Pessoas: 21 — Ele e os mortos vivos

As teclas tocam o som inevitável do acúmulo dos dias, dos passos arrastados, do esforço feito a mais com o olho no prêmio, no objetivo, no que se acredita estar lá, sem saber se está mesmo lá, onde é lá e o que se quer de verdade.

O que se quer de verdade é só mudança, é algo melhor, é uma satisfação pessoal natural a respeito da maneira de fazer as coisas, do ser das coisas. É a busca incessante e inconsciente por dias que façam sentido e que não façam sentir como se o tempo foi desperdiçado, como se a vida foi levada para o lado errado.
 
Nos ouvidos toca o som de mais uma conversa gravada. Mais um retalho de piadas e histórias. Mais pessoas contando o que outras pessoas fizeram ou o que pensam e acham sobre isso e aquilo. A companhia é psicológica. Não tem ninguém mais ali, não são amigos, não são companheiros, não são mestres indicando o caminho. São só fones de ouvido tocando e acompanhando o passo após passo dos dias.
 
Se a tolice pudesse ser medida em massa, ela teria o peso destes dias. A preocupação forçada com aquilo que não faz diferença. O labor extasiante, a dedicação tão séria e tão apaixonada para resolver uma tolice, um problema menor, pior, idiota, quase surreal, quase que tão claramente criado para silenciar a mente que resolve a se manter ocupada, na linha, domada, aquietada, em silêncio, em linha, em ordem.
 
As teclas tocam e batem no ritmo errado. As letras escrevem as palavras erradas. Ninguém se importa, ninguém entende, ninguém está lá com aqueles olhos. Ninguém vê ou identifica o que acontece. Tem só uma sombra dentro daqueles quadrados. Ela anda entre corredores e portas, entre números e emails, pedidos e trabalhos, em um mundo que lhe parece morto vivo, que lhe impede de se sentir vivo e que o faz sentir culpado por não ser como os outros morto vivos.
 
Agora ainda há muita coisa pra ser escrita e dita. Agora e sempre. A voz nunca silencia. Uma nova história, uma nova imagem, um universo após o outro bombardeia a mente que visualiza e sente cada uma dessas ideias que brotam na cabeça dele. A voz nunca silencia. As imagens nunca param. A mensagem continua gritando bem claro que ele deveria ir embora, não pra ser mais um personagem em mais uma história, não pela fama, nem pela glória, mas sim porque ele precisa, precisa antes que continue vivo sem saber que já morreu.
 
 

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