Pessoas: 13 — Ele que não era gentil e gostava de pipoca

“Pessoas” é quando, uma vez por semana, eu venho e posto um conto sobre pessoas. Em outras palavras, hoje é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei.

Pessoas: 13 — Ele que não era gentil e gostava de pipoca

Ele é veterinário. Está em sua mesa, em sua sala, em sua clínica. Do outro lado da mesa, um homem e uma mulher. São um casal, donos de um gato gorgo, velho e com medo. O gato é branco com manchas amarelas, seu nome é Pipoca. O motivo do casal estar ali é que um caroço apareceu numa das patas do felino.

Existe um desconforto no ar. Não pela situação, mas pelo tom e pela postura dele. Ele não faz questão de ser gentil e o caminho que o levou até ali mais confirmou do que negou o valor desta atitude. Ainda mais tendo ele vindo de onde veio, tendo passado pelo que passou pra estar ali agora, naquele lugar, naquela posição. Ainda mais nessa conversa que acontece agora, onde o casal questiona, pergunta e fala, eles o encurralam e cobram. Ele sente como se eles pensassem que ele é uma fraude, uma mentira, um charlatão.

Ele os tolera. Ele entende a situação e entende que precisa ter paciência. O casal tem tantas perguntas porque o caroço encontrado parece ser um tumor. Se for um tumor, pode ser câncer. Ele sabe disso, a experiência dos anos e dos livros lhe diz isso, ele pode não ter estudado na melhor univerdade da cidade e ele bem que repara quando o homem do casal vê na parede o seu diploma, entre uma pergunta e uma resposta.

Ele é, num misto de opção e reflexo, rispído em suas respostas. Não faz questão de responder de forma leiga. As palavras não simples saem de sua boca e ele não percebe que está falando desse jeito porque se sente ameaçado pelas perguntas. Ele fala com muitas palavras, com muitos termos, durante o tempo que julga necessário. As respostas são longas, enfadonhas e corretas.

Ele não gosta do casal. Entre uma pergunta e uma resposta, com um movimento leve e perceptível de olhar, aquele mesmo que o homem do casal usou pra ver seu diploma na parede, ele vê o celular da mulher do casal. É da mesma marca que o dele, mas é um modelo com a tela maior, ele reconhece ser o último modelo. Seu modelo é do ano passado. Menor e do ano passado. Ele se incomoda.

Enquanto responde repara nos cabelos e nas roupas do casal. Enquanto cospe as respostas técnicas decoradas, emitidas sem coração, ele pensa na história de como acharam o caroço no gato. Acha estranho terem achado o caroço na perna do gato, sem o gato ter mudado em nada seu comportamento e o caroço ser pequeno o suficiente pra ser invisível sem tocar a região. Acha estranho ter sido só porque “apalparam e acharam”. Fica pensando na quantidade de tempo livre que aquele casal deve ter, na vida fácil que devem ter levado pra estarem ali agora, lhe dizendo coisas, perguntando e achando que podem colocá-lo contra a parede, como se ele fosse “um empregado”. Julga terem dado ao gato o nome de “Pipoca”.

O diploma na parede, por mais que não seja de uma universidade prestigiada, é real. Ele estudou, passou e com muita dificuldade conseguiu se formar. Trabalhando e estudando, pegando horas de transporte público por dia, dormindo pouco, quase nada, vendo os outros que conhecia optarem por caminhos mais simples e mais fáceis, se perguntando se daria certo, se conseguiria, se valeria e pena.

A coisa é que não basta nascer num bairo pobre e não ter as mesmas oportunidades que outros tem, junto vem a vida de se ter nascido num lugar assim. Os problemas de família, os problemas em casa, as discussões, as dificuldades, a imensa pilha de escombros que ele teve que escalar de dentro pra fora para conseguir não apenas um diploma universitário, mas um diploma de veterinário, um diploma não fácil, que exigia horas de estudo e dedicação. Ele era também dono de seu próprio negócio, a clínica era dele e ele sabia dos problemas e dos poréns, dos pequenos segredos sanitários e perfecionistas, de tudo que faltava pra ser perfeito. A história de como aquela cena era possível, da clínica, dele sentado como dono e como veterinário era longa e difícil demais pra que alguém se sentisse no direito de a desrespeitar.

Entre uma resposta e outra ele se dá conta de que o casal está entendendo suas palavras. Ele se dá conta de que eles entendem os termos, de que eles estão prestando atenção e que apesar de sua falta de tato, estão dispostos a ouví-lo e parecem confiar no julgamento que ele faz. Ele se sente desconfortável com a quebra de seu senso comum. A regra que rege é que “gente privilegiada é filha da puta, preguiçosa e mal educada”, mas o casal a sua frente não parecer ser nada disso. As perguntas vem de preocupação, não de deboche.

Sentindo ser mais confortável não perverter a regra, ele especula se eles não eram talvez como ele. Será que não teriam também estudado, trabalhado, feito sei lá o que, saído de um algum desses buracos de problemas todos, de pais complicados, irmãos complicados, bairros complicados, pra estarem ali agora, cheios de perguntas e interesses? Será que o olhar para o diploma não foi de desprezo, mas de reconhcimento? Será que o celular maior e mais novo não foi pago com decisão, com escolha, de um jeito certo, justo e honesto e não porque havia um alguém e um como pra “pagar por ele”?

As perguntas se acabam. Ele faz o orçamento da cirurgia e dos exames. Imprime um papel e entrega pra eles. Vão tirar o que parece ser um tumor, vão mandar o tumor pra biópsia, vão descobrir se é câncer. Como é de costume, ele apresenta o orçamento e sai da sala, fingindo que tem que algo para resolver. O serviço todo não é barato, mas não é também caríssimo. Ele pensa como custaria menos que o celular dele.

Ele vai a sala ao lado, cumprindo o ritual de que tinha algo pra resolver. Pelas paredes ele ouve o que o casal conversa. Eles falam sobre o valor, sobre como podem fazer isso e aquilo para pagar, parcelar, colocar no cartão. Falam também sobre as dúvidas que tinham e ponderam a necessidade de operar o gato. Por fim falam sobre ele, sobre como ele não faz questão de ser gentil, como parecia até irritado em responder as perguntas, mas como na hora que a resposta técnica foi necessária, ele soube o que dizer. Especulam que ele provavelmente deve estar acostumado a lidar com gente babaca que chega e trata ele como se ele fosse “um empregado”.

Ele volta até a sala. Eles dizem que vão seguir em frente. Uma data é agendada para a cirurgia, para alguns dias depois. Ele quase falha em conter uma alegria ao anotar a data. Sua alegria vem em parte do dinheiro, do puro e simples dinheiro, a venda feita, o lucro, o necessário lucro do mundo moderno que acalma de forma incomoda e inconsciente as mentes daqueles que sabem todos os problemas do não ter. A outra parte de sua alegria vem de saber da impressão que tiveram dele e que ele agora tem deles.

Agora, ele quer de verdade fazer uma ótima cirurgia. São pessoas legais, não é só uma venda. Ele vai se lembrar deles quando for a hora. Enquanto se despede do casal, fica pensando no próximo paciente e nos próximos problemas. Lembra que mais tarde naquele dia pretende ir ao cinema e fecha a porta fazendo planos de comer pipoca.

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