Mentiras explicativas: 11 – Porque as pessoas falam que vão marcar, mas não marcam?

Hoje é dia de mentiras. Mas, qual tipo de mentiras estamos falando? Ora essa — essa ora — mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios do universo. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque as pessoas falam que vão marcar, mas não marcam?

Motivo 1 – O curto
Prioridades, não desafetos.

Motivo 2 – A história
Num salto ou numa curva diferente — ele não tem certeza — ele acorda. O céu é escuro. Ele não tem certeza se é tarde e está voltando pra casa ou se é cedo, ele está indo pro trabalho e o Sol nem nasceu.

Preenchendo o cadastro para fazer o exame, ela erra e coloca que sua idade é 33, mas era 34. Era 34 há um bom tempo, falta já, inclusive, bem pouco pra ser 35.

Ele está contente porque finalmente fez aquilo que ia fazer e que levava 15 minutos pra ser feito. Levou só 2 anos pra conseguir parar e fazer.

Ela olha a lista de livros comprados nos últimos anos, todos em boas promoções. Ela não acredita que a lista de livros lidos, em comparação, seja tão pequena.

A sensação é incomoda e lhes morde o coração por dentro. É como se o coração batesse vazio, como se só as bordas dos músculos estivessem bombeando o sangue. O miolo não existe, como se tivesse sido engolido por uma mordida dada pelo súbido salto de desespero vindo da conclusão de que nas rotinas que vivem seus tempos estão passando.

É breve. É breve o bastante. O bastante pra pontuar o sentimento e iniciar uma reação em cadeia de pensamentos que planejam e demandam mudanças. Mudanças tem sido difícieis de fazer, quando a sequência toda de ações se tornou apenas reação e não ação, quando as frases começam com a palavra que termina a frase anterior, resolvendo e fazendo o que tem que ser feito, o que a vida pede, o que a culpa pede, o que os sentimentos internos e secretos demandam, os choros incompreensívos que exigem que sua sede e necessidades de mimo sejam atendidadas, acalentadas e saciadas, mortas com marteladas e lanças no coração. No coração a mordia se repete.

Neste tempo em que isto é escrito os verbos perderam força e quem mandam são os substantivos. A Rotina reina entre aqueles que dão nomes as coisas e ela prefere que façam o que tem que ser feito, de novo e de novo, sem encaixar ou improvisar, sem que exista ação no teatro humano que espirala lá em cima no céu.

Num de seus momentos de tédio, ela aponta seu telescópio para a Terra e observa as vidas de alguns. Ela vê e aprova, se diverte e aprova, rotinas e rotinas, aqui e aqui, entre os que trabalham, entre os que estudam, entre os que não fazem nada — até mesmo eles, seguem numa sequência de fazeres, afazeres e não fazeres.

Saltando de uma vida a outra, observando pelo telescópio a Rotina segue sua rotina. Faz isso sempre. Faz isso como Rotina/rotina.

Vez ou outra, bate com a mão fechada na mesinha de café feita de pedra firme que tem ali ao lado. Diz palavrões. Os combina de forma inusitada. Clama gritos que combinam entranhas, profissões desrespeitadas e aquilo que é expelido e fede, quando sai de dentro das pessoas lá de cima. Seus xingamentos tem, inegavelmente, uma base cultural. É possível especular que a própria Rotina talvez tenha sido ela mesma um ser humano que entrou tanto em uma rotina que acabou por se personificar naquilo e em mais nada. Ou apenas é fato que os excrementos, as entranhas, e as profissões, sejam todos sejam elementos contidos na própria Rotina.

O motivo dos palavrões e da batida na mesa é a insistência de alguns. Aqueles que se organizam, que refazem e recriam, que mudam, se reeducam, que acham que podem fazer isso e aquilo se mudarem aquele e esse. Ainda bem que estes são poucos.

Enquanto olha pelo telecópio, há também vezes em que a Rotina ri um riso alto e saboroso, que preenche o ambiente e o ar de onde fica. A frase que mais lhe faz rir é a que surge quando dois seres humanos, absolutamente tomados pela Rotina, por terem ainda uma memória, mesmo que já distorcida pelos anos, resolvem tentar reviver aqueles tempos que supostamente eram bons. Eles conversam amenidades, atualizam-se brevemente e sem profundidade a respeito do que está havendo em suas vidas particulares, falam sobre se encontrarem, sobre terem um momento, sobre pararem pra tentar refazer algo que nas suas memórias era bom e existiu. Planejam um encontro, um evento, uma coisa futura, fora de suas rotinas diárias, encerram a conversa e dizem “vamos marcar”.

Ela gargalha. Bate o pé no chão enquanto o ri.

O riso vem do ridículo e vem da inebriação. Inebriação por constatar seu enorme poder. Poder que não está só na intenção tola de querer marcar algo que não será marcado e que acontece. Acontece que, o ato de querer marcar se repete, de novo e de novo, do mesmo e do mesmo jeito, se tornando ele também rotina.

Além do ato, os que impulsionam a frase são aliados da própria Rotina.

Querem marcar porque estão presos por sentimentos que gritam e demandam. Tem-se o fantasma da memória, que afirma ser bom repetir algo que era feito, em criar de novo aquela rotina. Havia algo de bom em encontrar aquela pessoa, havia algo de bom naquela rotina. De um lado e do outro, termina tudo em rotina.

Há os casos especiais em que a proposta está contaminada de culpa e do instinto natural de não causar ao outro qualque dor. Seja no acaso de o outro perceber que não é mais quisto, admirado ou faz falta. Seja no não querer estender a conversa, atrapalhando a própria rotina.

“Vamos marcar” porque lhe considero pelo que me lembro do que vivemos. “Vamos marcar” porque a sociedade nos demanda encontros sociais e expressões de normalidade. “Vamos marcar” porque não quero lhe magoar caso você queira mesmo marcar e talvez o outro não queira. “Vamos marcar” porque é o certo. “Vamos marcar” porque o tempo passa. “Vamos marcar” porque estamos perdidos sendo carregados pela correnteza de um deus maior que influencia nossas vidas e nossos caminhos. “Vamos marcar”. “Vamos marcar”. “Vamos marcar”.

Eles tentam, mas não conseguem. A rotina os vence porque, na própria intenção de algo marcar, a Rotina se fortalece e ela vence qualquer intenção de mudança.

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