Pessoas: 15 — Ele que precisava seguir com sua vida

“Pessoas” acontece uma vez por semana e é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre pessoas. Vamos então falar sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 15 — Ele que precisava seguir com sua vida

Ele está numa fila. A fila vem da esquina, vira e desce, se extendendo pela rua inteira. É uma rua longa, ele olha e conta as cabeças, estima as distâncias e acredita ser a pessoa número 200 da fila. São 8 e 25 de uma manhã de céu limpo de sábado. Com os fones no ouvido, ele tenta se manter à parte de todo o resto, alinhado dentro de si mesmo, mantendo a calma e o comportamento adequado, até que chegue sua vez.

O plano era outro. Era não deixar pra última semana, fazer as coisas com menos urgência, com menos gente, com menos fila. Acontece que chegou pra ele a declaração do Governo dizendo que ele deveria resolver o problema, obter o papel, o documento necessário. A carta dizia assim “Se não tem, não pode isso, não pode aquilo, não pode nada. Vai fazer, tem que fazer, até o dia tal. Assinado: O Governo”.

Ele tinha tempo até ser o dia tal. Não apenas tempo ele tinha problemas para resolver, uma porção bojuda deles. Aí, nos tempos livres que teve, nos fins de semana em que podia cuidar de sua vida e não apenas trabalhar e ficar no trânsito, tratou desses outros problemas, deixou pra ir ver o documento do Governo no último fim de semana anterior ao dia tal.

Por algum motivo, ele achava que não seriam muitos os que receberam a tal carta, a tal necessidade de se ter o papel pra poderem seguir com suas vidas. Ele estava errado, não só porque muitos precisavam, mas muitos já tinham também problemas a resolver e pouco tempo pra ir até o Prédio Cartório do Governo pra fazer o tal documento pra poderem seguir com suas vidas. Ele não fazia certa ideia de que sua vida complicada era complicada como a vida de todos os outros.

Naquele dia, ele acordou bem cedo, na hora que acordava todo dia pra pegar trânsito e trabalhar. Tinha certeza que o Prédio Cartório do Governo não estaria assim tão cheio, mas estava, estava tão cheio que o homem disse pra ele que não adiantava ele entrar na fila, que não daria tempo de ser atendido. O mesmo homem, disse a ele “ei, ei, ainda há esperança, ei” ao que ele disse “pois, há?”. O homem explicou que haviam outros Prédios Cartórios, mas que sua melhor chance seria tentar ir até o Cartório Central, o maior e mais velho da cidade.

O homem cerrou os olhos, colocou uma das mãos no ombro dele, respirou fundo e então contou que o Cartório Central era um lugar selvagem onde as regras se mediam como se fazia nos tempos antigos. Lá, para obter o documento pra poder seguir em paz com sua vida, era preciso ter determinação, um coração decidido e — atenção — não ser estúpido. O homem enfatizou “se você for estúpido, nem adianta ir”. A verdade é que ele não tinha certeza se era ou não era um estúpido, mas precisava do documento e foi assim que foi parar na fila onde agora estava, esperando o Cartório Central abrir. Ele e todos ali, esperando a chance de tirar o documento pra poder seguirem em paz com a vida.

Ele espera que sua posição na fila seja mesmo o suficiente para ser atendido. Desconfia que o homem que lhe indicou o lugar, com seu discurso sobre o coração decidido e tudo mais, não passava de mais um desses funcionários do Governo semi loucos de camisa social e cheiro de suor.

Ele ouve o som de palmas, mas não tem ideia de onde elas estão vindo, até ver que um homem vem descendo acompanhando a fila, andando e observando, procurando pelo fim. Ele aplaude de forma irônica, contente não está por ter que estar ali. A fila, continua crescendo e parece ter dobrado de tamanho e ainda faltam 30 minutos pro lugar abrir.

