E aí eu vi: The Sopranos

The Sopranos é uma dessas séries que sempre aparece nas listas de melhores séries já feitas. Se você for mais fundo, vai ver como ela sempre é citada também como uma das primeiras séries de TV a terem um nível de qualidade mais elevado, com produção e nível de roteiro e atuação com nível de cinema. Coisas como Breaking Bad, Lost, Game of Thrones e tantas outras séries só aconteceram por causa de Sopranos.

Assistir a série hoje em dia acaba não tendo um impacto tão grande quando tinha na época onde as produções de TV em geral eram muito mais simples e menos exigentes. Especialmente quando aconteceu o boom dos reality shows, a única maneira de uma série de TV sobreviver foi subir de nível, se tornar algo assim. Por isso, pra quem viu a série na época, Sopranos fica fácil naquelas listas de melhores séries de todos os tempos e é por isso que a série recebe tantos e tantos elogios.

Eu não vi a série na época e pra mim esse contraste entre o que eles fazem e o que tantas outras séries fazem hoje em dia é muito menor. Ver também a série com a facilidade das maratonas de hoje em dia, sem ter que necessariamente esperar uma semana pra digerir um capítulo ou meses até uma próxima temporada, muda um pouco a reação aos fatos e aos personagens. Ainda assim, ainda hoje, a qualidade de roteiro e atuação é bastante notável, a densidade dos personagens e a maneira como cada coisa se desenvolve, como o roteiro algumas vezes leva a história pra um lado que acaba sendo inesperado ainda existe e é bem forte.

A série tem 6 temporadas, com 13 episódios de mais ou menos 1 hora, com exceção da última temporada que tem 21 episódios. A série tem mortes inesperadas que para esses tempos pós Game of Thrones acabam não sendo tão surpreendentes, o que mais uma vez me faz imaginar o quão inesperado e inovador a coisa toda devia ter sido na época.

A série fala sobre a máfia de Nova Jersey, dando foco no personagem de Anthony Soprano (ou Tony, se você preferir), que tem uma posição de importância dentro do esquema mafioso da região. As histórias giram em torno dele, da sua vida pessoal e da vida pessoal das pessoas em volta e que fazem toda a “coisa nostra” funcionar e ser. Parte da história está também na relação do Sr. Soprano com sua psiquiatra e em sua descoberta pessoal dentro das conversas que tem com ela.

Dito isso, pra mim o maior destaque da série nem é a história principal e como ela se fecha, acho inclusive que existe uma certa queda na qualidade da história, que existe um crescimento de qualidade até o meio da série e que a coisa toda vai caindo até chegar ao final. Isso não quer dizer que o final é ruim, é bom deixar claro, mas que, pelo menos nessa minha opinião, a decisão do que fazer com certos personagens e como certos arcos e núcleos se fecham, especialmente na última temporada, não me deixou muito contente.

Sem estragar a experiência de quem ainda não viu, acho apressado como certos conflitos são encerrados ou apenas deixados de lado na reta final da história. Apenas pra citar um, o arco todo com a psiquiatra acaba encerrando de uma forma muito rápida, apesar de fazer sentido, apesar de ser correto como é feito, fica estranho, apressado, como se tivesse faltado tempo.

O maior destaque da série pra mim são os personagens, como eles não são simples, eles tem camadas e densidade, não só pela atuação ou pelo jeito de falar, mas por terem um passado, um jeito de ser que não é só um acessório de roteiro pra fazer a história avançar. Quase todos os personagens acabam tendo um episódio pelo menos focado neles e essa não é uma série de efeitos especiais e batalhas com dragões, então o interesse e o peso é dado pelo que é dito, pelo que não é dito, pela atuação em si. Daria facilmente pra escrever um post sobre cada um dos personagens principais e estamos falando de uns 12 personagens.

Algo muito bem escrito é a parte de conflitos familiares, de como Tony leva em sua vida adulta os traumas da infância e como aquilo define muito do que ele pensa, teme e almeja. Os personagens da mãe dele e da irmã dele são muito interessantes. Gosto muito também da relação dele e da mulher dele com os filhos, deles sendo adolescentes criados numa casa com dinheiro e como eles crescem e se tornam adultos, com discussões e comportamentos que muito autênticos e que mostram como adolescentes podem mesmo ser uns babacas do caralho.

Acho interessante também a relação de conflito que a série pode causar no espectador por se ver do lado de um grupo de pessoas que é em síntese, um conjunto de bandidos e assassinos. A série inclusive não segura a mão na hora de mostrar como eles podem ser ruins, egoístas, explosivos e violentos. Existe um balanço no roteiro entre mostrar os personagens como caras legais, mas sem deixar que você esqueça que aquelas mesmas pessoas legais também vivem a vida desse outro jeito aqui.

Algo que me chamou a atenção nos roteiros ao longo de toda a série é como a história flui. Não existe enrolação, muita coisa acontece em um mesmo episódio. Dá até pra dizer que se um desavisado pegar um episódio aleatório já começado, a montagem, a atuação, o plot do episódio, é tudo amarrado e bem feito o suficiente pra se abrir e se fechar dentro daquela uma hora. O ilustre desavisado talvez até achasse que era um filme e não uma série. Isso inclusive é interessante, não é toda série que consegue ter “o monstro da semana” ao mesmo tempo em que conta uma história maior de uma forma tão bem feita.

Um último comentário antes de encerrar é que a série conseguiu causar em mim aquele efeito de incomodo que algumas histórias conseguem. Aquele incomodo que surge quando um determinado personagem vai indo pra um lado que você sabe que é errado, que o personagem sabe que vai dar merda, que todo mundo sabe que só pode dar merda, mas ele segue, ele vai, porque é da natureza dele, não soa forçado, mas incomoda, porque mesmo que sejamos lembrados várias vezes aqui e ali que aquelas não são pessoas pelas quais devemos torcer, acabamos torcendo ou no mínimo desejando que as coisas fiquem melhores e muitas vezes elas simplesmente não ficam, porque é assim que as boas histórias são.

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