Intermitências do abismo 02 – Reflexos

Ela queria mandar ele embora, demití-lo, mas, olhando pra ele todos os dias, ela não conseguia. Todos dias estampado no rosto daquele imbecil estava aquela cara de merda. Ou melhor, aquela cara de cagado. De que tudo estava cagado. De que o mundo todo era uma merda inacreditável e que não havia nada que pudéssemos fazer porque não éramos nós vermes ou heróis, condenados a estar naquela situação para nos superar e aprender ou qualquer coisa assim. Não. Nós estávamos nessa porque éramos merda também e nos misturávamos com a merda do mundo sem sermos capazes de dizer o que era “o mundo” e o que éramos “nós”. Ele sabia de uma verdade que muitos, durante uma vida toda, nunca vão saber. Mas de um jeito errado. E fedido.
 
Ele tinha visto só parte das coisas. Ele não conseguia se dar conta que existiam outras coisas além de merda. Que existiam outras pessoas além daquelas e que as pessoas em si eram sim umas merdinhas do caralho, mas não totalmente e não o tempo todo.
 
Ela sabia que ele tinha ficado assim por causa de algum problema da vida dele. Ela não podia simplesmente chegar e querer que ele contasse toda a vida pra ela. “Um ambiente de trabalho estabelece relações interpessoais não profundas com o objetivo de realizar atividades com um objetivo específico de gerar lucro”, foi o que ela leu no caderno aberto a sua frente. Tinha anotado essa frase que havia sido dita por um desses gurus de porra nenhuma, no último treinamento para as chefias e pago pela empresa.
 
Ali da sala dela, cercada de vidro e elevada um lance de escadas mais alto que o resto das pessoas que comandava, ela podia observar cada um deles e algumas vezes ela se sentia responsável. Na verdade, por alguns deles ela se sentia responsável o tempo todo, mas, especialmente, em relação a ele, ela via algo diferente.
 
Ela queria mandar ele embora. Ela sentia que devia mandar ele embora, mas não era uma questão de incompetência. Era aquele olhar que dizia a ela que ele carregava alguma coisa que ela, de certa forma, também carregava, mas que tinha se acostumado a compartimentalizar, a cercar e isolar dentro de si, a guardar pra mais tarde e lidar com tudo aquilo quando os compartimentos eram demais, quando a loucura se acumulava e a desculpa da reunião, do prazo, do cliente, da puta que o pariu, já não funcionava mais.

Ela sabia lidar com a própria cabeça, absorvendo e vendo todos os problemas das pessoas e do mundo e via que ele não sabia e que aquela consciência fazia ele ver o mundo todo como um mar de merda. Ela se sentia responsável. Se sentia como uma irmã mais velha.
 
Havia também um outro problema. Por ele estar assim o tempo todo, envolto nesse sentimento, sua motivação para fazer as coisas era visivelmente decrescente. Quando ele tinha chegado, havia uma luz diferente, talvez quase de esperança em relação as coisas do mundo e ao que poderia ser feito e visto. Mas ao passarem os dias, ao lidar com as pessoas e as coisas que as pessoas tem, ao cair na rotina, ao ver os problemas e os problemas dos problemas e os problemas dos problemas dos problemas, a motivação foi indo embora, camada por camada, grão por grão, fiapo por fiapo.
 
Ele era muito inteligente. Desses que conseguem fazer a pergunta que ninguém fez, de ver o que ninguém viu, de resolver em um dia o que as pessoas estavam tentando fazer tinha um mês. E o problema não era que os desafios não estavam a altura dele ou qualquer coisa assim. O problema era outro, era um que ela mesma conhecia: as coisas a serem feitas, os problemas, a coisa coorporativa toda, as cenouras no bastão, as apostas e as recompensas, as férias, o décido terceiro, os recessos e os feriados. Era tudo simplesmente idiota.

As preocupações no fundo eram cretinas. Havia muito mais coisa importante e relevante em se estar vivo do que em fazer essa planílha, aquele planejamento, essa venda, este cliente, essa meta, esse outro planejamento. Esse boleto. Aquele boleto. Eu boleto, tu boletas, eles boletam.

Essa porra que se fodesse bem grande.

Dava dinheiro e dinheiro resolvia outros problemas e abria portas. Ainda assim, o preço pelo dinheiro, pra certas pessoas e em certos dias especiais, parecia mesmo caro demais.
 
A equipe, o setor, o grupo, precisavam de pessoas como ele. Mas ela sabia que era injusto, porque apesar de ela ter aprendido a lidar com as coisas que ela sabia que ele via, ela tinha compartimentado bem guardado, bem lá fundo. Ela sabia lidar com o fato dela mesma ser uma farsa. Ela sabia que era tudo uma babaquice, mas tinha aprendido a calar essa voz e a seguir o comando da empresa, do sistema, do projeto, do lucro, do lançamento, do novo renovado, outra vez e de novo, da compra, da venda, da cobiça, da ganância, da viagem, da promoção, do ter, do possuir, do ser possuído pelas coisas que você possuía.
 
Ela sabia que dentro dela havia sido compartimentada uma versão dela mesma que havia sido traída quando facilidades lhe foram dadas e desejos mais básicos saciados. Ela sabia que essa versão compartimentada estava viva apesar de querer acreditar e agir e falar consigo mesma que aquela ela estava morta.
 
Ele fazia ela lembrar de tudo aquilo. Fazia ela pensar que ele poderia ser ela dali uns anos. Ou que ele poderia ser ela uns anos antes. Ou que ele poderia simplesmente um dia não vir e ela então iria descobrir através de uma mensagem da gerência, bem escrita, mas sem qualquer coração, que ele havia se matado.
 
A vida maravilhosa de todos nós. A linha tênue entre o sucesso e o fracasso. O potencial destruído porque na casa de um as coisas eram de um jeito enquanto que na casa de outro as coisas eram de outro. Conhecimentos distintos de uma mesma verdade sobre a vida, conhecimentos incompletos, tidos como completos, porque as pessoas acreditam que o mundo é como eles veem que ele é. Uma formiga, muito eloquente, dizendo a todos que tudo que existia no mundo era o formigueiro e as coisas em volta dele.

A mesma formiga, se me permite dizer, poderia dizer que uma pessoa ao nascer onde nasceu está condenada a carregar consigo um conjunto de valores enraizados em sua cabeça sobre como as coisas são, sobre como as pessoas são, sobre como o mundo funciona.

Ela não sabia da vida dele o bastante pra saber se ele tinha o que era necessário para lidar com a própria escuridão. O inferno de onde ele saiu podia ser muito pior do que o inferno de onde ela mesma se lembrava todo dia de ter saído.
 
Ela viu que horas eram. Viu que tinha passado tempo demais pensando naquilo tudo. E viu que no reflexo do seu rosto, refletido no monitor que tinha sido apagado por seu ciclo de eficiência, produtividade e economia de energia, que aquele rosto não era o dela, era o da outra ela e que ela ainda estava ali, bem viva, possivelmente mais viva do que ela e a causa era dele.
 

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