesmino” era como sua mãe o chamava, que o recado era pra ele.

Lucas explicou pra ela que tinha problema de comer a fruta toda, não importava qual era a fruta. Pra ele a fruta era uma coisa viva, tinha aprendido inclusive com ela, aí achava que se ele comesse só um pedaço da fruta, ela não estava morta, ele tinha só feito um machucado nela, o suficiente pra ela sobreviver ou no mínimo morrer em paz, sem ser totalmente devorada.

Lorena pensou bastante se deveria perguntar pra ele a respeito de carne, se ele sabia o que era e de onde vinha, mas ficou pensando nos problemas que poderia causar na casa dele e preferiu deixar a conversa morrer ali. Lorena nunca mais comeu uma fruta inteira na frente dele e ele parecia ficar contente por isso.

Lorena não sabia, mas Mesmino, ou Lucas, era um produto do acaso. Em casa, não tinha pais como ele. Sua mãe, inclusive, reprovava muito seu jeito maluco de ser. O pai, por outro lado, estava mais focado em outras coisas do que em criar filhos.

O apelido “Mesmino” inclusive era uma provocação a respeito de como ele falava de si mesmo quando era mais novo. Foi uma vez que sua mãe achou um desenho dele e perguntou quem tinha feito aquele desenho, porque, na cabeça dela, estava bom demais pro filho dela ter feito. Lucas, ainda muito novo, respondeu “Eu mesmino”. Lucas não voltou a desenhar em casa, mas se tornou Mesmino para a mãe.

Em casa ele tinha brinquedos velhos que tinha encontrado por ali. Não sabia ao certo de onde eles tinham vindo. Seus favoritos eram bonecos e principalmente bolinhas de gude. Gostava do som quando duas se tocavam, gostava do peso, as achava bonitas, especialmente quando brilhavam no sol.

Em um certo sábado, eram menos de 11 da manhã e Lucas estava já havia mais de uma hora brincando com bolinhas de gude, como se elas fossem pessoas, como costumava fazer quando não tinha bonecos o suficente ou com a personalidade que ele precisava.

— Eu vou invadir o seu país! — Dizia ele numa voz que tentava imitar o que pra ele era a voz de um general, segurando uma bola de gude verde escura.
— Não, não vai, seu comunista! — Respondia uma bola transparente, num tom de voz parecido, mas não igual.
 
Da cozinha, sua mãe observava. Ouvia. Ouvia mais que observava. Enxerida. Fingindo que cozinhava e que não estava lá. Mas ela estava e Lucas odiava aquilo. Odiava ser o objeto de curiosidade dela. Odiava ser o objeto de estranheza. Odiava de verdade principalmente porque não era possível simplesmente ouví-lo fazendo suas idiotices: era necessário comentar e transformar em piada algo que ele dissesse. De um jeito ou de outro. Eventualmente.