Ele vê que a fila tem velhos, casais e crianças. Por algum motivo, ele sente que a fila é uma representação caricata da humanidade. Eles tem barulho de turba, falam entre si, riem e contam histórias com vozes estridentes. Riem mais, reclamam e falam o tempo todo, conversas sem importância, dessas assim feitas pra fazer o tempo passar. Ele não participa de nenhuma conversa, apenas observa, ouvindo em seu fone uma conversa outra, uma que lhe interessa, em formato podcast.

Um carro de polícia surge lá na frente, entra na rua e vem passando. Passa devagar. Alguns minutos depois o mesmo carro passa mais uma vez. Na terceira vez em que o carro passa ele ouve alguém da fila dizer que é bom que tenha polícia patrulhando a fila, porque no fim de semana anterior “teve ladrões que vieram e fizeram arrastão com as pessoas da fila”.

A situação como um todo o faz suar, se incomodar com as regras e os papéis, as filas e obrigações. Ele tenta digerir o sentimento, pra não deixar transparecer, pra não se destacar na multidão. Ele não nota que já se destaca porque dentre todos que lá estão ele é o único sério, sem falar e de fones de ouvido. Agora, está suando, pensando em como queria não ter que ter nenhum papel pra poder seguir com sua vida. Queria dormir mais e aproveitar seu sábado fazendo suas coisas pra si e não as coisas pro Governo. Ele teme que percebam, que olhem pra ele, que as mães protejam as crianças e que o carro da polícia pare e pergunte porque ele está suando daquele jeito e o que ele tem contra a sociedade e nosso Governo.

O Sol é quem o salva. Com o avançar das horas, o calor aumenta. O suor dele é só mais um, numa fila de suados não abençoados esperando pra tirar o papel pra poderem seguir com suas vidas.

Faltando 3 minutos para os portões se abrirem as pessoas começam a ficar mais agitadas. As conversas sobem o volume, algumas pessoas que estavam sentadas no chão, sem medo de se sujar ou serem julgadas, se levantam, se ajeitam, se preparam para a honraria do papel a receber.

Os 3 minutos correm como alguém e, quando os portões abrem, a fila caminha uma quantidade boa de passos. A multidão sorri e avança, ele até consegue ouvir que alguns cantam de alegria.

A partir dali, conforme o prédio engole a fila, minuto a minuto, ele começa a pensar na possibilidade de não conseguir o papel, de estar muito avançado na fila e acabar tendo que voltar outro dia. Ele decide marcar o tempo, tenta estimar a quantidade de pessoas na fila. A cada nova nova movimentação da fila, ele vê quantos minutos se passam no celular. Conta quantos passos deu, compara com quantos passos acha que vai precisar dar pra ser atendido. Combina os dados todos, se mantém ocupado na análise para que seu coração comece a bater mais tranquilo e sua mão pare de tremer.

Se seus cálculos estiverem certos, ele vai ter o papel para poder seguir em paz com sua vida em mais ou menos 2 horas.

Começam a sair as primeiras pessoas que já conseguiram vencer a fila, obter o papel e estão indo embora. Passam pela fila com olhar de esperança e triunfo, como velhos experientes contanto histórias de guerras, como ex viciados incentivando os ainda viciados a encontrarem a luz, porque “ela é real”.

O tempo passa e passo a passo ele segue até que finalmente percorre a rua toda, chega até já bem perto da entrada do prédio. Ali os ânimos são mais intensos. Surgem alguns tentando cortar a fila, desavisados que não chegaram antes do lugar abrir e entram em desespero ao ver o tamanho da fila, vendedores ambulantes e sujeira no chão. Enquanto aguarda pra ser chamado, seu coração bate mais forte, algo dentro dele diz que a chance de dar tudo errado é cada vez maior.

