E aí eu li: Jornada: Estrada para Hopefall

Apesar de ler um monte, escrever um monte e volta e meia ainda contar por aí em círculos de conversas desavisadas um monte de mentiras, eu não sei explicar ao certo como acontece uma história. A medida que as palavras vão se combinando, não é só som vazio que se forma, não é só discurso. Se as palavras certas são alinhadas e o ritmo e a direção se mantém, em algum momento, aquelas palavras conseguem ativar alguma coisa na cabeça de quem lê ou ouve e uma história é criada, a imaginação acorda e preenche as lacunas e mesmo quando falta o ritmo, ou o talento na hora de escolher as palavras, mesmo quando os personagens são incompletos e os conflitos são infantis ou incoerentes, uma história consegue sair e no final é divertido.

Jornada: Estrada para Hopefall é uma dessas histórias. O livro não tem editora, é auto publicado pelo sistema do kindle da Amazon. O autor é Matheus Forny, que talvez você conheça pela internet como o “lojinha” do blog/baderna/casa-do-Hell/change-erra/quadrinhos/podcast MDM.

O livro conta uma aventura em um mundo de fantasia criado pelo autor, que parece ser inspirado em mundos medievais de outros livros de fantasia, animes e video games. Existe magia, existem elfos, orcs, deuses, profecias, monstros com nomes inventados e tudo que se espera de um mundo assim. Existe também uma parte de tecnologia, com conhecimento de eletricidade, combustão e outras coisas desse tipo.

Nesse mundo, a história acompanha a jornada (pisca, pisca) de 3 personagens até chegarem a cidade de Hopefall (pisca, pisca – de novo). Pelo caminho, essa galerinha do barulho vai passar por altas aventuras e aprender sobre eles mesmos.

Lendo assim por cima é bem possível que o livro lhe apeteça, afinal de contas é sempre divertido uma aventura com todos os elementos mágicos, tecnológicos e com desenvolvimento pessoal, porém existem algumas ressalvas, como foi introduzido lá em cima, lá naquele parágrafo misterioso do início (pisca, pisca – ainda mais uma vez).

O livro tem problemas de escrita, de amadurecimento na construção dos personagens, na construção do mundo e das regras do mundo e no tom que ele se propõe a ter. Pondo de forma simples, o tom da história, a raiz de onde a narrativa emana, é muito mais próxima do que se espera ver em um anime do que o que se espera ver em um livro.

Sendo assim, espere ver os personagens ficando corados e mordendo os lábios mais do que uma pessoa normal costuma fazer ao longo da vida. Espere também piadas envolvendo meninas que gritam e dão tapas. Espere também choros e dramas que lembram adolescentes apesar dos personagens não serem adolescentes, além de outras coisas que são comuns ao gênero. Se nada disso te incomodar, se você inclusive gostar dessas coisas de anime, é bem capaz que você goste muito do tom do livro ser exatamente assim. Inclusive, uma versão em quadrinhos dessa história seria muito legal.

Com relação a escrita, é interessante notar como um livro é um exercício pesado a quem se propõe de fato a ser um escritor. Dá pra ver como aqui e ali falta intimidade com as palavras, falta músculo criativo, enquanto que em outros momentos a história flui, composições interessantes acontecem e o livro brilha, seja numa cena de ação bem feita, seja na introdução de um personagem que abre possibilidades inteiramente novas pra história.

Apesar das ressalvas feitas e de ser um livro que tem um público específico, este é um livro que poderia estar na livraria mais próxima de você. Sendo bem sincero, existe sim uma necessidade de melhorar o texto, de organizar as coisas, de aparar as pontas pra que a escrita e a narrativa sejam mais, digamos assim, “profissionais”.

Ao mesmo tempo, acho uma merda avaliar as coisas dessa forma, porque mesmo com todos esses problemas que algumas vezes me incomodaram durante a leitura, mesmo eu sendo alguém que gosta de anime, como colega escritor, eu consigo reconhecer o mérito de criar uma jornada que é divertida de ler, num mundo que falta elementos, mas que é divertido de estar, num livro que no final encerra a história, deixando uma vontade de continuar a acompanhar a história dos personagens nos dois outros livros que vem depois desse. O segundo, inclusive, já saiu.

Segue abaixo os links pra comprar os livros (apenas em formato digital). Quem sabe um dia, você não vai poder dizer que leu “a versão original, dessa aventurazinha aí que todo mundo tá falando agora”. Existe talento aqui e com tempo e persistência, arrisco dizer, grandes livros virão.

Link para comprar o livro 1

Link para comprar o livro 2


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