E aí eu li: RAAM, Mr. Milan

Motivação é um assunto recorrente nas coisas que eu escrevo e nas coisas que eu posto aqui. Entender os motivos das pessoas me faz pensar em muita coisa, o que impulsiona alguém a fazer o que esse alguém faz. A busca de um propósito, o encontro desse propósito e tudo que pode acontecer quando uma pessoa decide o que quer fazer, o que tem que fazer e o que ela faz pra definir quem ela é.

O livro do título do post fala disso de duas formas. A primeira é pela história em si, a jornada que é contada. A segunda é pela jornada do escritor que escreveu o livro.

A jornada do livro

O livro fala sobre uma corrida. Uma corrida de bicicletas, ou, pra ser mais justo, exato e adequado, uma maratona pedalando. A proposta é atravessar os Estados Unidos, indo de uma costa até a outra no menor tempo possível. São quase 4 mil e 800 quilômetros de distância. É a distância entre Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, até Fortaleza, no Ceará, só pra dar uma ideia da dimensão da distância.

A corrida se chama “Race Across America”, abreviada como RAAM. Essa é uma das provas mais difíceis do ciclismo, não só por causa da distância, mas também pela variação de altitude e clima, chegando ter temperaturas acima de 50 graus, até temperaturas negativas, ao longo do percurso.

O livro tem como foco a décima participação de Márcio Milan. Ele é brasileiro e na época do livro tinha 65 anos. Ele não é atleta profissional, ele atua no mercado varejista, com negociações e vendas numa dessas profissões que é difícil explicar, mas fácil de ver o impacto. O esporte, segundo ele mesmo, é onde ele “recarrega as energias”.

No livro, ele participa na categoria quarteto, onde um ciclista pedala por vez enquanto 3 descansam. Nas duas participações anteriores a contada no livro, a equipe dele conseguiu chegar em primeiro lugar na categoria deles. A proposta do livro é celebrar os 10 anos de participações e, ao mesmo tempo, contar como é a experiência da corrida, como é percorrer os 4800 quilômetros em cerca de 7 dias. Sim, 7 dias.

Colocando de lado a “sinopse” e indo pra parte legal de comentar (É!), acho que a primeira coisa a ser dita é que o livro não é um documentário. Ele é uma mistura de diário e narrativa. Ele tem um foco no Sr. Milan e tenta construir a personalidade dele e as motivações dele em relação a prova. Ao mesmo tempo, o livro narra o dia a dia prova como um todo, com todos os problemas e dificuldades que estão envolvidas no processo, incluindo a dificuldade de se escrever o próprio livro, a logística das equipes de apoio, os contratempos, as brigas, os acasos e a dificuldade de completar a prova. E é justamente aí que o livro tem seu mérito, ele vai além de um relato da “dificuldade esportiva”, ele tem uma história com personagens e eventos que ganham um peso e uma densidade que apenas histórias da vida real conseguem ter.

Acho que esse é inclusive um ponto complicado na hora de “vender” o livro. Acredito que muitas pessoas que gostariam da história, da narrativa em si, mas por verem essa capa de “esporte” não imaginam o tipo de história que o livro tem.

Ao mesmo tempo, a experiência contada da RAAM, como já disse, não é documental, é uma história com problemas e acontecimentos que fogem do óbvio, onde o final nem sempre é feliz e aquela cena esperada e clichê onde tudo dá certo de forma cinematográfica não acontece, porque a vida real não é uma narrativa com 3 arcos e um final feliz, ela tem muito mais coisa, e talvez esse não seja o tipo de livro que alguém que está interessado pelo esporte está interessado em ler.

O livro fica assim num meio do caminho. Ele não fala da RAAM, ele fala de uma experiência de se participar da RAAM, de um ano específico e de como as coisas podem ser e acontecer enquanto se está lá. Essa visão é limitada pelo narrador, então falta um pouco o retrato da estafa física que o livro poderia ter se fosse escrito por alguém que vivesse a experiência do pedal.

Por ter um ponto de vista pessoal, uma pegada de quase diário do narrador, existe um filtro das próprias percepções dele e das coisas que ele viu ou teve como ver ao longo da prova. Por mais que coisas se percam no caminho, é evidente o quanto a prova é cansativa pras equipes de apoio, que vão seguindo o ciclista e garantindo que ele se alimente e siga em segurança.

Particularmente eu gosto das coisas inesperadas que acontecem e quanto a falta de sono, fome e o estresse constante dos dias leva as pessoas ao limite. A paciência se perde, a inteligência se perde e força e o caráter individual de cada um vai sendo quase como descascado, uma por uma, hora a hora, todas as camadas que estamos acostumados a ter para que o convívio social seja bom, vão sendo removidas e quando isso acontece vemos as pessoas como pessoas e não como personagens. Todos tem uma oportunidade de fazer merda, de fazer certo, de ser legal e ser babaca. Esse retrato das coisas é mérito do autor e dá valor a obra.

No final do livro senti falta de uma reposta mais concreta de porque as pessoas aceitam participar dessa corrida. Porque os ciclistas aceitam pedalar até quase morrer, porque a equipe de apoio aceita ficar sete dias dormindo 3 horas por dia, porque as pessoas decidem fazer aquela jornada. A verdade é que existe uma reposta concreta implícita na história e por mais que ela não esteja declarada palavra por palavra no final, o livro consegue carregar o sentimento de que acabou, de se chegou ao fim, de que foi difícil, muito difícil, que aquelas experiências vividas naqueles 7 dias vão ser levadas pra toda a vida e que certamente, apesar de todos os problemas e percalços, dá pra entender porque as pessoas voltam no ano seguinte.

Tenho a impressão, às vezes, que a vida pode ser bem besta se você não fizer nada. Tudo pode ser bem fácil e confortável, se você quiser. Por outro lado, se você aceitar desafios e aceitar fazer mais, viver mais, assumir mais, você ganha a possibilidade de viver mais coisas, de aprender mais coisas e isso te transforma como pessoa. Acho que nem todo mundo tem essa busca, essa necessidade desse tipo de experiência, de se arriscar, de testar os próprios limites, de fazer algo pra poder morrer sabendo que provou das coisas. Muita gente passa a vida toda no mesmo sabor de sorvete, no mesmo sabor de pizza. Pra muita gente viver assim tranquilo e seguro é pouco, é inquietante, algumas pessoas simplesmente precisam fazer mais. Se você entende essa inquietação, esse com certeza é um livro pra você.

A jornada do escritor

O autor do livro é Wagner Hilário, que apesar do nome, não é um piadista (tu-dum pish!), ele está muito mais pra um poeta. O estilo de escrita é direto, fluído, tem descrição e divagação, a poesia não está no jeito de escrever, mas de olhar pras coisas. Como já falei lá em cima, essa opção de pintar as pessoas da equipe, incluindo ele próprio, de forma realista, com defeitos, irritações e todo o resto, vem desse olhar.

Como a história acaba sendo uma espécie de diário dele é interessante ver a preocupação de tentar notar tudo, de registrar as coisas e as pessoas e como isso vai se modificando ao longo do livro. Nas últimas páginas a experiência já é muito mais pessoal, como se os personagens já tivessem sido descritos e agora fosse a hora de brincar. Se o nome do Sr. Milan está na capa e ele é o foco do livro, fica difícil não dizer que o personagem principal não é o próprio autor.

Algumas vezes tive a impressão de que o livro poderia ser o making of de um livro. Como se existisse em algum lugar um livro que conta o que acontece sendo apenas documental e esse livro é um conjunto de anotações secretas do autor e das coisas que ele pensou, sentiu e fez.

Eu, como escritor, fico pensando como seria pra mim estar nessa experiência, como teria sentido e composto a história. Gosto de notar que seria algo diferente, porque meu jeito de olhar as coisas e as pessoas é diferente, porque a minha relação com o que eu escrevo é diferente e isso é uma das coisas que faz o livro ser único.

Usar o dom da escrita pra contar o que aconteceu é diferente de escrever uma história. Pensando de um jeito primitivo, pensando naquelas linhas subterrâneas de pensamento que fizeram nós como sociedade nos unirmos dentro de cavernas e em torno de fogueiras, essas histórias que contam o que aconteceu, tocam a gente de um jeito diferente. Ter uma pessoa como testemunha de qualquer evento, te dá um relato daquele evento. Ter um escritor como testemunha de qualquer evento, te dá uma história. Sendo assim, se você gosta de escrever, acho que esse livro também é pra você.

Concluindo

RAAM, Mr. Milan é um livro que se não fosse publicado no Brasil, por um autor brasileiro, talvez virasse uma adaptação pra série de TV, ficasse famosa e o livro vendesse milhões hehehe. A história está lá, os personagens estão lá e se você não tiver pré concepções sobre o que o livro deve ser e apenas sentar pra ouvir a experiência e a história, dificilmente você vai desgostar do que vai ler.

Abaixo, segue um link para o livro lá na amazon. Inclusive tem digital, se você preferir.

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