A fila anda de novo e ele vai parar dentro do prédio. Seus olhos levam uns segundos pra se acostumar a mudança de luz e a primeira coisa que ele enxerga é que há também fila dentro do prédio. A segunda coisa que ele enxerga é que há também um ar pesado e antigo, como se no ar houvesse um ruído, um eco, reverberando baixinho as vozes de todos os que tiveram que ir até lá ou que lá trabalharam. Ele tem a impressão de que o Prédio Cartório é um ser vivo, tem receio de tocar no corre mão da escada por achar que seria como tocar por dentro um monstro mitológico milenar que não quer ser tocado.

Ali dentro o clima é tenso, dá pra ouvir burburinhos, tosses de velhos, choros de crianças, velhas suadas dizendo “ai, meu deus”. Deus não responde e ele avança pela fila prédio adentro, sobe pelas escadas de piso de madeira velha, segue e vira nos corredores, com o mesmo chão velho tão velho que parece até macio. No fim do corredor há um homem com uma mesa no próprio corredor. Este homem sabe quem ele é e o que fez e se pode ter o papel pra seguir com sua vida. Ele sabe a partir do nome e do documento que é entregue.

Ele precisa esperar pela avaliação do homem na mesa. Não demora pro homem dizer que ele tem que pagar uma multa porque o sistema exige que ele pague o valor pra liberar o papel pra poder seguir com sua vida. “O Governo pede um valor, se não pagar não tem o papel. O valor é baixo, mas precisa ser pago no banco que, aqui não recebemos, mas hoje é sábado, o banco está fechado. Pague e volte depois.”.

Ele pergunta se pode pagar com o aplicativo do celular. O homem pede ajuda. Uma mulher velha e simpática, de cabelos brancos e blusa florida, surgem caminhando e flutuando pelos corredores. Enquanto passa ela olha a todos e ele tem a impressão de que os olha como se fosse a mãe de todos. Ela diz a ele que ele pode pagar pelo celular, se tiver conta no banco certo, se tiver o aplicativo certo e se tiver o coração decidido. Ela abaixa os óculos, olha nos olhos dele e diz “O quanto seu coração quer mesmo o papel para seguir com a vida? O quanto, meu rapaz?”.

Ele quase não acredita quando vê que tem a conta no banco certo, que tem o aplicativo, e que tem a chance de resolver tudo de uma vez, sem precisar voltar outro dia, sem precisar faltar no emprego, sem precisar entrar de novo naquele lugar.

Ele abre o aplicativo e tenta escanear o código de barras. Não consegue. Ele tenta de novo, se ajeita, endireita a coluna, alinha o papel, mas novamente não consegue. Ele pensa que pode apenas digitar o imenso número referente às barras, mas o calor do momento e a quantidade de dígitos do número lhe dão medo de errar, de não dar certo, de pagar errado, de não conseguir ter o papel. Ele se lembra das palavras da flutuante senhora mãe de todos e percebe que o problema é seu coração decidido. Ele respira fundo, decide que vai, se ajeita, alinha, coloca o papel em frente ao celular e dessa vez o código é lido.

Ele paga o boleto e segue para onde tem que ir, cruzando no caminho com a flutuante senhora mãe de todos. Ela não está sozinha, ela consola duas senhoras que dizem que não tem como voltar outro dia, que trabalham nisso e naquilo, que os chefes e donos não querem saber se o funcionário não tem o papel para seguirem com a vida, que deviam ter ido no sábado, que deviam ter ido antes de ser o último sábado do último dia. Segurando xícara de alça dourada e rosa, com monóculos e cachimbos, diriam “sinto muito, mas não dá, não há nada que se possa fazer. É o sistema, sinto muito, se faltar está na rua. Muitos querem trabalhar, você talvez não queira.”.

