Pessoas: 16 — Ela que a mão doía

“Pessoas” acontece uma vez por semana e é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 16 — Ela que a mão doía

Ela acordou bem cedo, tinha muitos planos pra esse dia. Anseios de dias melhores, de dias diferentes, de horas e minutos que lhe coloquem em tarefas que lhe façam bem além de pagar as contas. As contas estão pagas, é hora então de reagrupar, organizar as ideias e seguir em frente. Se possível.

Ela está sentada em sua mesa. O papel a frente dela tem o começo de um desenho que ela gostaria de terminar. Ela já tem a ideia, ela já sabe o que fazer, mas sua mão dói. Ela abre a mão, estica, fecha, abre de novo, agora com mais força, fecha e pega a caneta na mão. Ela quer continuar o desenho, mas a dor é maior do que a sua vontade.

Ela não bateu a mão, ela não se lembra de ter feito exatamente nada. Ela imagina que seja só o cansaço, só a atividade repetida, o mover do mouse, o digitar no teclado, nada além disso. Ela sente raiva, ela pensa que essa não é uma cicatriz que ela gostaria de carregar consigo como memória da sua rotina da semana. Ela quer que as horas todas que o emprego e a rotina que paga as contas exige não interfira com seu tempo, com seu momento, com sua mão, com sua hora.

Ela estica a mão mais uma vez, abrindo bem aberta, levanta o braço e apontando ele pra janela, vendo a luz do Sol que passa por seus dedos. Ela não precisa ir até a janela pra saber que aquele é um dia bonito, que o céu deve estar azul e que talvez fosse bom também gastar algumas horas respirando o ar de fora, estar livre de qualquer cercado de paredes.

O desenho que ela quer terminar é um retrato. O personagem é uma mistura de um homem e uma árvore. Ele tem corpo de homem, terno de homem, mas seu pescoço tem sulcos como se fosse um tronco e a partir dali, onde deveria estar uma cabeça se abrem galhos. Ela pensa na simbologia do que seu subconsciente produziu, pensa que se a árvore represente a família e o terno o trabalho, o desenho faria sentido se ela fosse alguém que trabalhando pensando em sua família. Talvez nesse caso os símbolos não tenham sentido ou pros tempos modernos de hoje apenas precisamos de novos símbolos.

Ainda abrindo e fechando a mão, esticando os dedos e fechando, ela pensa na sua família. Não na família de onde veio, não nas pessoas que cuidaram dela quando ela não era capaz de cuidar de si mesma, mas na sua casa vazia, cheia de pó, material de desenho e silêncio. Ela pensa na idade dela, nos anos que não voltam mais, na mão que dói, nos desvios dos planos dos sonhos e tem dúvida se vai conseguir desenhar e ganhar dinheiro com isso, ao mesmo tempo em que não vai terminar sozinha, enrolada no cobertor, postando coisas numa rede social qualquer, ironizando a vida e buscando ver graça no absurdos das pequenas coisas.

A solidão não é exatamente o problema. O problema é pensar que talvez nada daquilo faça sentido ou tenha propósito. Alguma voz mais primitiva permeia seus pensamentos sólidos de muitos anos que tinham a certeza de que ela não queria casar, que não queria ter filhos, contaminam tudo isso com a ideia de que os anos estão passando e logo em breve a solidão vai virar ausência e num piscar de olhos terão se passado mais trinta anos.

Ela se imagina com sessenta anos. Sentada da mesma forma, tomando chá de hortelã com torradas, ainda confusa sobre as coisas, sobre como o tempo passa e sobre como, não importa quantos aniversários ela faça, ela ainda se sente, no máximo, uma adolescente.

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