Mentiras explicativas: 12 – Porque algumas pessoas acreditam em inspiração?

Hoje é dia de mentiras. Mas, de qual tipo de mentiras estamos falando? Ora essa, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios da universo. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque algumas pessoas acreditam em inspiração?

Motivo 1 – O curto
Porque acham que criam. Uma vez e pronto. Talvez duas. No máximo três.

Motivo 2 – A história
A noite é boa. Não é quente. Não é fria. Uma imagem surge, um animal, uma raposa, um lobo, algo assim.

É uma fêmea, as patas dela não tem peso enquando ela corre pela floresta. Ela é leve e tem pressa. Seu pelo é branco e brilha no escuro porque ela já não faz mais parte desse mundo.

A imagem continua. Surge um motivo.

Ela corre para encontrar o líder dos lobos. Ela tem uma notícia importante. Sua alma inquieta, ainda apegada a esse mundo, viu como tudo aconteceu. Seu desejo de ajudar os que ainda estão vivos a fez se materializar no mundo dos vivos. Ela não tem mais a força de antes, mas segue correndo por entre as árvores, iluminando com seu brilho branco o caminho por onde passa.

A imagem persiste e mistura o que sente com o que vive, combina as coisas que cria com o mundo real.

Um raio caiu do céu e acertou uma das árvores. O tempo seco desses dias tão longos sem chuva. Algo acontece com o mundo e as gotas do céu não vem. As árvores estão secas e o calor do raio as queima com facilidade. Acendem em vermelho. Iluminam e aquecem a noite.

A imagem para. Se torna desinteressante. O espírito fantasma que vai acordar o lobo pra avisar do incêndio na floresta, escapa das páginas e deixa de ser algo a ser imaginado. A sintonia é perdida, vira só uma imagem, até ser tomada por outro fluxo de pensamento que chega com outra história.

Dá sono. Dá vontade de dormir. Algo não está como deveria ser.

A imagem tenta retornar, existe uma tentativa de continuar com uma mensagem. Será a cabeça que pensa ou será algo que se conecta com algo de fora? O que será que será?

O lobo acorda. Por algum motivo ele mora em uma tenda. O fantasma entra e ilumina a tenda por dentro. Tem desenhos por dentro dela, desenhos feitos por pessoas. Em algum tempo lobos e pessoas viveram juntos ali, mas agora as pessoas se foram, só ficam os lobos e as tendas.

A fantasma fale sobre o fogo, diz que o fogo está vindo que não há nada que possa ser feito, que a única opção é se salvar.

O lobo, por algum motivo, tem uma mala, um chapéu e uma bengala. Ele anda com pressa até a saída da tenda e assim que sai vê que o fogo já chegou ao redor da aldeia abandonada. Ele se irrita, se entristesse. Ele senta no chão e abre a mala. Tira de dentro dela um computador. Estica os dedos sobre as teclas e escreve.

Ele escreve que o fogo não estava queimando. Que era um fogo diferente, que aquecia e trazia nova vida. Ele escreve que o fogo abraça e acolhe e que visita a floresta toda todas as noites. Ele escreve que é o fogo que renova a vida, que é fogo que faz a noite acabar e vir novamente o dia quando é de manhã. O mesmo fogo que queima a floresta é o fogo na bola de fogo no céu.

O lobo continua seu delírio literário a medida que o fogo avança e queima já as primeiras casas da aldeia.

A fantasma cresce em tamanho e agora da pra ver que ela era é uma imensa pantera branca. O lobo perto dela se torna tão pequeno que poderia se deitar dentro de sua boca, usar sua língua como cama.

A pantera branca fantasma urra para o fogo. Tenta dizer que o mal deve ficar longe da aldeia e do lobo. Tenta gritar com o mundo dos vivos que ela morreu, mas seu desejo ainda vive. O fogo a ignora e continua queimando e avançando, deixando cada vez menor o círculo sem fogo.

O lobo continua digitando, cada vez mais rápido e mais rápido. Ele sabe que seu tempo está acabando, ele sabe que o fogo avança. Continua escrevendo o que vê de um jeito que não é como é. Sua cabeça combina e inverte os fatos, altera as razões e os motivos, usa como ponto de partida o fato do mundo a sua volta estar pegando fogo.

Ele escreve ignorando a luz da pantera fantasma. A pantera não se queima com o fogo e vê o fogo cobrir e atravessar seu corpo sem presença até atingir o lobo e queimá-lo vivo e sozinho, escrevendo até seu último segundo.

A imagem se encerra e a voz racional retoma a ordem. Ela retoma o propósito e o objetivo. Conclui então dizendo “As pessoas que acreditam em inspiração não sabem o que faz um lobo escrever sozinho em uma aldeia ambandonada, enquando o mundo queima a sua volta, iluminado por uma pantera fantasma.”. E fim.

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