Mentiras Explicativas: 20 – Pra que serve o café?

“Mentiras explicativas” é quando venho aqui pra contar mentiras que importam, explicam e revelam os mistérios do, abre aspas, universo, fecha aspas. Hoje, por exemplo…

Pra que serve o café?

Motivo 1 – O curto
Pra tirar o sono, temos sono, não podemos ter, não podemos, não pode, não é permitido, e, e, e zzzz zzzz zzz…

Motivo 2 – A história
Por volta do ano 1400 DC, o mundo era um lugar muito louco. Muito. Os barcos evoluindo, as armas evoluindo, a descoberta da importância de se tomar banho e — é claro — a descoberta de que é mais vantajoso vender coisas pra quem não fala sua língua do que simplesmente ir lá e matá-los.

Foi neste tempo, bem ali no pedaço do pálido ponto azul conhecido hoje como Yemen, que algo importante aconteceu. A seleção natural deu cor vermelha para as pequenas frutas de um conjunto de árvores não muito altas que crescia tímida e desimportante ao pé de uma montanha.

Por aqueles lados viva um certo pastor ovelhas e na noite anterior ao ocorrido uma certa ovelha de seu rebanho estava mais uma vez acordada. Ela era também vítima da tal seleção natural, tendo nascido diferente de suas demais irmãs e irmãos ovelhas.

Acontecia que durante a noite ela tinha problemas pra dormir. Ficava olhando o céu, as estrelas, sentindo o vento que vinha sabe-se lá de onde, passar por sua lã, lhe tocar como se fosse algo, como se fosse alguém, mas era apenas o próprio ar.

A ovelha achava isso muito curioso, o próprio ar vir, se movendo acelerado até se tornar algo que a podia tocar. Pensava quais outras forças invisíveis a podiam tocar. Achava confuso, mas aconchegante saber que o mundo tinha uma porção de mistérios que iam muito além de sua rotina de ovelha.

Gostava dos ventos, especialmente nas noites quentes que antecediam dias de frio. Nessas noites, o céu ficava limpo, sem nuvens para segurar o calor no dia seguinte. Dava pra ver o céu brilhar em mil luzes e mil cores, ali, no lugar entre o deserto e o não deserto, onde pouca coisa viva vivia e onde o vento vinha e acalmava o calor que sua própria lã lhe dava.

Seu gosto pela noite havia lhe cobrado um preço ao longo dos anos. Aquelas noites, aquelas boas e inesquecíveis noites, olhando as estrelas e o horizonte, pensando e imaginando o que mais poderia existir no mundo, além do rebanho, além do pastor, além da linha amarela do deserto e da linha verde da floresta, lhe forçaram os olhos. Hoje, já não enxergava tão bem. Da mesma forma, hoje, na manhã seguinte, já não conseguia ficar acordada com a mesma energia que tinha antes. O sono lhe abraçava durante todo o dia, vinha, e ela andava mais lenta e mais devagar que as outras ovelhas, que lhe julgavam e criticavam por saberem bem de seus hábitos noturnos.

“Tem que dormir, irmããããããã”

“É pro seu beeeeem, irmãããããã”

Ela não ligava. As noites valiam a dificuldade de ser como os outros no dia seguinte. Andar como os outros, ser como os outros, balir, comer, beber e esperar pela tosa. Ela não tentava convencer o resto do rebanho que a noite era algo bom, que era divertido ver o mundo que só acontecia depois que o sol se punha, que, além das estrelas e do vento, havia um silêncio que permitia que ela ouvisse seus próprios pensamentos e lhe fizesse pensar e ter ideias que ela nunca conseguiria ter se não estivesse lá.

O pastor era experiente e observador. Um dia depois do outro, foi notando que aquela certa ovelha parecia sempre estar mais lenta que as outras. Especialmente logo pela manhã. Notou também que isso não era um real problema, já que tudo que era esperado de uma ovelha, aquela certa ovelha fazia.

