Pessoas: 10 — Ela que comprava e se procurava

Hoje é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei. Vamos, então, a de hoje.

Pessoas: 10 — Ela que comprava e se procurava

No corredor do mercado ela escuta o som. Se vira assustada e vê que o filho bateu de leve a lateral do carrinho de compras numa das paredes do setor de legumes. Ele tem no máximo oito anos e ela sabe que ele errou de propósito, principalmente porque ele diz assim “você viu, pai? Um segundo que a gente não presta atenção e a gente bate”.

Ela sabe que a frase não é dele. A frase é do marido, dita na noite em que ele bateu o carro e dita também uma hora ou duas atrás, no almoço, quando por algum motivo o assunto veio a tona. Foi de leve, um amassado e um arranhão, ninguém se feriu.

Ela se admira do amor que o filho tem pelo pai, em como o vê como modelo. Até nos defeitos o filho tem vontade de ser como ele.

Ela não tem a mesma visão que o filho. Já faz um tempo que tem dificuldade de ver no marido o modelo, o exemplo, o prêmio. Os defeitos dele a incomodam. Algumas vezes extrapolam a paciência. Tudo já existe há tanto tempo que ele já nem faz mais questão de polir e reduzir, de ouvir, considerar, repensar e mudar. Ele é como ele é. Está acomodado no ser como é, porque o casamento, afinal, persiste. Mais um ano, mais um momento, mais uma frase engraçada dita pelo filho numa visita em família ao mercado. Mais um algo da rotina que ganha ares especiais e poderes para virar memória só porque são vividos com pessoas que importam.

Ela tem também os defeitos dela. Não são poucos. Não são muitos. São na quantidade que são. Seu maior problema tem sido negar as vozes em sua cabeça, os pedidos e desejos que durante tantos anos ela pode domar e compartimentalizar. Com os anos, os desejos do seu “eu” interior, da sua alma, como se diz, intensificaram e se tornaram agressivos em sua necessidade de serem saciados. O corpo manifesta. O médico diagnostica o problema. Não há problema. O caso é na cabeça, não é no corpo, e no peso posto no coração. Resumem a estresse, mas não é bem isso.

Eles seguem fazendo as compras. Ela agora segue empurrando o carrinho indo atrás do pai e do filho. Ela observa o filho tentando convencer o pai a pegar um iogurte. Ela observa, mas não enxerga a cena. Os olhos estão filmando em modo automático enquanto sua cabeça pensa nas coisas que a psicóloga a fez ver na última sessão.

Ela lembra do começo, quando decidiu que ia buscar ajuda. Lembra de como no começo tinha vergonha. Não queria dizer tudo. Não queria que outros soubessem que ela estava buscando ajuda psicológica. Depois, gradualmente, conforme as camadas de quem ela era foram se abrindo a ela mesma e ela foi vendo valor e importância naquilo, deixou de ter vergonha de dizer e de contar.

Passou a gostar tanto que algumas vezes tentou convencer o marido a ir. Usou gestos e palavras que lembravam os que seu filho usava agora tentou convencer o pai a levar o iogurte.

Ela achava que seria bom pra ele entender melhor as coisas que sentia. Pra ele, contudo, o conceito em si não fazia sentido. Ele entendia o que ele sentia. Ele não era como ela, não tinha aquela sensibilidade que embaralha as regras do que é se portar normal, sentir normal, viver normal, ser normal. Pra ela, a cabeça dele não tinha os blocos de decisão conectados por labirintos. A cabeça dele, para ela, era só uma sequência de corredores retos, uma vida que vive por instinto e que faz o que tem que fazer, sem questionar ou considerar os fantasmas e as assombrações do existencialismo.

Algumas vezes, ela pensa em sua juventude. Xinga sua mãe morta. Xinga seu pai vivo. Xinga a irmã. Xinga um ou dois amigos. Busca culpados. Busca motivos pra ela ter feito o que fez e como fez, razões pra ter ali agora aquela vida.

Ela não casou muito jovem. Não casou grávida. Não casou sem guardar o dinheiro e planejar cada um dos passos. A compra do apartamento pra pagar em 30 anos. O momento de ter o filho. Os móveis, o carro, aquela viagem ao exterior.

Ela sempre gostou de ordem, de organização e disciplina. Era um jeito de fazer a vida não ser caótica, de estar um passo a frente de qualquer imprevisto. A psicóloga havia mostrado que era um problema escolher viver a vida assim, porque grande parte das coisas não pode ser controlada, incluindo as vozes na sua cabeça que pediam pra serem livres, que chamavam ela para aceitar as ideias dos livros não como entretenimento, mas como algo mais. Havia naquelas palavras mais do que histórias, mais do que ritmo em texto, havia uma alma que pulsava inquieta uma luz forte que iluminava a vida e mostrava como tudo talvez fosse uma grande besteira.

Uma vez ela tentou falar disso com o marido. O resultado foi péssimo. As perguntas dela eram sobre a existência, sobre as buscas dela. Ele só conseguia entender o sentido literal das coisas e buscar o que naquilo tudo era culpa dele. Ela acabou vendo que talvez fosse melhor não falar daquelas coisas com ele, que usando a já tão treinada disciplina, ela poderia calar a voz dentro de si mesma. Era tolice parar para contemplar e pensar. Era melhor seguir em frente. Seguiu até aparecerem os problemas de estresse, manchas na pele, o maxilar enfraquecido, o coração acelerado. Foi assim que aceitou tentar a psicóloga.

Ela sentia que existia um limite pro quanto uma pessoa pode fugir de si mesma. Andando pelos corredores do mercado, sua cabeça convertia em analogia a escolha dos produtos. Esse sim, esse não. Motando o carrinho, montando uma vida. Escolhas que ela queria, escolhas que ela aceitava porque o marido queria. Coisas que o filho queria. O carrinho era de fato uma analogia incomoda.

Ao chegar no caixa, a compra completa, era hora de pagar.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: