Pessoas: 17 — Ele que tinha artrite

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 17 — Ele que tinha artrite

Ele acorda no meio da noite depois de um pesadelo. Se assusta ainda mais quando não reconhece seu quarto. Leva menos de um segundo pra que se lembre de onde está, mas a combinação de tudo faz parecer muito mais tempo.

Ele está na sala da casa da mãe dele. Ela está doente e em dias em que ela precisa fazer algum exame, ele dorme na casa dela no dia anterior, pra já estar lá logo cedo, para prepará-la pro que tiver que fazer. A mãe dele tem câncer e já faz alguns anos que a doença convive com eles, exigindo suas próprias rotinas.

Antes de voltar a dormir ele olha no celular para ver que horas são. Ainda é o meio da noite, ele ainda vai poder dormir mais. Ele vê uma mensagem de sua mulher, que da mesma forma que ele está na casa da mãe dela e vai também levá-la pra fazer um exame no outro dia. A doença é a mesma, mas o momento é outro. Enquanto sua mãe tem piorado, sua sogra acabou de se curar, pelo menos por algum tempo.

A mensagem da mulher diz que ela sente falta de dormir com ele. Pela hora ele vê que ela também deve ter acordado no meio da noite por algum motivo. Antes de começar a pensar e elaborar possibilidades e porques ele se lembra da hora e que tem que dormir. Ele fecha os olhos e dorme de novo.

O pesadelo que o tinha acordado era um desses sonhos que não tem a pretenção de serem sonhos. Eles recriam a rotina, recriam um dia normal e tudo transcorre como estamos acostumados, até o momento em que algo anormal acontece.

O pesadelo dele começava com ele esperando o ônibus da empresa, numa manhã de um dia qualquer. Ele está sentado e seus joelhos doem. A mesma dor do mundo real, causada por artrite. A idade pra ele também já chega e contrasta com seu olhar infantil pras coisas e pra maneira de falar e lidar.

Em seu sonho ele ficava sentado na fachada de uma loja, esticando as pernas, outras pessoas estavam por ali, também esperando os ônibus para suas empresas. Aí, andando pela calçada, ele vê se aproximar uma mulher jovem, com possivelmente a metade da idade dele. Ele não tem qualquer embaraço em não contar seu olhar ou a boca que abre levemente, lhe dando um semblante idiota, conforme acompanha a passagem da mulher. A mulher é bonita e magra e a medida que ela passa, ele acompanha, observando seu corpo de cima em baixo.

O rosto dela está fechado, ela, naturalmente, está desconfortável por ser devorada como um pedaço de carne. Usa fones de ouvidos e uma blusa folgada com bolsos. As mãos estão nos bolsos. Usa uma calça jeans e tenis. Ele a observa e respira fundo o ar em torno dela quando ela passa, pra tentar sentir se ela tem perfurme. A expressão no rosto da garota tem um breve espasmo de medo e raiva. Ela continua andando e não para, não muda a direção do olhar ou o peso dos passos. Ele acompanha, ainda com o semblante idiota, e a medida que ela se afasta volta seu olhar para a região dos quadris, está interessado em ver a bunda dela. Ela tem amarrada na cintura uma segunda blusa, uma que não está lá por causa do frio da manhã, uma que está lá apenas para cobrir a bunda do olhar de pessoas como ele.

Em seus pensamentos ele não consegue conceber a ideia de que a blusa na cintura está lá porque o olhar dele, e de outros como ele, assusta, desrespeita e incomoda. Ele pensa coisas da garota, de como ela deve ser chata, irritada e enjoada. Ele não se contém e comenta com um rapaz que também está no ponto e que não tem amizade alguma com ele que “essas meninas que colocam a blusa na cintura pra cobrir a bunda, acabam com meu dia”. O tom é exagerado para ser cômico, mas apenas ligeiramente exagerado, existe mais tom de verdade e desabafo do que de piada. Uma mulher que também espera por seu ônibus dá um sorriso amarelo nervoso, recuando a face pra dentro do rosto, contorcendo o pescoço, dando a reação que ela e tantas outras mulheres já são treinadas a dar quando uma piada como essa é feita por alguém como ele.

