Mentiras explicativas: 15 – Porque as pessoas se irritam?

Hoje é dia de mentiras. Qual tipo de mentiras? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios disso, daquilo e daquele outro negócio lá. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque as pessoas se irritam?

Motivo 1 – O curto
Por sua culpa!

Motivo 2 – A história
A discussão é intensa. Todos tem um ponto de vista. As falas são longas e elaboradas. Já dura um bom tempo e ainda não temos conclusão. O que se discute é tão complexo e multifacetado que todos os lados parecem estar certos.

A seu momento, cada um levanta em seu lugar e diz o que pensa e o que acha daquilo. Todos tem um tom educado. Todos sabem quando falar e quando ouvir. O tempo passa e nada é construído.

Ficam assim por horas.

Ficam assim por dias.

Ficam assim por anos. Por séculos. Por milênios.

Não conseguem alcançar a conclusão.

De repente, algo começa a florescer fraco e depois forte dentro de mais de um deles. É um fogo, uma fúria, uma impaciência. Existe um desequilíbrio, uma incompatibilidade entre o que precisam fazer e o que fazem. As falas e os tempos começam a ser inúteis e é aí que a ordem vira caos e do caos algo novo nasce.

As falas ficam apaixonadas e não há mais um silêncio completo quando alguém qualquer coisa diz. Se mexem em suas cadeiras, fingem tosses, começam pensamentos que ocupam as cabeças e eis que então não conseguem mais ouvir os outros pontos de vista. Quando o outro fala, já não importa mais, a única coisa que importa é estar certo, é não perder o tempo todo investido defendendo o determinado ponto de vista. Não é uma busca por correção, por perfeição, pela resposta final. Essa busca ficou milênios para trás.

O ar se acumula daquilo que já não cabe nos pensamentos dos envolvidos. O ar fica pesado e começa a ressoar com o que eles sentem. O ar alimenta o fogo, o fogo alimenta o ar, o fogo vira fúria e a fúria cresce e palpita, até virar batida forte, até os corações pulsarem na mesma onda, em ressonância e assim segue e assim vai até que no meio da fala de um outro acontece: um outro fala ao mesmo tempo.

Interrupção. Algo inédito, mas não gera estranheza, traz alívio, como se todos estivessem esperando que uma solução fosse dada a um problema que todos tinham. Agora todos abraçam a nova maneira e todos começam a falar ao mesmo tempo, a gritar, a berrar, a bater as mãos e os pés, a fechar os olhos. Saliva e lágrimas. Baderna. Bagunça. Som sem sem valor, som sem razão, som do qual nada pode se ouvir. Nada se aprende, nada se fala, nada se ouve, tudo apenas jorra, flui e cai, uma queda livre, uma cachoeira que soa o som de muitas vozes falando ao mesmo tempo, sem nenhuma poder se ouvir.

É aí que uma voz se sobressai. Ela não é a mais correta, mas é a mais alta, a mais descontrolada. Ela parece ter razão o bastante pra falar com coerência e seu grito maior encobre todos os outros e todos os outros escutam porque são menores, porque tem medo daquele novo tom, daquela camada que recobre o resto. O que fala o faz de tal forma que não só o que ele diz causa impressões, mas também seus gestos e sua imprevisibilidade. Quem é que sabe o que pode acontecer se não lhe derem ouvidos?

O medo faz com que a discussão sem fim chegue a um fim.

As pessoas se irritam porque sentem que o problema sendo discutido está sendo discutido por milênios, sem que ninguém ouça sua voz e o fazem porque, algumas vezes, para certas questões, a raiva é o único jeito de encerrar um argumento.

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