Pessoas: 14 — Ela que oscilava

“Pessoas” acontece uma vez por semana e é quando eu escrevo, venho e posto um conto sobre pessoas. Em outras palavras, hoje é dia de falar de uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 14 — Ela que oscilava

Ela olha pra ele enquanto eles jantam e os menores gestos e não gestos causam uma irritação difícil de controlar. A expressão facial tenta se manter de um jeito, mas o desejo de expressar o descontentamento é tão grande que o rosto estica numa posição no meio do caminho e a expressão que fica não é de raiva, nem de alegria, é só aquela cara que diz que as coisas estão erradas.

“Não, tá tudo bem, impressão sua”.

Para ela, ser sincera é um problema. Sempre foi. Dizer a verdade causava problemas porque as pessoas não entendiam, porque as pessoas iriam julgar, porque as consequências eram piores do que fingir e se conformar.

A verdade é que ela própria preferia não dizer ou expressar o total do que sentia porque seus sentimentos não eram exatamente imóveis e claros. O ódio e o amor se misturavam, o medo e o desejo, a vontade e no nojo, os opostos mudavam de ponto de ação no palco da vida, sob o foco da luz que manda, por motivos quase sempre aleatórios.

Ela odiava os hormônios, odiava os ciclos do próprio corpo, as dores, as lágrimas, a variação de apetite, de sono, de sede, de vontade de fazer qualquer coisa. Não sabia com certeza se era isso que deixava tudo tão confuso ou se era era algo particular dela própria, da pessoa complicada que ela era. Ouvia as amigas que falavam, tem sempre uma amiga que fala demais, mas não via na versão delas da história algo pra se identificar. Talvez contassem mentiras. Talvez fosse outra coisa. Talvez foda-se, porque no meio da vontade de descobrir e entender a vontade mudava e já era outro o interesse.

Ela sabia que era alguém difícil de lidar. Não tinha paciência pra encontros sociais, pra conversas sociais. Preferia livros, internet e seu quarto. Tinha amigos, tinha amigas, tinha momentos em que preferia algo que não fossem livros, internet e seu quarto. De vez em quando tinha o sentimento de solidão, de vazio, uma falta de alguém, não só pra saciar o desejo do sexo, de se sentir desejada, de ser bem comida, mas de se sentir admirada, amada, protegida, não sozinha e aceita apesar de tudo.

É por isso que ela não fala o que está errado. Fica com o rosto contorcido sem dizer que os jeitos dele já a incomodam, que talvez o relacionamento tenha chegado ao fim e a fórmula esteja esgotada. Ela não gosta da opção de não tê-lo por perto, prefere manter o que há ao invés de ficar só. Os anos pesam e colocam fantasmas de obrigações em sua cabeça, os hormônios femininos, as obrigações sociais do matrimônio, da monogamia, da dona de casa, de ser mãe, de ser vó, de assumir uma vida de arquétipo, de ser em si uma vida de estatística e não só uma sequência de vontades expontâneas. Ela prefere ser um conjunto de vontades expontâneas, mesmo que vez ou outra elas sejam incoerentes.

O jantar continua e ela conversa com ele. A conversa é boa, flui e tem pontos e opiniões que fazem ela pensar como gosta da companhia dele. O momento após o jantar é bom, a volta pra casa e a despedida também. No banho antes de dormir, ela pensa como poderia ter estragado tudo se tivesse dito o quanto tinha ficado incomodada com o jeito que ele pegou o garfo, como colocou a comida no prato, como falou e riu, daquele jeito que algumas vezes ela gosta e outras vezes ela odeia.

Ela dorme pensando que é melhor assim e que ela ainda tem tempo. No mês que vem as coisas vão se ajeitar. Depois vão melhorar. Aquilo e aquele, os problemas, os desejos e o dinheiro vão se apaziguar, se compatibilizar, haverá sucesso, sossego e boas noites de sono. Ou talvez não. Tudo isso importa, mas não importa.

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