Os fios brancos na barba lhe traziam memórias que lhe serviam como apoio. O pastor sabia que nenhum animal era igual ao outro e que sempre haviam personalidades e variações de jeitos e humores. Ele se lembrava de um coelho que gostava de lhe dar sustos, o esperando escondido, quando via que ele se aproximava. Lembrava também de ouvir falar de um papagaio que não comia sementes de girassol e de um leão que dormia sempre de barriga pra cima. O pasto algumas vezes pensava que, de alguma forma, talvez os animais fossem só um outro tipo de pessoas.

No dia em questão, o pastor em questão, com o rebanho em questão, com a ovelha em questão, saíram para pastar — e sim— o fizeram ali perto de onde ficava o pé da montanha e o conjunto de árvores com frutas vermelhas.

O pastor nunca tinha se aproximado tanto do pé da montanha e daquelas árvores, mas naquele dia o vento estava mais forte e por bater no pé da montanha, se acumulava e criava um corredor mais fresco e indo por ele foi que o rebanho acabou mais perto daquelas árvores do que jamais estivera. Foi aí que o mesmo vento derrubou um galho de uma das árvores, deixando no chão um punhado das tais frutas vermelhas.

As ovelhas pastando em volta, olharam para as frutas vermelhas e não as reconheceram como algo que podia comer. Porém, aquela certa ovelha, a que ficava nas noites acordada, que durante o dia estava sempre cansada, por não enxergar tão bem, ao ver as frutas vermelhas, imaginou serem uvas. Aí, as lambeu e comeu.

O pastor estava distraído e levou um tempo até que percebesse o que ocorria. Quando se deu conta, foi até lá sem correr, pra não assustar as outras ovelhas. Viu que aquela certa ovelha já tinha comido uma boa quantidade das frutas. Ele sabia que aquela era a ovelha lenta e caso fosse preciso buscar algum remédio, levou algumas das frutas para mostrar a quem pudesse ajudá-lo, talvez alguém conhecesse aquela fruta.

No caminho de volta e pelo resto do dia ficou observando como a ovelha se comportava. Pensou no melhor, lembrou que as frutas venenosas eram famosas, que desde muito tempo as pessoas ensinavam umas para as outras o que fazia mal e aquela fruta ele não conhecia. Com certo alívio pode ver que ovelha estava bem e parecia inclusive mais animada e acelerada do que o normal.

Cortou a fruta ao meio e viu que ela era quase que toda apenas semente. Tinha um cheiro bom, uma espécie de amargo encorpado, misturado com madeira escura e algo mais que ele não soube definir.

No dia seguinte, a ovelha estava novamente lenta e o pastor deixou que fosse assim, ainda observando pra ter certeza se ela estava bem. No dia depois desse, ao ver que ela ainda estava lenta, deixou que ela comesse duas ou três daquelas frutas vermelhas e viu algum tempo depois como a ovelha parecia outra vez animada.

Na manhã seguinte, tendo levado algumas frutas pra casa, tentou comê-las para que ele ficasse também mais cheio de vida em seu dia. A fruta era amarga e a semente muito dura. Decidiu então tostar as sementes, como faziam com algumas castanhas, mas elas continuaram duras. Foi aí que decidiu tentar fazer um chá e esse chá escuro, num tom marrom, um com espuma clara, mudou sua vida e depois o mundo.

Ainda hoje, se confunde o segredo da energia do café com o real resultado de sua descoberta. O feito não foi apenas dar mais energia para as pessoas normais irem pro mundo com mais disposição. O feito que mudou tudo foi permitir às pessoas que, como a ovelha, ficavam até altas horas da noite, sem dormir, olhando pro mundo e pensando nas coisas, estarem ativas e presentes na sociedade nas manhãs seguintes de suas descobertas, teorias e raciocínios.

O café serve para ajudar as ideias que mudam o mundo a sair e circular por aí.

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