A senhora mãe de todos diz para as senhoras que há nas redondezas um certo moço que tem conta no certo banco e que tem o certo celular com o certo aplicativo. A senhora mãe de todos aponta pra ele com o olhar, sai flutuando, rodando por sobre eles e as senhoras que choravam se lançam e pedem “por favor, por favor, por favor, queremos muito o papel para poder seguir com nossas vidas, lhe damos o dinheiro em mãos”. Ele hesita, foi ensinado muitas vezes por muitos que na vida tem que ser “cada um com seus problemas”, mas está próximo do fim de sua jornada e não quer energias negativas. Ele consegue se colocar no lugar das senhoras e sabe como frustrado ficaria se ele por acaso não tivesse a conta no banco certo, o celular certo e o aplicativo certo.

Assim que ele decide ajudar, a mulher mãe de todos surge com mais duas mulheres, também senhoras e desesperadas com o mesmo problema. Ele decide mais uma vez ajudar, desta vez com certo desconforto. A mulher mãe de todos percebe e acha que é justo não trazer pra ele mais ninguém. Ele sente que ela a julga, que diz que ele bem que poderia, se quisesse poderia, sentar ali com uma cadeira e pagar para todos que precisassem, passar o dia todo ali, escaneando e pagando, ajudando as pessoas, ajudando o Governo, mas ele não vai fazer porque é ruim. Ruim e egoísta. Como se deve ser, afinal o certo é “cada um com seus problemas”. Ela sai sorrindo e ele acha que é porque ela tem orgulho dele. Outros precisam dela por entre as entranhas do monstro Cartório.

Ele paga os boletos das 4 senhoras. Ele segue em frente no processo. Se senta em frente agora a uma mulher que coloca luvas plásticas de tamanho maior do que deveriam ser se quisessem mesmo ser do tamanho certo para as mãos dela. A figura parece algo assustador com sua cara de sono, suas luvas folgadas e uma maquiagem forte. Ela pega a mão dele, diz assim “me dê aqui esse dedo, depois esse, isso, agora o outro, esse, esse, esse não foi, vamos de novo, isso, pronto, agora a outra mão, esse, esse, esse, esse, e esse, isso, pronto.”.

Tudo foi feito, o documento está impresso e ela vai entregar a ele o papel, ela pede que ele aguarde. Algo surgiu em sua tela, no seu sistema, algo que ela não sabe como resolver. Os olhos abrem grandes e piscam uma vez e depois outra. Ela se levanta, toca um sininho e a mulher mãe de todos vem flutuando e girando pelo corredor. Elas conversam, falam sobre algo. Ela volta, se senta e diz que “estava verificando se poderia almoçar mais cedo”. Ele acha a resposta estranha, pega o documento com ela, o tão esperado papel pra poder seguir com sua vida, pergunta se está tudo finalizado pra ter certeza e se levanta pra sair. “Sim, finalizado, pode seguir com sua vida”.

Enquanto anda, ele vê novamente as 4 senhoras sendo atendidas numa outra das muitas salas de chão de madeira velha. Elas lhe cumprimentam, dizem obrigado e lhe desejam boa viagem. Ele desce ainda receoso de que algo dê errado, que vão chamar seu nome e declarar um caso especial que lhe vai prolongar ainda mais algo que já devia ter acabado, como um texto que ficou longo demais, mas que precisa ser longo demais, pra causar também no leitor a própria emoção que o personagem em si sente.

Ele quer logo alcançar a rua, estar livre, ir pra longe dali. Eis que surge a mulher mãe de todos, flutuando e girando pelos corredores. Ela vem na direção dele, olhando para ele. Ele sente um frio na espinha, fica paralisado, tem quase certeza que algo deu errado, mas a mãe de todos apenas passa, o contorna sobre sua cabeça e segue, ainda o olhando, olhando, até se afastar, voltar ao chão e entrar numa porta de algum corredor.

Ele segue o caminho de volta, passa de volta pela fila da escada, pela fila enorme lá fora, sente o sol e as cores do dia, sente o chão que não é mais de madeira velha e macia, sente grande um sentimento de liberdade. Agora ele pode seguir com sua vida, não só porque passou e foi além da aventura, mas porque tem um papel, aprovado pelo Governo, que diz que ele pode ser assim.

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