Pessoas 18: Ela que foi embora mais cedo

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 18 — Ela que foi embora mais cedo

Ela dirige de volta pra casa. Os olhos estão quentes e a respiração pesada. É madrugada na cidade grande. Os vidros do carro estão abertos o suficiente pra que entre um vento gelado trazendo uma memória, um sentimento, algo que a coloque num outro dia. Ela tem vontade de chorar, mas não chora. Apenas dirige pela cidade quase vazia, indo embora cedo de uma festa que ainda ia durar até o dia amanhecer.

Ela pensa nas palavras das pessoas, nos comentários, no que vão dizer sobre como ela foi embora cedo, como ela já não faz mais parte da família, sobre como ela isso e aquilo.

Ela não se importa ao mesmo tempo em que se importa. Não é uma questão de ser bem vinda, é um desejo de poder ser ela mesma sem que isso magoe os outros.

A festa era o casamento de uma prima. A relação das duas não encaixa na classificação simples de quando as pessoas contam as coisas, não é só dizer que são próximas ou não. O tempo modifica as relações, altera os pesos e as importâncias. É mais complexo do que o que as pessoas estão dispostas a contar quando se colocam pra falar sobre suas relações com os outros.

Ela está feliz pela prima, fica contente que ela possa celebrar as conquistas e alegrias dela. Aqueles anos de infância e começo de adolescência criaram um laço de afeto que perdura mesmo hoje quando ela não sabia nem ao certo qual era mesmo o nome do noivo da prima até ler o convite. Não há um sentimento falso ou ruim, mas durante todo o tempo em que esteve lá, ela só queria ir embora.

O vento gelado faz ela se acalmar por alguns segundos, até sua memória associar algo que ela vê nas ruas que passam com algo que estava na festa e o fluxo de pensamentos voltar e levar ela de volta pra lá.

Havia algo bom em reencontrar pessoas que há muito tempo não via. Muitas pessoas da família. Alguns amigos em comum. Existe uma certa chama de intenção, de desejo de querer saber como estão aquelas pessoas que — da mesma forma que a prima — durante um tempo foram tão presentes e tão importantes em sua vida.

Ela cumprimenta, fala e sorri. Faz o que tem que ser feito. Finge sorrisos e risadas ensaiadas. Ela acredita que ninguém perceba e a verdade é que a maioria das pessoas realmente não percebe. O reencontro depois de tanto tempo não refaz as ligações e basta trocar duas ou três frases pra entender porque as pessoas se afastam, seguindo seus próprios caminhos. A ligação tentada é genuína, mas não é possível forçar uma identificação, ou uma ligação, ou esse algo que ela sente que a alma humana pede a medida que o tempo passava e ela envelhece.

Fazia tempo que não reencontrava todas aquelas pessoas e, ali, agora, do alto dos seus trinta anos, solteira e preocupada com contas e outras idiotices, o evento lhe trazia um sentimento ruim. Ela tinha visto cada uma daquelas pessoas crescerem nos últimos trinta anos. Tinha visto desde quando as pessoas eram promessas e possibilidades até se tornarem o que hoje eram. Pensava nos espertos, nos engraçados, nos de pouca vergonha, nos tímidos e como isso serviu e não serviu pra nada na história de cada um.

Era meio pesado ver a realidade das histórias depois dos anos. Ver as rugas nos rostos, os quilos a mais, saber dos divórcios, dos namoros, dos problemas, das escolhas. Não era tudo ruim e ela não era cega pra isso. Haviam coisas boas, haviam aqueles que tinham ido e feito e realizado e sido. Mas lhe chamava muito mais a atenção as coisas ruins, os que não foram, os que ficaram pelo caminho, os que como ela ainda não tinham se achado, sendo eles mais velhos ou mais novos. Havia luz, mas era inegável que os não eram maiores que os sim. A vida é foda, as coisas são foda, o mesmo papo besta repetitivo e derrotista de sempre. O país, o azar, a economia, as heranças hereditárias e psicológicas, o marco zero de onde cada um teve que partir pra estar onde estava, carregando o que teve que carregar pra chegar onde conseguiu chegar.

No farol vermelho ela olha pro dedo, pro anel de pedra azul, que escolheu combinando com o vestido. Ela lembra da aliança, do seu dedo sem ela e lembra de como doeu ver o ritual religioso mais uma vez. Ela não tem religião, mas não julga os que tem, seu conflito é outro. A conversa do pai, da mãe, do legado, do pai que entrega a filha, do marido que busca e promete cuidar. Pensou em seus pais, em seus valores, em como talvez, mesmo que achasse um príncipe encantado, que uma cerimônia como aquela não era algo pra ela. Alívio e culpa lhe pintavam o coração. Uma camada sombria de pensamentos lhe fazia desacreditar nas promessas, nas juras de amor, na necessidade de perante tanta gente, diante de uma festa tão grande e tão cheia de símbolos e promessas, jurar que se amavam e que ficariam juntos. Na doença e da saúde, na alegria e na tristeza.

Um ar talvez de maturidade, ela argumentava consigo mesma, era o que a fazia ver pela primeira vez o valor dessas duas frases. Ter de fato alguém do lado que fosse mesmo uma companhia, uma escolha, um compromisso, alguém que iria estar na doença e na saúde, na alegria e na tristeza, essa era mesmo uma necessidade da alma humana, uma necessidade que ela mesma tinha e, justamente por ter, achava tola e incomoda qualquer outra relação e conexão forçada que tivesse como objetivo entreter e distrair os verdadeiros anseios da alma, pra ver o tempo passar logo.

Quando chegou em ser apartamento, viu em seu celular uma mensagem de seu pai, dizendo que todos estavam perguntando por ela. Ela responde em uma mensagem, que teve até ser enviada cinco versões. A primeira dizia a verdade, a segunda, dizia a verdade de forma mais simples, a terceira misturava a verdade com o que era socialmente aceitável, a quarta era socialmente aceitável com pontas de verdade ocultas e indiretas, a quinta, a enviada, dava uma desculpa aceitável, que a livrava dos julgamentos, causava compaixão e lhe permitia simplesmente ir embora, porque ir embora era o que ela precisava. Ironicamente, a frase tinha em parte uma verdade.

“Alguma coisa me deu dor de barriga :P”

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