Pessoas: 12 — Ela que tinha um canário

Hoje é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei.

Pessoas: 12 — Ela que tinha um canário

Ela pensa, enquanto entra em seu apartamento, nos segredos que descobriu sem querer e que preferia não saber. Não é exatamente algo que vá mudar o mundo, pelo menos não o mundo dela. Ela trabalha no RH de uma empresa e ficou sabendo naquele dia que até o fim da semana algumas pessoas serão mandadas embora. Cabe a ela preparar a papelada, a lista de coisas a fazer e a assinar. Cabe a ela ficar quieta e não dizer nada pra ninguém. Não é a primeira vez que ela precisa lidar com demissões, mas é a primeira vez que dentre os nomes recebidos estão pessoas que ela conhece. A crise, o país, os problemas, os cortes de custos. Eventualmente sobra pra todo mundo. A estatística e os números.

Ela vai até seu quarto e deixa a bolsa, depois vai até a cozinha e comprimenta Messi, seu canário. O canário era do namorado, mas ficou com ela depois que o namoro acabou e ele foi embora do apartamento. Foram dois anos bons, seguidos de dois anos ruins. Hoje, já faz quase 6 meses que ela está sozinha no apartamento, ela e Messi.

Ela conversa com o canário. Conta sobre como foi o dia, sobre o que tem pensado e os problemas das coisas. Ela limpa a gaiola dele, coloca comida e pega o bebedouro do amigo pássaro para encher de água. Ao fechar a torneira, percebe que algumas gotas pigam e escapam do espaço mínimo e invisível entre a torneira e a parede.

Ela olha as gotas caindo e pensa que não é nada sério, mas continua vendo um pouco mais como as gotas se comportam — só pra ter certeza. Vendo as gotas caírem mais e mais ela tem a impressão de que caem cada vez mais volumosas, cada vez mais rápido. Ela coloca o bebedouro de volta na gaiola de Messi pensando no que faz e em como vai resolver a água vazando.

Ela olha de volta pra torneira e agora parece que ainda mais água está saindo. Ela tem medo que a torneira estoure, o apartamento é velho. Ela tem medo que fique vazando água por dias, ela está tendo que pagar as contas sozinha agora e não tem dinheiro pra perder. Ela pensa em chamar um encanador, mas não tem certeza se a essa hora é possível encontrar algum e, mesmo se encontrar, pensa de novo no dinheiro que ela não tem.

Ela pega o celular e busca na internet como resolver. Ela se lembra do namorado uma vez ter resolvido algo assim. Lembra dele fechar um registro, pegar uma ferramenta que parecia um alicate grande, girar e tirar a torneira pra fora, fazer alguma coisa e prender de novo. Ela encontra na internet como fazer, diz que tem que passar “fita veda rosca”. Ela procura na lavanderia, entre as ferramentas que o namorado esqueceu, se ainda tem a fita e a ferramenta. Ela encontra os dois.

Messi, lá da cozinha, onde está a torneira que pinga, sente no ar a inquietação dela. Messi sobe e desce na gaiola, canta e grita como quem diz “Cuidado! Cuidado!”. Ela respira e lembra que o registro fica na lavanderia. Ela procura por ele e o encontra.

Antes de fechar o registro e continuar em sua empreitada ela pensa se deveria ligar para o pai ou chamar algum amigo.

Ela não quer ligar para nenhum amigo. Nenhum deles, ou delas, saberia mesmo ajudar. O horário não ajuda, as distâncias não ajudam e cada um tem já seus próprios problemas. O único amigo que poderia e saberia ajudar é um colega de trabalho, quase vizinho dela, que ela conheceu no ponto onde pega o ônibus que a leva ao trabalho. Ela fala com ele todos os dias no ponto. Algumas vezes almoçam juntos e voltam juntos pra casa. Ela não quer chamar esse amigo porque ele é um que está na lista de pessoas que serão mandadas embora na sexta-feira daquela semana.

O pai. Ela pensa no pai. Ela se irrita por pensar no pai. Ela se irrita por lembrar de como foi a última conversa, a penúltima conversa, a ante penúltima conversa. Nunca é numa boa. Nunca nada do que ela faz está bom ou certo. O pai. Disse que achava um absurdo uma mulher da idade dela ainda não estar casada, que achava absurdo morar sozinha, que dava má impressão. O pai. Ela não precisava da ajuda dele, ela não queria a ajuda dele. Tinha feito o que tinha feito na vida e nas coisas seguindo seu instinto, seu próprio caminho, com erros e acertos. Não iria chamar o pai, não iria chamar ninguém.

Ia resolver sozinha, mais uma vez sozinha, com a internet, a cara e a coragem.

Ela gira o registro e ouve as paredes ressoarem e responderem, como se não gostassem de não terem mais as águas circulando por dentro delas. Messi responde ao som das paredes e aos sentimentos e hormônios emitidos por ela que contaminam o ar. Messi canta como se dissesse “calma, vai com calma, são só gotas, dá pra deixar pra amanhã, dá pra chamar alguém”.

Ela testa se o registro está mesmo fechado, ali mesmo, numa das torneiras da lavanderia. Gira e pouca água sai, depois não sai água nenhuma e apenas fica caindo uma sequência de pingos fracos dos restos que ficam nos canos.

Confiante e com medo, ela vai até a torneira da cozinha e encaixa a chave de boca — ela aprendeu agora o nome do alicate grande. Ela faz uma primeira força e a torneira não se move. Ela vê abaixo da torneira, bem dali do lugar de onde os pingos saiam, que agora há um caminho todo de água, que talvez os pingos tivessem caído o dia inteiro, que talvez tivesse ficado mais fortes na últimas horas, que ela precisa resolver e tem que ser agora.

Ela se ajeita, segura a ferramenta com força e gira mais uma vez. Agora, a torneira se move um pouco e depois uma volta inteira. Um pouco de água começa a sair da parede, mas ela acredita ser o resto de água que ficou naquele cano. Girar a torneira fica mais fácil e ela termina de girar a torneira com a mão. Dá mais uma volta. Mais outra. Quando vai dar a terceira volta, a água explode da parede jogando a torneira no chão e molhando tudo para todos os lados.

Ela tenta conter o jato, mas a pressão da água, do décimo andar do apartamento, é muito forte. Ela segura o jato com as mãos pra tentar entender e enxergar o que está acontecendo, mas não consegue, o jato bate em sua mão, machuca sua mão e espirra água pra todos os lados. A pia da cozinha se enche em um segundo, transborda e a água continua a ser arremessada da parede.

Ela está toda molhada, sente a calça jeans colada no corpo, a camiseta empapada, os cabelos colados no rosto. Ela dá um passo para trás, sente no passo que a quantidade de água que já cai no chão é o suficiente para fazer uma camada que seu pé percebe. Seus tenis estão também molhados. Com o pé ela sente no chão alguma coisa, ela vira e vê que é a torneira que foi arremessada. Ela protege os olhos com uma das mãos, se abaixa e com a outra mão pega a torneira.

Ela tem uma ideia no instinto, de impulso, de improviso. Sua ideia é de tentar colocar de volta a torneira no lugar, girar de volta, contra o fluxo, até a água parar de jorrar pela cozinha.

Ela pega a torneira e se aproxima do fluxo explosivo de água. Uma bate na outra fazendo a água espirrar por todos os lados a medida que ela se aproxima. É difícil enxergar, é difícil entender o que está acontecendo. Messi grita e pula na gaiola “Oh não! Oh não!”. Ela tenta encaixar a torneira, tenta de novo e de novo, mas não tem sucesso. A água continua caindo, molhando o todo e ela cada vez mais e cada vez mais. O dedo de água do chão já faz á água começar a ir pro resto do apartamento. O coração bate forte, a respiração acelerada, ela solta a torneira na pia e decide tentar pedir ajuda a um vizinho.

Ela não conhece seus vizinhos, elas só os viu algumas vezes no elevador, mas é uma emergência, ela não sabe o que fazer. Ela sente o cançaso e o arrependimento de não ter chamado alguém, sente a adrenalina e o medo do que pode acontecer se ela não conseguir parar o vazamento o mais rápido possível. Os estragos, ser expulsa do prédio, multas, o pai, a culpa, o todo, o tudo, o peso do mundo.

Ela corre até sua porta, abre, vai até a porta do vizinho, aperta a campainha, uma vez, duas. Espera alguns breves segundos sabendo que não pode esperar demais, a água está jorrando e jorrando. Pensar na água de novo e em como ela cai reduz sua noção de tempo, ela desiste e volta pra dentro de casa, deixando um rastro de passos molhados e pingos no caminho entre as duas portas.

