Mentiras explicativas: 14 – Porque as pias entopem?

Hoje é dia de mentiras. Qual tipo de mentiras? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam mistérios. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque as pias entopem?

Motivo 1 – O curto
Porque o ser humano é sujo, produz sujeira e vive muito tempo.

Motivo 2 – A história
Considere que, para os seres humanos, o programa foi escrito de tal forma que tudo tem que ter consequência, importância e movimento. Tudo. Tudo tem que estar assim e assim, indo pra lá, ou para cá, conforme for o caso, conforme for a regra. De um jeito, ou de outro, apenas deve estar sempre crescendo, nascendo, morrendo, mudando. É assim. É a lei.

Aí, quando na casa, na cozinha, na pia, no banheiro, na pia do banheiro, dia após dia, mundos minúsculos de coisas se acumulam nos furos, nos canos, lançados com mãos leves e sorrateiras, como mágicos, como magia, como ilusionistas, as rotinas.

As pessoas vem e vão, e o sol passa bem rápido e vem a noite e depois o outro dia. E de novo e outra vez. Mais um mês e mais um dia, mais um ano e mais um tempo. Com o tempo, o tempo que passa dá tempo pra que o invisível que se acumulou fique visível. Quase como um conceito que cresce aos poucos, vira ideia e de planos salta até ser coisa real.

Ali, onde não tinha nada, agora há coisas, há uma coisa. Tem vida, tem forma, tem cheiro, tem peso, tem vontade. A água que criou a forma aos poucos, agora quando vem, encontra um filho ingrato, um que fica no caminho, que atrapalha ela seguir. A forma, sem palavras, diz não, porque até nos canos das pias, os filhos um dia enfrentam os pais.

Foram anos e anos, dia após dia, partícula após partícula, um bloco orgânico cheio de histórias de restos de comidas de dias e sons. Há pedaços daquele bolo, daquela festa, daquela comida que deu errado, daquela briga, daquele feriado. Líquidos e sólidos, doces, salgados, amargos e azedos, construídos numa massa que aos humanos soa nojenta, mas que é, em essência, um registro incomum, impopular — e verídico — de sua passagem por aqui.

Preso naquele túnel, no cano, a forma não sabe se ela mesma tem vida, se tem consciência ou desejos. Ela apenas está lá, ela apenas bloqueia, ela cresceu mais do que cabe para o lugar onde nasceu. Um ponto crítico, um momento limite. Não dá mais pra ser hoje como era ontem, a água não vai mais passar. Ela bate e volta.

As pias se entopem porque a vida sempre respinganda resíduos invisíveis pra todos os lados. Atinge as pessoas. Atinge os lugares. Atinge as pias. Nas pias, nos canos, os respingos se acumulam porque lá passa mais coisa. O pó vai embora, mas os restos de comida e a gordura dos lábios, dos dedos, dos alimentos e outros, não podem voar pelo ar.

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