E aí eu assisti: Jogador Número 1

A experiência de assistir Jogador Número 1 no cinema foi divertida pelo espetáculo visual. As mais de duas horas do filme fluíram bem, com a história sendo levada num ritmo divertido, leve, de aventura. Mas, saindo do cinema, eu não estava contente. Eu conhecia o livro, inclusive nem sou desses que acha que é o melhor livro do mundo, sabia dos problemas e qualidades que ele tinha. Acho que o que me incomodou foi ver como todo um mundo, uma ideia, uma historia, se tornou outra coisa, com outra mensagem, com outros valores. E o que me incomoda mais é ver que a mensagem do filme, que no final é a que vai ser mais conhecida, é bem imbecil.

Por algum motivo tenho ouvido as pessoas se referenciar ao filme como tendo a ver com a cultura do “verdadeiro fã”, do filme ser uma “orgia de referências”, de ser uma “punhetação pra esses nerd aí do videogame e das coisa”. Nem nego que algo assim exista no filme, mas mesmo dentro dele isso fica em segundo plano. O problema é que o filme não faz um bom trabalho em construir o mundo onde a história se passa, ele não mostra como o mundo está todo fodido, nem discute as implicações disso. O filme não explica direito como a própria tecnologia da realidade virtual funciona, entregando inclusive cenas ridículas das pessoas usando os óculos e correndo pelas ruas como idiotas, ou usando termos que não foram apresentados dentro do filme, ou mostrando as leis da física afetando o jogo apenas quando convém.

Tudo isso me dá uma impressão de que a coisa toda foi feita sem coração, sem entender a verdadeira história que estava ali e a verdadeira história não é sobre “ser foda pra caralho porque eu sei umas parada de jogos e filmes e a vida desse cara aqui que é meu ídolo”, a história é sobre alguém que fez algo importante pro mundo e que sabe que precisa deixar pra pessoa certa a tarefa de cuidar do que ele construiu, porque as consequências podem ser muito grandes pra própria criação e pro próprio mundo.

No livro existe uma busca por entender as coisas que o criador do tal mundo virtual OASIS gostava não no sentido de se tornar uma enciclopédia dos anos 80, mas de ter as referências, de ter os valores e carregar isso. No livro a maneira que os desafios acontecem e que os personagens se desenvolvem é diferente, a idade deles é diferente, o que eles tem em jogo é diferente, a porta de acesso pro mundo é diferente. No livro existe falha, existe briga, existe um arco de desenvolvimento e não um herói que desde o começo está destinado a vencer, com amigos que estão ali pra ele usar de escada.

Outra coisa que me incomodou em como o mundo foi construído que é diferente do livro é como a vida das pessoas é diferente, como o dia a dia é diferente, porque o mundo está mesmo fodido, porque as grandes corporações tomaram conta de tudo. A empresa do mal super vilã estúpida de filme infantil do filme no livro tem outra cara, algo muito mais pesado e distópico, com paralelos que podem se aplicar a empresas como o Google, a Microsoft, a Apple, a Amazon e que papel e aspirações essas empresas podem vir a ter no futuro.

Acho que as chances de ver uma outra adaptação desse livro é muito pequena. Ele fala de um futuro não muito distante e de um futuro que muito possivelmente pode nos ser bastante familiar, então a janela de tempo pra contar essa história, antes dos óculos de realidade virtual invadirem nossas vidas é bem pequena. Existia no livro um potencial de contar uma história que seria uma aventura, que teria a diversão e as referências todas, mas que teria também um valor, uma mensagem, um vislumbre de como as coisas podem ser, com um paralelo de porque a cultura pop é importante.

Me repetindo sem me importar, a cultura pop é importante porque se eu faço referências a certos jogos, músicas e filmes, se faço piadas com isso aquilo, se demonstro que gosto disso ou daquilo, isso fala sobre a minha personalidade. Mais do que isso, algumas experiências da cultura pop podem mesmo ajudar a criar uma personalidade, a formar uma visão de mundo e essa é uma mensagem muito mais relevante. No filme, existem mil personagens, mil coisas, não porque é pra que algum idiota pause as cenas segundo a segundo e aponte o quando ele é uma enciclopédia, mas porque aquele é um mundo virtual onde as pessoas podem ser quem quiserem e algumas pessoas gostam tanto de certos personagens e coisas do mundo pop que escolheriam ser aquele personagem, e isso é muito mais relevante do que discutir por exemplo que “o Gigante de ferro é usado de forma incoerente com o personagem Gigante de ferro”, porque afinal ele não é o gigante de ferro, é só a carcaça, é só a aparência, é só a imagem.

É foda ver que o filme tem muita gente talentosa envolvida, as cenas de ação e o CG é mesmo muito bem feito, muita gente colocou o coração pra produzir tudo aquilo. Mas um filme é um conjunto e a parte principal é a história e a história desse filme é vazia e boba, quando poderia ser muito mais.

Resumindo, se você gosta de um bom espetáculo visual, você vai se divertir com o filme. Se você gosta de uma história e tem imaginação o suficiente, vá atrás do livro, ele tem defeitos, tem problemas, mas vale muito mais a pena investir seu tempo nele do que neste filme.

E agora, vai lá em cima e repara o comprimento da perna do personagem no poster. Reparou? Pois é. Pois é. Pois pé.

|| link pra comprar o livro, clicando nas imagens:

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