— Olha lá seu filho brincando de Guerra Fria de novo. Isso não tá certo, não pode ser direito, bolinha de gude não fala, nem pode invadir nenhum país! — dizia a mãe de Lucas, ao marido.
— Deixa ele, que é que tem pro almoço hoje?
— Essas coisa de imaginação demais não faz bem pra cabeça. Bolinha de gude é pra brincar como bolinha de gude. Logo esse menino vai dar pra ficar louco e aí como é que vai ser?
— Deixa ele, que é que tem? Não virando gay tá bom.
— Como assim que é que tem? Gente louca faz maluquice.  Fica olhando pro mundo como se não fizesse parte dele, quer ficar fazendo coisa da vida de ficar desenhando e tocando música e ainda são tudo maconheiro.
— Ele tem 5 anos, deixa ele. — Lucas tinha 7 anos.
— Tem nada não. Tem nada não. Você não tá nem aí pro que eu falo.
— Ah! O menino é menino, tem que imagina, brinca com as coisas. Todas as crianças fazem isso.
— É, mas não assim. Brinca demais, imagina demais, isso aí é só atraso de vida. A gente tinha que dá um jeito pra ele, colocar ele pra fazer alguma coisa que comece a coloca alguma coisa nessa cabeça oca dele.
— Mas ele não é cabeça oca, vai bem na escola, não tem reclamação dele.
— É, mas e a vida? A vida não é nota na escola, a vida é a vida. O que é que esse menino maluco vai ser?
— Porque é que você tá se apegando tanto com isso bem agora?
— Fui buscar ele ontem e entregaram os trabalhinhos e coisas do bimestre. As mães tavam falando de uma certa redação que eles tiveram que fazer sobre o que eles queriam ser da vida. Todas comentando que a filha queria ser igual ela ou dentista, ou sei lá. Sabe o que o Mesmino escreveu?
— O que?
— Que queria ser uma árvore! Passei o maior carão!
— Ah, dúvido que alguma mãe ligue.
— Ligam sim, ficaram me olhando estranho!
— E ele disse porque queria ser árvore?
— Ele escreveu que gostava de ficar no sol, parado e olhando as coisas. Temos que fazer alguma coisa!

Mesmino se deixou revelar, levantando a cabeça um pouco quando ouviu a última frase da mãe, num reflexo de medo sobre o que aquilo poderia dizer. Alguma coisa? Como assim? Nem a mãe e nem o pai perceberam que ele tinha parado de falar e que estava fingindo que brincava enquanto ia ouvindo, uma habilidade familiar que, como os brinquedos ele não sabia de onde tinha vindo, aprendera sem querer pelos exemplos que tinha em casa.

Quando sua mãe o confrontou sobre a redação, Lucas não sabia responder. Ele observava seus amigos carregados de desejos e vontades a respeito de tudo e de todos e não entendia porque ele, justo ele, fazia também parte daquilo. Deveria, provavelmente, ter nascido como uma árvore, ele sentia, de verdade, que como árvore ele seria algo mais próximo do que ele se sentia mesmo. Não achava que ficar vegetando fosse ruim, não achava realmente ruim ficar apenas observando as coisas sem ter que fazer parte de história nenhuma, nem incomodar ninguém, nem preocupar, nem fazer a mãe passar “o maior carão”. Talvez ele fosse um erro.

A mãe de Mesmino ficou sem reação. De tudo que ela esperava ouvir, nunca esperava ouvir que o menino se sentia um erro, um erro da existência, especialmente porque talvez ele fosse mesmo. Ela mesma já tinha pensado nisso, no que tinha feito de errado pro menino não ser como todo mundo.

A mãe de Mesmino era uma ignorante, mas ela tinha afeição pelo filho. Fazia suas piadas e seus comentários, mas o que ela queria era apenas que ele fosse feliz, que ele crescesse bem na vida. Se ser árvore fosse a única resposta, o que ela poderia fazer? Ela não poderia impedir Lucas de ser o que queria ser. Ninguém podia.

O ano letivo caminhava pro seu mês final. Lucas mesmino tinha tirado boas notas, estava já aprovado e apesar de achar interessante saber das coisas, o fato de saber que já estava aprovado lhe dava um pouco mais de liberdade pra só prestar atenção no que realmente lhe interessava. Tirar boas notas era algo no campo da cobrança de normalidade que não lhe incomodava, afinal. No restante do tempo ficava olhando a janela. A sala ficava no terceiro andar, alto o suficente pra ver o topo das árvores do pátio.

Mesmino via o vento mover os galhos das árvores, via até se esquecer que era o vento e aí, como a janela fechada e sem o som de lá de fora, era como se as árvores estivessem se mexendo. Era como se estivessem chamando por ele. “Venha, Lucas, venha. Venha ser árvore conosco, Lucas, venha”.

Aí, no meio da sala, no meio da aula, sem que ele mesmo entendesse o porque, Lucas começou a chorar. Não era alto e escandaloso, ele não queria chamar a atenção, foi só algo que de uma hora para outra lhe preencheu, aqueceu os olhos e fez o que fez.

