Pessoas: 11 — Ele que gostava de piscina

Hoje é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei. Vamos, então, a suposta pessoa de hoje.

Pessoas: 11 — Ele que gostava de piscina

Ele é pequeno demais pra entender o que está acontecendo. Seu sentimento é de aventura pela possibilidade de ser colocado numa história como nas que vê nos filmes. A casa está cheia de caixas e os móveis estão sendo desmontados. Seu irmão mais velho e seus pais estão ocupados e sem paciência. Ele quer ajudar, mas só lhe dão tarefas de mentira tão mentirosas que ele percebe que estão só dando um jeito de deixar ele ocupado pra que não atrapalhe.

Tudo começou algumas semanas atrás, quando seu pai anunciou que havia recebido uma oferta de emprego em outra cidade. Sua mãe tinha ares de como se já soubesse de tudo antes de todos. Seu irmão ficou muito irritado, como se soubesse de coisas que ele não sabia. Ele não soube o que sentir e não entendeu direito que ter um emprego em outra cidade, nesse caso, significava deixar pra trás a casa onde moravam.

Alguns fins de semana depois, a família foi até a outra cidade, conhecer as possíveis novas casas. O pai dele já tinha visitado antes e tinha deixado em aberto duas possibilidades.

A primeira casa era muito diferente da casa que ele estava acostumado. A garagem descia e tinha pisos coloridos. A sala estava no lugar errado, a cozinha era comprida. Os quartos tinham janelas que não abriam pra fora, a madeira era só empurrada de um lado pro outro e sempre metade da janela estava fechada. Os banheiros pareciam ainda maiores que os da sua casa e um deles tinha azulejos verdes escuros, bem escuros, com folhas desenhadas, que lhe davam medo.

No carro, depois da visita, ele escuta a conversa dos pais. Sua mãe parece muito incomodada com a casa. Diz que não gostou nenhum pouco de ter paredes vermelhas. Ele não tinha nem reparado que alguma parte da casa tinha paredes vermelhas. Sua mãe diz também que não gostou da frente da casa, que achou que a cara da casa é pra baixo e afundada. Ele acha ótimo o que a mãe diz, concorda porque teve a mesma impressão, apenas não soube dizer — nem pra ele mesmo — com as palavras certas, como a mãe acabara de fazer. Sua mãe falou também de armários e coisas da cozinha, falou algo do teto de um dos cômodos e aí se calou. Ele ficou esperando que ela falasse do banheiro do azulejo verde escuro, mas ela não falou nada. Aí, empolgado pelo que a mãe falava e embalado por concordar com parte do que ela dizia, ele abriu a boca e falou como se continuasse o discurso dela, com toda a propriedade que conseguir por na voz.

— E tem um banheiro verde que dá medo.

Todos no carro riram. Ele se sentiu envergonhado. Ainda não sabia reconhecer quando o riso dos outros não é porque foi dito algo ridículo e sim porque foi dita uma verdade que foi sentida por todos, mas colocada de um jeito simples e direto, além de fazer o contraste perfeito com todo o discurso elaborado que a mãe tinha feito.

Seu pai repetiu sua frase “é, e tem um banheiro verde que dá medo” ainda sorrindo enquanto se dirigiam para a segunda casa. O pai ainda perguntou ao irmão dele o que ele tinha achado e o irmão disse que “não sabia”. Ele não entendia como o irmão podia “não saber”. Ele tinha visto a casa, tinha andado por lá e por ali em todos os comodos como eles, e seu irmão já era grande, saia sozinho, já estava quase terminando a escola, logo ia fazer “vestubular” e tudo mais.

“Vestubular” significava “ir para a faculdade”, tinham explicado pra ele uma vez, quando falavam sobre isso e ele perguntou o que era. Inclusive agora, antes de chegarem na segunda casa, falavam sobre como a nova cidade tinha boas “faculdades”, inclusive uma chamada “Uspi” que, aparentemente, era muito boa. Ele guardou o nome porque achou engraçado parecer com “cuspe”.

A segunda casa era muito diferente da primeira. Era um prédio bem alto e em volta tinha outros prédios. A garagem também descia e lá em baixo tinha um monte de outros carros. Ele achou muito estranho a rua ser uma descida bastante inclinada, mas o prédio ser reto como se estivesse numa rua reta. Não lembrava de ter visto uma coisa assim. Ele achava estranho a garagem ser garagem de um monte de outras pessoas também, como é que ia poder brincar na garagem?

Havia um elevador. Ele tinha a impressão de que estavam num shopping. Subiram do “subi solo” para o “térrio”. Saíram por algo que lhe lembrava uma sala de espera de dentista para fora do prédio. Saindo do prédio, ele ficou impressionado por não estarem na rua, mas em algo que parecia pra ele uma praça, dentro do prédio. Ele não quis perguntar, lembrou da vergonha de há pouco no carro, preferiu ficar só observando o que estava acontecendo. Certas coisas ele conseguia não entender na hora, sem ficar incomodado.

Seu pai disse que ali era uma “área comum”, que as crianças podiam brincar por ali, que tinha bancos pra sentar. Andaram e ele viu que tinha outros prédios, iguais ao que ele tinha saído, que também davam naquele espaço aberto todo. “Condomínino”, foi a palavra que seu pai usou para chamar tudo aquilo, logo antes de vir até ele dizendo que ia mostrar algo que ele em especial iria gostar.

Foram andando até atrás de um dos prédios e ele viu lá no canto, lá na frente que tinha uns brinquedos desses de subir e umas crianças brincando. Ele achou que seria aquilo, mas quando chegou até onde seu pai queria que ele fosse, viu que o “condomínino” tinha uma psicina. Uma piscina! Ele nem precisava ver mais nada, aquela casa era a certa, tinha psicina, apesar de não ter garagem pra brincar!

Depois voltaram ao elevador de onde tinham saído e subiram. O andar era o “um” e o “três” juntos, “treze”. Seu irmão achou isso muito engraçado, porque sua mãe ficou um pouco agitada por isso. Ele não entendia porque, mas se sua mãe tinha ficado agitada, devia ter um motivo. “Treze”, ele já conhecia o número, mas guardou que deveria lembrar de se preocupar com ele.

Lá em cima, saindo do elevador, haviam portas e só uma delas era a deles. Entraram na porta e ele andou livre pelo lugar, vendo como o lugar era iluminado. Reparou nas paredes, nos tetos, em coisas que na primeira casa não tinha reparo, mas tinha ouvido sua mãe comentar. A cozinha lhe chamou a atenção por ser um corredor, assim como “o lugar de lavar roupa”. Os quartos tinham também aquela janela que não abria, mas essas eram de metal. Nessa casa ele teria um quarto só pra ele. Ele gostava da ideia, já que seu irmão fazia muito barulho e jogava roupa no chão. Seu irmão gostou muito mais que ele da ideia de ter seu próprio quarto. Ele achou estranho os banheiros serem pequenos, quase como a cozinha, mas no caso do banheiro já estava tudo lá dentro. Ele inclusive aproveitou para fazer xixi e dar descarga. Ele gostava de dar descarga.

Em um dos banheiros, o azulejo era também verde escuro, como na outra casa, mas esse não tinha plantas desenhadas, tinha uns quadrados, uns sobre os outros, virados de lado, pra lá e pra cá. Incomodava menos que o das plantas, mas ele ainda preferia que fossem de outra cor.

A sala e o quarto que seria dos seus pais tinham sacada. Ele já tinha ido em prédios antes, não grandes como aquele, mas já tinha visto uma sacada. Gostava delas. Gostava de olhar as coisas lá do alto e gostou muito de ver a cidade toda lá de cima, com todos os prédios em volta, e ouvir o som que a cidade fazia mesmo quando estava em silêncio.

O apartamento foi a nova casa escolhida, apesar de ser menor, apesar de ter “condomínino”, que até então ele achava que era algo bom.

No carro, na viagem de volta, ele ficou pensando na sacada e ficou imaginando se passarinhos deviam de vez em quando entrar pra ver o que eles estavam fazendo. Imaginou que seria legal ver os pássaros e brincar com eles.

Levou mais alguns fins de semana até que fosse a hora de colocar tudo em caixas e desmontar os móveis todos. Tudo foi colocado num caminhão que iria para o prédio e iria com eles seguir estrada até a outra cidade.

Antes de irem embora ele lembra de seu pai juntar todos para dar um último tchau para a casa. Sua mãe disse pra ele que ele ainda não entendia, mas que pro resto da vida dele, por mais que ele gostasse da nova casa, ele iria levar aquela antiga casa com ele, dentro dele. Ela disse que, por anos, ele iria sonhar com ela e que, algumas vezes, já adulto, iria lembrar de como era e iria esquecer dos detalhes ficando só com uma impressão do que tinha vivido ali. Sua mãe tinha os olhos cheios de lágrimas e ele não entendeu ao certo o porque. Seu pai e seu irmão pareciam de certa forma também emocionados pela despedida, ali tinha sido a casa onde tinham vivido juntos desde antes dele nascer. Vendo todos como estavam ele achou que devia dizer algo pra animar a todos, em especial sua mãe. Foi tomando coragem e enquanto entravam no carro, disse assim para a mãe.

“Não chora, mãe. Na casa nova tem piscina.”

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: