Mentiras explicativas: Porque o silêncio pode incomodar?

Hoje é dia de mentiras. Qual tipo de mentiras? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios disso, daquilo e daquele outro negócio lá. Ou quase isso. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque o silêncio pode incomodar?

Motivo 1 – O curto
Porque, se nada é dito, os pensamentos falam lá dentro da cabeça.

Motivo 2 – A história
Existia, muitos anos atrás, uma fronteira entre um deserto e uma floresta. Nenhuma semente, nenhum animal, nenhuma folha da floresta ia até o deserto e — por mais que houvesse vento — nenhum grão de areia entrava na floresta.

A floresta tinha vida. O deserto tinha o silêncio. A vida tinha som. O silêncio não.

Na floresta, dava pra ouvir o som de vidas bastante ocupadas, correndo de um lado para o outro com seus problemas, rituais, mentiras e necessidades. As vidas na floresta se empilhavam e se consumiam, na metáfora e no literal. Um ciclo de ida e volta, de vida e morte, nascimento, caça e canibalismo.

No deserto dava pra ouvir o silêncio. O nada. A não vida. O vazio preenchido apenas pelo ruído distante do vento acariciando o solo. No silêncio do deserto cada segundo podia durar uma eternidade.

Ninguém morava no deserto e ninguém queria morar lá. Desagradava o calor do dia e também o frio da noite. Incomodava a areia, seu jeito áspero e desconfortável. Se não bastasse, era ruim não ter onde subir, o que comprar e onde se esconder.

Foi assim até que uma noite, caiu do céu uma enorme pedra pegando fogo. Era uma pedra vinda do espaço, de lá do lado de fora, do lugar depois e acima do céu. A pedra enorme atingiu em cheio e destruiu o silêncio do deserto. O impacto brilhou, iluminou a noite e revirou todos os grãos de areia. Alguns foram parar tão alto que vagaram pelo mundo nos dedos de vento mais altos e mais ousados do topo do céu. Quando voltaram ao chão, nem mais se lembravam que um dia fizeram parte dele.

A explosão do impacto da pedra, além do brilho e som, gerou também calor de catástrofe. Uma força em chamas que escapou do deserto e invadiu a floresta. No meio da noite, o fogo veio pelo ar e queimou as árvores, os animais e a vida.

No deserto, onde a pedra caiu, o calor derreteu a areia e fez uma enorme camada de vidro, que se estendeu até onde o calor permitiu. Na floresta, tudo queimou e não muito tempo depois ela também virou um deserto.

De tudo que havia naquela fronteira, de todas as coisas que aconteceram, no final, só ficou o silêncio. Os que visitaram o deserto depois disso, pensavam no acaso das pedras que caem do céu, culpavam forças sobre humanas, o acaso, a sorte e o azar. O deserto não dava nenhuma resposta, porque a única coisa que ele ainda tinha pra dar, mesmo depois de tudo que aconteceu, era só o silêncio.

Os visitantes tentando encontrar algo, num lugar onde nada havia, acabam olhando pra si mesmos. Era isso que mais incomodava no deserto, no silêncio do deserto, ver a si mesmo, ter que lidar consigo mesmo e em si mesmo encontrar a resposta que o mundo de fora se recusava a dar.

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