A cena já aconteceu tantas vezes que seu cérebro é capaz de reproduzir como sonho sem muito esforço e é na parte seguinte do sonho, quando ele vira pesadelo, que o cérebro precisa se esforçar. O sonho segue e quem passa agora é uma mulher de capuz. Ele não consegue ver o rosto dela. Ele repete seu comportamento, mas quando ela chega perto, levanta o capuz e revela ser a mãe dele, depois a mulher dele, depois uma mulher bem gorda, que vai ficando cada vez mais gorda, se aproximando dele. O rosto dela cai no chão e no lugar há um espelho e o espelho reflete o rosto dele exagerado, o nariz alongado, os olhos diminuídos, os dentes podres e amarelos. Ele reconhece a figura como sendo uma bruxa e, quando ela o agarra, ele acorda.

Na manhã seguinte ele leva a mãe ao médico. Tenta ser e é paciente com o tempo dela e com as manias delas. A mãe se irrita com ele e com como ele esquece que ela é capaz de cuidar de si mesma. Ela chega a dizer “enquanto eu puder fazer sozinha, me deixa fazer sozinha, não preciso de ajuda pra tudo!”. Ele não reage bem ao “enquanto eu puder”, prefere uma atitude de negação quanto a realidade da vida, ao peso dos anos e ao fato de que sua mãe tem quase oitenta anos e ele próprio já passa dos cinquenta e tem um filho com vinte.

O exame é rápido e simples e o médico nota como ele fica esfregando o joelho. O médico pergunta a ele se ele tem algum problema, ele explica que tem artrite, que já foi ao médico, que deveria fazer fisioterapias e isso e aquilo e aquelas coisas que tomam tempo e exigem real vontade de fazer. Ele não diz ao médico, mas pra ele o problema é pequeno, não é algo que o impede mesmo de fazer as coisas, como é comum acontecer quando as pessoas não cuidam mesmo de resolver as coisas. O problema no joelho em parte é uma muleta pra si mesmo, pra mostrar pra todos que ele tem problemas, que é um coitado, que tem anos em cima dele, que merece respeito e — porque não — privilégios.

Ele leva a mãe de volta pra casa. Ela está contente por estar se sentindo bem. Ela fala pra ele cuidar do joelho. Ele se irrita e dá respostas mal educadas que ele vai lembrar de ter dado, especialmente nos meses a seguir, já que ele não sabe ainda que sua mãe não está bem como aparenta estar e que dentro de três meses ela terá morrido.

Ele chega no trabalho na hora do almoço. Ele ocupa um cargo conquistado pelo acaso das coisas, por seus comentários que alinhavam com as visões de seus superiores e pela sorte. Ele trabalha com software. É o chefe de um grupo de jovens empolgados por terem seu primeiro emprego e um monte de sonhos e expectativas. São todos homens. Se esforçam, trabalham muito, são criativos e são gratos por terem sido escolhidos por ele para estarem lá. Ele foi aquele que deu a chance e pra muita coisa e pra muita gente só uma chance é o que falta.

De noite ele chega em casa e reencontra a mulher. Ela pergunta porque ele não respondeu as mensagens dela ao longo do dia. Ele diz que estava tudo muito corrido. Ela pergunta como foi o exame da mãe dele, ele encosta no sofá e enquanto esfrega o joelho com artrite, conta que foi normal, que ela sabe como a mãe dele é. Ele não pergunta sobre o examente da mãe dela. Ela conta mesmo assim. Ele ouve sem prestar atenção total, já preparando pra contar a seguir sobre o sonho que teve. Ele conta uma versão em que sua mulher passava na rua, via que ele estava lá, virava uma bruxa e tentava o atacar. Ele ri. A mulher dá um sorriso amarelo, está cansada, só quer tomar um banho, comer e dormir.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: