Pessoas: 20 — Ela que colocou fogo

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que não existe.

Pessoas: 20 — Ela que colocou fogo

Ela só se deu conta do que tinha feito depois de deixar de sentir o palito de fósforo em seus dedos e passar a sentir o calor dos papéis queimando. Uma pilha de memórias acesas, sendo desfeitas numa noite fria, no pequeno quintal da casa de seus pais.

A irmã pequena olha pra ela sem entender muito bem o que acontece, mas ajuda a irmã mais velha conforme ela pede, passando os cadernos e papéis que ela joga na pequena fogueira que continua queimando. Existe algo hipnótico no fogo, existe um aconchego vindo do calor. Existe um ar de fantasia por ela ser capaz de ainda ler algumas palavras dos papéis que queimam, reconhecendo a própria letra e o trecho que aos poucos se consome no calor.

Ela está queimando seus diários. É um ritual. É um ritual que ela inventou pra ela própria. Um ritual de passagem. Ela quer deixar pra trás aqueles anos e aquelas pessoas. Mais do que os anos e as pessoas, ela quer deixar pra trás ela mesma e as reflexões e inseguranças que tinha registrado naqueles cadernos agora queimando.

Aqueles cadernos pesavam em quem ela era. Como se existisse uma ligação com aquele personagem que ia além do mero relato das coisas que aconteceram. Ter ali escrito os pensamentos e as histórias criava uma camada de vaidade, de reverência, uma solidez artificial. A forma escrita fazia com que ela desse mais importância para aquilo tudo do que aquilo tudo merecia. As conquistas eram maiores e as depressões também, simplesmente porque estavam escritas.

Não ajudava também ela ter o hábito de voltar para ler as coisas que tinha escrito de tempos em tempos. Sentia algumas vezes uma certa satisfação por se ver com problemas e coisas, por ver que a sua história ali escrita descrevia um personagem do qual as pessoas deveriam ter pena e apresso. Ora, olha só como ela sofre. Ora, olha só como ela só tinha a melhor das intenções. Ora, olha só como ela é cheia de sonhos e como o mundo é ruim pra ela. Era uma idiotice auto alimentada. Uma masturbação involuntária. Um masoquismo afirmativo, velado, feito escondido, secreto no caderno que só ela iria ler depois e depois.

Aqueles diários não eram cheios de mentiras. Quando ela escrevia, registrava o que tinha acontecido. A ideia era contar para alguém que não fosse lhe julgar tudo que passava em sua cabeça. Ela não mudava as coisas. Ela não omitia. Ainda assim todo o relato era contaminado por algo mais profundo, mais fundamental. A sua visão das coisas lhe limitava a percepção. Sua imaturidade daqueles anos lhe deixou como herança relatos de histórias que não aconteceram com a importância ou a intensidade que aquelas palavras tinham. O personagem que ela era naquelas histórias não era saudável, nem era real.

Agora, no parapeito do salto para a vida adulta, olhava pra trás, pros diários da sua adolescência, entendendo o quanto eram pequenas e desimportantes aqueles medos e aquelas coisas. Ela não sabia o que deveria vir depois, ela só sabia que aquilo tudo estava errado, que as coisas não eram daquele jeito e que ela precisava ser livre de ser o personagem que ela tinha criado naqueles cadernos.

A irmã dela entrega o último caderno e ele queima como os outros queimaram. Não queima diferente por ser o último. Não brilha mais forte por ser o mais antigo de todos. Queima igual, se desfaz igual, apesar dela esperar um vento diferente que crie uma forma diferente no fogo, algo que faça daquele momento algo especial, memorável, heróico, algo como um momento de virada numa história, a história dela mesma, que ela continua a escrever mesmo que não escreva mais em nenhum caderno.

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