Ela entra de volta na cozinha, a água não parece ter subido muito mais. Ela ainda não sabe o que fazer, pensa que pode tentar usar o interfone, talvez o porteiro possa ajudar ou saiba quem pode ajudar. O interfone fica na cozinha e como tudo que está lá, está todo molhado. Ela tira do gancho e espera, mas sentindo a água em suas costas, mais uma vez, ela não tem tempo de esperar. Ela tenta pensar, mas até seus pensamentos são invadidos por fluxos de água, lhe preenchendo o cérebro, vazando pelo olhos. A água está caindo, molhando, inundando, levando tudo, bagunçando tudo, fazendo tudo parecer ser um sonho, um pesadelo. Ela não consegue esperar, desliga o interfone e volta para a pia.

Ela vai ter que colocar a torneira no lugar, vai ter que conseguir, é a única maneira de resolver.

Ela respira fundo, olha a torneira, olha o buraco da parede e tenta mais uma vez encaixar e girar. A água espirra e machuca seu olho. Ela fecha os olhos e vai tocando e sentindo onde está a entrada, onde é o caminho. Ela pensa que podia ter chamado o amigo, que ele entenderia melhor como fazer, que ele teria lembrado de testar a torneira que ela ia abrir e não de testar só aquela torneira lá da lavanderia. Apartamentos podem ter muitos registros, não apenas um, ela iria depois descobrir na internet.

Com os olhos fechados, ensopada e pisando em um dedo ou dois de água, ela encosta a torneira na rosca da parede. Ela empurra e gira, e gira, e gira, e empurra e continua. No esforço, a água corre por dentro da torneira que ela tenta encaixar e a mão esbarra e abre a torneira, a então corre pela parede e pela torneira, expirrando de um lado e do outro. Muita água espirra sem seu rosto e ela precisa fechar os olhos pra continuar.

Com os olhos bem fechados, ela acha e fecha a torneira. Ela continua, ela persiste, ela controla o fluxo e abre os olhos, ela vai em frente, se apoia firme nos pés e gira a torneira uma volta. De novo, com a mesma força. Duas voltas. Mais um pouco, ainda não acabou. Três voltas. Três voltas e meia.

A água para de cair.

Ela pega a chave de boca e dá a volta final. O vazamento está contido. Ela para, olha para parede e quase não acredita em tudo que acabou de acontecer.

Acabou. Ela respira. Acabou. Ela respira. Existe um misto de vontade de chorar com vontade de rir. Ela quer comemorar a vitória, mas é uma vitória estúpida, porque não é vitória de verdade, é só um remendo bem dado pra consertar a própria burrice.

Tudo que ela quer é um banho. Está ensopada. Está cansada do dia. Está cansada das coisas da vida. Está cansada das insjutiças das coisas, dos sentimentos das coisas, das meias palavras, dos segredos, da solidão, da companhia, do isso, do aquilo, da porra toda. Está cansada de segurar as coisas, da falsa normalidade, da falsa moralidade, dos outros e de si mesma.

Antes que pense em mais coisas, ela lembra da fome, sente que tem fome e a fome é mais primitiva, a fome cessa os pensamentos e a coloca em movimento. Ela precisa limpar e secar tudo aquilo pra tomar banho, pra fazer sua janta, pra comer, descansar um pouco e dormir. Ela tem fome.

Leva uma hora ou mais pra limpar tudo. Ela consegue, ela seca tudo, ajeita tudo, o faz da melhor forma possível. Sozinha e com fome. Ela e Messi.

Durante o banho tão aguradado ela chora. Ela deixa fluir. Ela se solta. No meio do choro o soluço vira risada e ela aceita a própria estupidez. Ela pensa nos problemas dela, nos problemas dos outros e vê que tudo é mesmo assim muito complicado e que às vezes as coisas explodem e transbordam, inundam e destroem e não há ninguém pra nos ajudar.

Exceto nós mesmos — e talvez a internet.

Antes de sair do banho ela pensa na ironia da gota ainda estar pingando, depois que ela montou tudo de novo. Para aquele problema, ela vai precisar da ajuda de alguém.

Depois, na mesma cozinha, agora já novamente sendo como ela deve ser, ao som do canto agora tranquilo e jocoso de Messi, ela faz sua janta, sacia sua fome e depois dorme. Nessa hora, o que Messi canta é algo como “mais um dia, mais um dia”.

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