Pessoas: 09 – Ele que vivia com represas

Ele não aguenta mais. Pelo menos é o que parece que é se ficar só olhando e imaginando o que aquela expressão facial quer mesmo dizer.

Ele liga o computador e espera que ele inicie. Ao mesmo tempo, dá sorrisos ensaiados a cada uma das pessoas que entra na sala para a reunião. Ele sabe que eles, tanto quanto ele próprio, não queriam estar ali. A situação é desconfortável porque o silêncio e os sorrisos ensaiados deixam bem claro que ambas as partes contém o que realmente queriam dizer pra no lugar dizer o que supostamente seria coisa certa a ser dita. O comportamento adequado, o jeito adequado, o método educado é o que anda sem medo pelas bordas de uma represa de sentimentos que cedo ou tarde vai estourar.

Ele pensa no tempo, no dinheiro, no custo das horas da equipe. Ele pensa se está fazendo o certo, se precisava mesmo de mais uma reunião que poderia ser substituída por um email. Ele pensa que que é necessário falar e apresentar aqueles números, mostrar para as pessoas o quanto tem trabalhado e se importado, do alto da sua sala do segundo andar, de onde da janela quadrada que ele odeia, ele observa todos como alguém que quer cuidar, ajudar a fazerem melhor o trabalho o que fazem. Ele não gosta de ser um vilão, o chefe, o que cobra, o que exige. Mesmo assim, as pessoas algumas vezes demandam que isso seja feito. Ele pega o pensamento e joga pra dentro da represa a medida que nota que a sala já está quase cheia.

Ele abre a apresentação. Ela é chata e enfadonha. Números e promessas pro ano que se inicia. A apresentação é chata e enfadonha até pra ele que montou e organizou tudo aquilo. Dando os últimos acertos para iniciar a fala, ele ouve os pequenos comentários dos pequenos grupos que cochicham o que não represam entre si, porque eles entre si não ele, e com aqueles que não são ele, ser honesto é mais fácil. Sua memória se perde por um segundo ao dois enquanto ele de pé espera que todos olhem pra ele, pra que possa iniciar a apresentação.

Naqueles dois segundos, enquanto ajeita o controle da apresentação na mão, ele lembra das vezes que era ele do outro lado, de quando ele não era o chefe, de quando era ele fazendo comentários entre amigos, piadas sobre o chefe que beiram o desrespeito amigável. É hora.

Ele nota que tem a atenção de todos e começa a falar. Ainda está nervoso porque ainda não tem certeza se devia fazer a apresentação, porque não tem tanta certeza dos números e principalmente porque sente o clima tenso e dúbio dos olhares calados e com sonos que lhe encaram e dizem “porque nos chamou aqui?”.

As primeiras frases saem tortas. Ele gagueja um vez ou duas, erra um outro número, nome ou concordância verbal. Segundo a segundo, quanto mais fala, mais pra trás ficam os erros, sua voz se fortalece, suas pernas ficam firmes e a voz clara e direta ecoa pela sala. Ele não é uma fraude, ele fez por onde para estar ali. Ele estudou os números, ele estudou a economia, os sistemas e os casos, ele conhece o que faz. Tem dúvidas, claro que tem, mas diante delas tentou entender o melhor que pode e com as informações que achou, tomou decisões. Ele faz, ele não espera.

Slide após slide, número após número, ele acaba se esquecendo dos sentimentos represados. Acaba se divertindo com a própria fala e se empolgando com o que pesquisou e planejou e fez. Ele acredita naquele plano de negócios. Ele acredita naquela equipe, naquela ideia, naquilo.

Eventualmente ele chega no momento de ouvir perguntas. É aí que ele olha de volta de verdade aos funcionários, ao seu público, e é aí que se dá conta de que eles não estão embarcados no projeto e nos números da mesma forma que ele. Ele nota as expressões de ironia, de sono, de “tanto faz isso aí”. Ele nota nas perguntas, que são educadas e diretas, pingos da represa de sentimentos que segura um mar bravo, que se agita e joga os pingos, insatisfeito por só poder pingar quando na verdade queria inundar e destruir.

Ele tenta manter a calma. Tenta se lembrar de novo da própria vida e de como algumas vezes é possível ter uma impressão de alguém tão negativa que não importa o quanto se faça, não damos ouvidos àquela pessoa. Ele lembra dos conselhos do avô e do tio, que o criaram no lugar do pai, que só fizeram sentido quando ele foi viver a própria vida. Ele lembra da ex-mulher. Ele lembra de amigos e conselhos intrometidos que mais tarde lhe salvaram a vida. Ele lembra do filho que cresceu e o fez deixar de ser um herói pra ser um chato que lhe cobra e palestra.

Em suas respostas diante das perguntas ele responde sem medo. Ele fez a lição de casa. Ele assume a postura gentil, a postura do sentimento represado, a postura que deixa claro que o objetivo é achar um denominador comum entre as insatisfações de todos e o que deve ser feito que eles não tem condições de entender. Ele ouve, dá abertura, considera e abre possibilidades, ao mesmo tempo em que abaixa o escudo e lança forte e certeiro um verdade aqui, uma verdade ali, uma cobrança lá. Ele está firme, ele ouve, mas ele comanda.

A hora passa e a reunião termina. A apresentação foi mesmo algo que poderia ser um email. As represas dele e dos funcionários permanecem intactas. O negócio, o business, o corporativo, continua rodando e faturando, apesar dos subsolos e abismos secretos.

Enquanto ele desliga o computador e o projetor, as pessoas vão saindo. Algumas same rápido, nem mesmo olham pra ele. Outras passam perto e dão um sorriso de mentira. Lhe chama a atenção ver que dentre todos que estavam ali, nem todos os sorrisos e os olhares eram de reprovação. Da massa móvel multiconsciente dada a oportunidade de lhe julgar, alguns estão do seu lado e veem seu ponto e reconhecem que ele está fazendo o melhor que pode e que isso não é uma desculpa. É pra esses que essas apresentações valem, pras pessoas que ainda não deixaram que a rotina lhes enchesse de uma arrogância que os faz achar que tudo fariam melhor e que tudo sabem, mesmo que não façam e mesmo que não saibam.

Ele apaga a luz e, andando atrás de todos, ele volta para o segundo andar.

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