Pessoas: 08 – Ela que não acreditava

Hoje é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei. Vamos, então, a pessoa de hoje.

Pessoas: 08 – Ela que não acreditava

Ela é tida como uma senhora supersticiosa, mas não é bem isso que ela é. Como ela própria gosta de dizer, sempre que a boa e velha educação não é necessária, ela apenas “não acredita em merda nenhuma”. Ela se define como alguém que duvida de tudo, que testa tudo, que tenta realizar todo e qualquer ritual ou simpatia, por mais absurdo que possa parecer, só pra ver o que realmente acontece. Mas não foi sempre assim.

Durante anos, ela tentou ser religiosa. Fez parte, alguns anos aqui, alguns anos ali, de um número grande de religiões. Em cada uma, seguiu os preceitos e ouviu os respectivos sacerdotes e sábios, tendo a “fineza”, como ela colocava, de nunca fazer parte de mais de uma religião ao mesmo tempo. Ela buscava “uma real presença do divino”.

Tinha nascido no início dos anos 50 e desde muito pequena o conceito a fascinava. Até os sete anos de idade viveu numa cidade do interior e as memórias desses primeiros sete anos eram cheias de momentos religiosos. Festas, procissões, celebrações, enterros e, principalmente, histórias que as pessoas contavam. Visitas de bruxas, santos, demônios, lobisomens, flocos de luz vindo do céu, os perigos da lua cheia e a maldição de ser o sétimo filho. Sonhos premonitórios, árvores que eram pessoas.

A mãe dela tinha uma frase famosa dessas crendices, usada pra educação e pro mistério, “criança que bate na mãe vira árvore seca”. A mãe dela dizia mais, dizia ainda que no quintal da casa, bem ali onde corriam as galinhas, bem quando se mudaram, tinha duas árvores secas que eram crianças que tinham morado ali e batido na mãe.

Ela ouvia todas as histórias de olhos arregalados. Tinha pesadelos, mas os adorava. Em suas brincadeiras de imaginação e brinquedos improvisados, recriava muitas dessas histórias, repetindo cada uma delas pra si mesma, de novo e de novo. Eventualmente ela chegou a conclusão que muitas daquelas histórias vinham da vontade das pessoas de acreditar em alguma coisa, dos percalços de ser um adulto no mundo real e de uma ignorância a respeito de como o universo realmente funcionava.

Conforme foi crescendo, continuou fascinada pelas possibilidades das coisas, tomou gosto por estudar e por ler histórias. Gostava de todas as matérias, de todos os assuntos. Devorava livros, figuras, tabelas e cálculos. Uma vez deu um soco na cara de um menino que achou muito engraçado ela dizer que queria ser engenheiro, “uma mulher engenheiro? Até parece! Vai costurar!”. Naquela época as coisas eram bem diferentes.

Ironicamente ou não, o menino socado e ela acabaram se tornando amigos e anos mais tarde se tornaram engenheiros e se casaram. Ela acabou voltando a faculdade para estudar mais coisas e acabou se tornando uma professora universitária, focada principalmente em estudos de psicologia.

O marido dela não era religioso, mas não buscava o que ela buscava. Ainda assim, ele gostava de ver até onde a busca dela poderia ir. Incentivava e esperava que ela eventualmente encontrasse o que estava procurando.

No início dos anos 80 tiveram uma filha que desde pequena se acostumou com as buscas espirituais da mãe. Para ela, gerar uma criança e especialmente dar a luz, tinha sido a experiência mais próxima que teve de sentir a presença do divino. O problema é que devido a sua própria natureza ela própria não aceitava isso bem. Achava que toda a carga hormonal, o cansaço, a intensa dor e a alegria do momento, podiam ser só eles juntos a maior explicação para qualquer sensação transcendental que ela tivesse sentido. Achava uma merda como muitas vezes a pessoa que ela era ficava tão controlada e influenciada por hormônios. Achava uma merda isso não acontecer com seu marido e com todos os homens a sua volta.

