Intermitências do abismo 01 — Fotos

— Essas fotos que você fala, porque elas são importantes?
— Não sei se são importantes.
— Você fala de um jeito que faz parecer como se elas fossem.
— Não são as fotos em si, é o que elas registram mesmo.
— Que seria o que?
— Algo que existia e que não existe mais.
— Isso é o que todas as fotos fazem.
— Ha-Ha, que piadista. Ha. Não é isso, é como se fosse uma sequência de coisas que aconteceram e ali naquelas fotos existe um momento em que as coisas ainda não tinham desmoronado e nem que pareciam que iriam desmoronar. Como se em algum momento, ali, naquele dia, naquela hora, o futuro não tivesse escrito ainda, pelo menos não o futuro que aconteceu depois.
— Ainda assim, qualquer foto tem isso. Você pode tirar uma foto de você agora, com todas as suas certezas do momento presente e todas as expectativas e projetos pretensiosos ou não sobre o que você quer para o seu futuro. Você pode tentar construir a sequência de eventos, a medida que o futuro ficar mais longe, menos capaz você vai ser de dizer com certeza tudo que vai acontecer.
— Mais ou menos, eu posso escrever, transformar em história.
— Vai ser só uma história, não vai ser vida real. Nenhuma história consegue ser vida real.
— Mesmo assim, o ponto não é prever o futuro, não me incomodar pelo que aconteceu, é o sentimento de que existia um momento em que as encruzilhadas eram outras. Existiu um momento em que as escolhas eram outras.
— Isso é um daqueles sentimentos do tipo “os melhores anos da minha vida ficaram pra trás”?
— Não, não tem a ver com isso. Eu acho até que hoje eu vivo uma vida mais feliz, menos babaca, que eu como pessoa aprendi coisas e tudo mais.
— Então…?
— Então, sei lá. É complicado. Havia algo mais simples. Um caminho de sonhos mais simples, uma felicidade mais inocente e suficiente. Hoje as coisas endureceram, as coisas aconteceram e tudo tem um vel de caos. Eu queria ser capaz de cortar aquele sentimento, extrair ele daquela foto, daquela memória e inserir ele aqui, no presente, ter aqui e agora aqueles dias de sol, de amor, de descoberta, sem ter que ter depois o que veio depois e sem perder hoje as coisas de hoje.
— Recriar memórias não dá certo. Tentar reviver o que já foi não só fica falso como não funciona igual. As coisas, qualquer coisa, só acontece uma vez. Dá pra ser melhor. Dá pra ser pior. Dá pra ser quase igual. Igual não dá. Por exemplo, sei lá, já tentou levar a namorada atual num legal que a anterior gostava, ou mesmo num lugar que você gostava de ir sozinho ou com amigos? Quase sempre não dá certo e quando dá te dá também um gosto ruim na boca, por causa da mentira, da emulação, da tentativa de fazer as coisas serem outra coisa, como se a coisa nova não fosse o bastante.
— E se a coisa nova não for mesmo o bastante? E se tudo ficar uma merda mesmo?
— Aí você virou sem ver um desses cínicos de merda.
— Hehehe, é pode ser.
— Mil opções na vida, mil coisas pra tentar fazer, mil pessoas pra conhecer, livros pra ler, comidas pra provar, lugares pra visitar, histórias pra ouvir, jogos de video game pra jogar. As possibilidades não acabam porque você se tornou incapaz de vê-las.

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