Pessoas: 19 — Ele que tinha certeza que merecia mais

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que não existe.

Pessoas: 19 — Ele que tinha certeza que merecia mais

A sala de reunião é oval e sem janelas. O teto é bem alto e inteiro de uma cor branca leitosa que ilumina a sala toda. Não dá pra ver onde estão as lâmpadas ou se há lâmpadas. As paredes são lisas, de metal fosco, e, à meia altura, há quadros exageradamente grandes, retangulares, com molduras de vidro, pintados inteiros com cores sólidas. No centro de cada quadro, mensagens de ordem estão escritas em letras pequenas, duras e em contraste com a cor sólida do fundo.

Um deles diz “Venha, faça e viva”, em vermelho, com um fundo cinza esverdeado. Outro diz “Se você não é capaz de pensar na solução, o problema é você”, com letras azuis claro em um fundo azul escuro.

No centro da sala e ocupando grande parte dela há uma mesa grande, de madeira escura, em um formato triangular. Não dá pra ver os pés da mesa e ela não é de madeira de verdade, apenas tem a aparência de madeira de verdade. Em volta da mesa há cadeiras de tecido escuro e encosto curvo de vidro. São quarenta e nove cadeiras.

Ele sabe que são quarenta e nove porque cada cadeira tem um número e todas as cadeiras são iguais, exceto a cadeira número 1, que é vermelha, maior e não tem encosto de vidro. A cadeira 1 fica numa das pontas da mesa triangular, nela senta a líder que fala dos números e balanços dos últimos meses e do que é esperado para os futuros próximos e distantes.

Ele se incomoda com aquela sala de reuniões. O teto. A mesa. O encosto curvo de vidro. As paredes. As mensagens de ordem. De onde está sentado ele pode ler um quadro de fundo verde, escrito em preto “O sonho é real para os que vivem acordados”. A frase o deprime, algumas vezes a realidade simplesmente lhe incomoda.

As cinquenta cadeiras estão ocupadas. Quarenta e nove pessoas estão em silêncio, olhando para a cadeira número 1. A reunião é enfadonha e ele tem dificuldade para se manter acordado. É assim até que a líder anuncia algo novo. Algo que o acorda. Ela anuncia a chegada de uma nova pessoa ao reino.

Ele percebe uma mudança no ar, mas não tem certeza se a mudança é real ou se é só sua percepção distorcendo tudo, como volta e meia ela costuma fazer. Não seria a primeira vez. Para ele, o silêncio de agora é diferente do silêncio de antes, é como se antes as pessoas estivessem presentes, mas pensando em outras coisas e seus pensamentos fossem capazes de gerar som. Agora não pensam em nada, apenas ouvem mais atentas que antes, por isso o silêncio é mais real.

Ele imagina que um dos quadros com mensagens de ordem poderia ter escrito “Silêncio é quando você não diz e não pensa em nada.”.

Ele se foca novamente no anúncio da nova pessoa, tentando conter expressões faciais que deixem transpassar suas preocupações e dúvidas. Ele sente gotas de suor se formarem. Ele as sente no alto das costas, na nuca e na testa.

A nova pessoa vem de outro reino, um que a sabedoria popular diz ser melhor que o dele. É o que contam as vozes. É o que ele e os outros sentem vivendo em seu próprio reino.

Porque alguém trocaria um reino melhor pelo reino dele?

A dona da cadeira número 1 para de falar. Chama a nova pessoa. A nova pessoa entra na sala e fica em pé, ao lado da cadeira número 1. Aplausos e sorrisos. Ele também aplaude e sorri. Seu sorriso é tão verdadeiro quanto a madeira da mesa triangular.

A líder explica que no outro reino a nova pessoa ocupava um cargo e prestígio, confortos e acessos, mas que agora neste novo reino terá que começar do zero e que espera contar com a ajuda de todos para que a nova pessoa possa aprender e crescer. Ele fica confuso. Ele fica irritado. Ele segue tentando esconder o que realmente pensa e sente, mas sua tentativa de esconder seu sentimento real é tão transparente e frágil quanto os encostos de vidro das quarenta e nova cadeiras.

Ele observa os olhos da líder na cadeira número 1. Ele imagina que ela está avaliando todos, lendo a todos, buscando exatamente o olhar dele, pra descobrir que ele está mentindo em sem aplauso e seu sorriso.

Ele tem certeza que, quando ela pergunta se alguém tem alguma dúvida, o faz porque sabe que ele tem dúvidas e que ele quer falar. Ele tem certeza que ela quer ouvir a opinião dele. Ele tem certeza que ela não perguntou diretamente porque não quis colocá-lo numa posição difícil. Ele tem certeza que ela acha que ele é especial.

Uma mulher duas cadeira ao lado dele. Uma mulher que ele não conhece realmente, apenas de vista, fica em pé e grita. Seus olhos abrem grandes, sua boca solta palavras de raiva e gotas de saliva voam e caem na mesa falsa de madeira. Ele ouve os gritos dela dizendo que não tem espaço pra mais nenhuma pessoa, que não se tem mais cadeiras.

Ele apenas ouve assustado enquanto a mulher continua gritando que não entende porque alguém aceitaria vir de outro reino melhor para aquele reino tão cheio de problemas. Ela não entende como alguém pode querer começar de novo o caminho, depois de ter estado lá em cima, de ter tido o que muitos durante uma vida toda não poderão ter.

Ele sente identificação, mas sente também inveja. Queria ele ser a voz dizendo aquilo. Queria ele aquele protagonismo. Queria ele ser o protagonista da história da reunião que anunciou uma nova pessoa. Mas ele não foi.

A mulher ainda gritando é levada embora e a nova pessoa se sente agora no lugar que era dela. Ele sente o ar pesado e o tempo mais lento que o normal ao se dar conta que aquele foi só mais um dia normal e ele continua especial e salvo, em seu reino que não gosta, sentado em silêncio como se deve, encostado em seu pedaço curvo de vidro.

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