Para cada religiões que tentou a sequência das coisas era mais ou menos a mesma, ela conhecia a nova doutrina, ouvia sobre seus preceitos e filosofias, começava a fazer parte, começava a questionar as coisas e de repente tudo ficava muito estranho, confuso e desnecessário. O ritual era ritual demais, as doutrinas eram silenciadores, não apaziguadores, seu coração não se aquietava.

Naquele momento da vida dela, não era só simplesmente a presença do divido, ela queria saber porque estávamos vivos, qual era nosso propósito, porque as coisas são como são. As religiões só lhe davam um alimento espiritual, conceitual, simbólico, misterioso. Ela queria algo palpável, uma resposta dura e crua, uma verdade exata que dissesse porque estamos vivos, qual era o deus certo, se existia reencarnação, vida após a morte, carma ou não. Não queria conforto diante da possibilidade de a morte ser só uma escuridão sem fim, precisava de algo mais.

Quando sua filha tinha por volta dos treze anos, ela experimentou um período de cansaço e desanimo com as coisas. Depois de tanto estudo, de tanto esforço, de sentir que tinha criado a filha, de sentir que tinha buscado muitas religiões e muita coisa, a única coisa que ela queria era não ter o sentimento de descobrir que o sábio sacerdote referência do momento era uma fraude, uma farsa, um ignorante, um papagaio pendurado em filosofias por medo e não por sabedoria — como quase sempre era.

Foi aí que ela decidiu que iria tentar fazer diferente, que ao invés de tentar louvar um deus iria tentar ofendê-lo. Sim, ofendê-lo e muito. Ofendê-lo o suficiente pra que ele viesse até ela, para que lhe desse uma punição ou um discurso de moral, desses como ela lia em muitas histórias. Ela queria um evento que fosse incontestável. Não bastava ser algo do tipo “o certo por linhas tortas”, não bastava ser um “talvez seja”. Ele queria uma visita, uma mensagem clara. No ano seguinte, sua filha já adolescente, de muitas das ofensas praticadas, com certo gosto — adolescente e não filosófico — ela também participou.

Em sua jornada de ofensa ela jogou pedras em cruzes e em estátuas de santos. Chutou macumbas, roubou bebidas das oferendas, trocou bebidas das oferendas, chegou até a fazer xixi num despacho. Ela levou e comeu um cheeseburger em um templo budista e em um templo hindu. Comeu escondido, lá trás, não queria ofender ninguém, só queria sua própria resposta. Ela fez churrasco em sexta-feira santa e desenhou Maomé, mas não convidou ninguém nem pra comer seu churrasco, nem pra ver seu desenho. Mais uma vez, ela não queria ofender os outros, só queria achar paz em sua jornada.

Fugindo das religiões como instituições ela tentou também rituais ocultistas, lendas e mistérios. Passou noites em claro no cemitério esperando alguma alma penada aparecer. Numa das vezes ficou até assobiando pra ver se ajudava. Em casa, algumas vezes ficava horas no escuro, esperando que uma criatura da sombra lhe cutucasse. Um dia, a filha já quase formada na faculdade, chegou e viu que a mãe tinha acabado de construir, com a ajuda do pai, um pequeno altar à Cthulhu — os amigos da filha adoraram. “Sua mãe é muito legal”.

No meio dos anos 90, com a filha já adulta e responsável por si mesma e com a o dólar baixo como nunca foi, suas buscas começaram a envolver viagens pelo país e pelo mundo. Com o marido, ela visitou lugares ditos como mal assombrados, casas velhas, antigas fazendas de escravos, grutas e florestas. Templos antigos, cidades esquecidas pelo tempo, ruínas gregas, romanas, Machu Picchu, a Capela Sistina e alguns templos do Japão.

Os lugares eram bonitos e lhe expandiam os horizontes. Ao mesmo tempo aumentavam sua necessidade de entender o porque de tudo que existia. Viajar não lhe deu respostas, apenas aumentou suas perguntas.