“Foi como um copo enchendo bem rápido de água no filtro e enchendo sem dar tempo de desligar, enchendo até transbordar.”

Foi o que ele disse para a professora Lorena quando ela notou seus olhos e o levou para fora da sala. E ela perguntou em seguida, antes de perguntar se ele queria que chamasse a mãe dele, movida uma vez mais pela curiosidade mais do que pelas regras e obrigações: “E o que encheu seu copo que te fez chorar?”.

Mesmino começou dizendo que não sabia, depois começou a contar o que estava pensando. Contou da ilusão de imaginar que não tinha vento e que as árvores estavam chamando por ele, pra ser árvore com elas, aí foi o sentimento de estar ali preso, de estar ali na aula, na cadeira, preso, na obrigação daquele dia, daquelas coisas, de tudo aquilo que ele deveria decorar e saber e não ficar pensando em ser árvore ou que o vento não existia. Aí ele disse que se sentiu como que em queda livre, sem opcão, como um 2 que vai ter que ser um 5 porque sua vida era um 3, que ele não tinha de verdade escolhas, que ele não podia de verdade fazer o que queria fazer, que ele estava ali porque tinha que estar, porque seus pais brigavam, porque ele não fazia nada direito, porque não era direito, porque não era normal e como os outros e ele só queria ficar em paz, ao vento, vendo o mundo e o tempo passar.

Lorena não sabia se entendia de verdade o que Mesmino descrevia pra ela. Achava que sabia, achava que entendia e, da mesma forma que ele, viu seu copo se preencher sem dar tempo de desligar o filtro e seus olhos também se encheram de lágrimas, porque ela mesma viu na angústia do menino uma angústia que de certa forma era também dela. Pensou em sua vida, em seus trinta anos, solteira, sem dinheiro e sem saber o que fazer da vida. Por cima disso, havia um sentimento instintivo de se padecer por ver uma criança sofrendo um sofrimento que não era bobo ou infnatil, se perguntando e remoendo coisas que grande parte dos amigos dela jamais chegariam a pensar.

Ou, talvez, ele fosse só uma criança maluca e Lorena estivesse apenas vendo demais porque quem tinha mesmo um problema era ela, vendo o que queria ver nas palavras dele, buscando o que ela precisava numa descrição menos concreta de um sentimento qualquer.

Lucas mudou seu tom quando viu que a professora tinha lágrimas nos olhos. Ela ao contrário dele, já mais adulta e já treinada a reprimir sentimentos sempre que necessário não chegou a chorar, mas foi o bastante pra que ele assumisse ares de quem se preocupava. Não que estivesse fingindo, mas ver alguém assim e achando que podia ajudar, algo nele ativou uma espécie de propósito, de possibilidade de outra coisa.

Anos mais tarde Mesmino lembraria daquele dia como sendo o dia que descobriu que ele poderia fazer mais do que ser uma árvore. Os fantasmas e pesadelos, os medos e desejos malucos que percorriam sua cabeça, que lhe deixavam acordado na hora de dormir, as vozes em sua cabeça perguntando e dizendo coisas, tudo isso não era algo que só ele tinha, mas ele tinha e tinha desde muito sempre. Por ter estado lá primeiro, por saber como era o caminho até o abismo e o caminho de volta, Lucas Mesmino soube o que queria fazer da vida e qual era seu propósito afinal.

A professora Lorena foi pra sempre lembrada ainda mais quando os anos deram uma nova camada de cor e definição pras memórias daqueles dias. Mesmino lembrou dela, em especial dela, apesar de ter tido no caminho outros professores que ajudaram ele a ser quem ele tinha que ser.

Lucas Mesmino hoje é casado, tem três filhos e é autor de vinte e cinco livros, incluindo sucessos como “Eu que quase fui uma árvore” e “Os embalos da Loucura”.

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