Uma das coisas que ela tentou foi a ufologia, chegou até a ficar num desses retiros duvidosos que ficam nas montanhas. Passou um feriado todo lá e o único contato inusitado que fez foi com um guaxinim a quem deu um pacote de bolachas, além de ter que ouvir um monte de maluquices e absurdos sobre pseudo ciência e fatos astronômicos tão errados que ela, que inclusive tinha feito alguns cursos de astronomia, tinha dificuldade em conter o riso. “O Sol é um planeta iluminado de luz”, “É. É, sim, porque iluminado de trevas ia ser estranho, né?”. “Porque esses são os poderes do turbante magnético de Ashtar Sheran, filho de Kruashtron Tra.”, “Oh sim, claro, claro”.

Nessa época sua filha já tinha se casado e tido ela própria também uma filha. Como adulta e com a própria família, a filha já não achava tão interessante participar das experiências da mãe. Pedia inclusive que a mãe não falasse certas coisas coisas, ou fizesse tantas outras, na frente da neta. Ela respeitava, afinal, como já dito tantas vezes, sua busca era pessoal, ela não queria ferir ou desrespeitar ninguém.

Foi o retiro ufológico que lhe deu a ideia de começar a testar qualquer lenda urbana que ouvisse, qualquer maluquice, não importando o tamanho dela. Ela gostava de computadores e desde sempre não removia nenhum dispositivo USB com segurança, o que vez ou outra lhe corrompia uns arquivos, mas ela não se importava. Agora com a experiência de muitos anos, podia contar que tinha varrido o pé de várias pessoas ao longo da vida, algumas sem querer, outras de propósito, e que sabia que todas tinham se casado. Ela apontava para as Três Marias, lá no céu pelo menos uma vez por mês, mas nunca ganhou uma verruga.

Em dias de fúria, comprava espelhos velhos e quebrados e os quebrava ainda mais arremessando livros sagrados e estatuetas sagradas de várias religiões, que ele ainda tinha acumulado ao longo dos anos. Vez ou outra, derrubava sal só de sacanagem. Quando viajava com o marido tentava sempre ficar no apartamento 13.

Apesar de seus esforços, de todas as suas buscas, nada realmente mudava, nada sobrenatural realmente acontecia. Conversando com um amigo psiquiatra ela contou que buscava uma fé que fosse de verdade, o que seu amigo lhe respondeu “Fé só é fé porque não se sabe, se soubesse seria informação e não fé.”. A resposta era justa e correta, mas não era bem isso que ela queria dizer, não era bem isso que ela queria expressar, ainda assim, a frase a fez pensar que talvez o problema fosse a pergunta e não a resposta, que o problema fosse o que ela esperava ver. Ela tinha dificuldade de por em palavras o que sentia, de verbalizar pra si mesma o que a incomodava.

Naqueles dias o que ela entendia de toda a busca que tinha feito era que os seres humanos gostavam de criar e ouvir histórias. Eles gostavam mais ainda quando as histórias eram capazes de adicionar um tempero especial para rotinas e fatos simples que definiam suas vidas, quando o texto brincava com a realidade, quando conseguiam se ver nas jornadas daqueles personagens. As histórias ficavam mais poderosas em significado a medida que conseguiam tornar especiais as pessoas simples e rotineiras com quem os ouvintes das histórias se identificavam.

Na última vez que falei com ela, perguntei sobre o altar do Cthulhu, que ainda existia. Perguntei também se ela se importava de eu escrever dela aqui, ela disse que não e disse que justamente tinha me chamado porque ela estava escrevendo um livro, queria umas ideias de como organizar a coisa toda, conversar sobre isso e aquilo, pediu até uma dica de um teclado confortável pra escrever. Ela me disse que não tinha objetivo de publicar o que estava escrevendo nem nada assim, queria só escrever como uma mensagem pra si mesma, uma maneira de organizar pra si mesma o que ela tinha vivido e o que realmente esperava e achava daquilo tudo.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: