Pessoas: 07 – Ele que tinha pai, javali e bolo de laranja

Já passou tempo demais. Ainda assim ele continua falando. Ele nem concorda com metade das coisas que está dizendo, mas continua lá, dizendo e gesticulando de forma exagerada, tentando ser engraçado. É o que ele acha que as pessoas gostam e esperam dele.

O que ele faz não é engraçado, é só um truque. Ele usa uma combinação de fala exagerada, alterando o tom e o volume da voz ao concluir certas frases, rindo ele mesmo do que quer que tenha dito no final. Ele ri muito, ri alto, o riso de mistura com a última frase e as pessoas acabam rindo junto muitas vezes sem nem entender o que foi que ele disse.

O que ele diz não tem graça e as pessoas riem porque tem consideração por ele, porque são seus amigos e aquela é uma noite de interação social. Gostam de ver ele feliz e estão condicionadas a serem socialmente aceitáveis. Não há problema em mais um riso breve pra encurtar de segundo a segundo uma noite que já vai acabar.

Naquela ponto, todos, sem exceção, acham que ele já falou demais e que parte das piadas e coisas ditas fazem ele parecer um babaca. Fica confuso, pra quem não o conhece, saber se ele se perdeu na escalada do humor e do riso ou se ele é mesmo um babaca. Alguns, especialmente as mulheres, se sentem ofendidas com muitas das piadas e elas tem toda razão. Se ele não estivesse entre amigos talvez não rissem, talvez fossem embora antes. Mas eles ficam, é aniversário dele, faz tempo que não veem ele feliz, falta pouco pra acabar. Junto com isso, existe uma camada a mais de conformação social que faz todos aceitarem o comportamento dele, um ano antes, nesse mesmo dia, ele tentou se matar.

Foi na virada da véspera para o dia. Usou um estilete, fez muitos cortes em um dos braços. Num desses acasos das coisas, seu pai estava perto do apartamento dele num jantar com amigos, indo pra casa por volta da meia noite e sabendo que o filho estava sempre acordado, decidiu fazer uma surpresa de parabéns, uma passada rápida a meia noite, pra ser o primeiro a dar parabéns. Tinha orgulho do filho e do apartamento que ele tinha havia pouco tempo comprado. O pai dele comprou um bolo desses industrializados e macios, sabor laranja, pegou a cópia da chave que ele tinha apenas para casos de emergência, entrou e encontrou o filho já desmaiado, mas ainda vivo.

Os cortes nos braços dele hoje formam cicatrizes bem visíveis. São retas e bem distribuídas. Quem nota nem sempre sabe o que as cicatrizes significam. Pros que não deduzem e perguntam, dependendo do humor dele existe uma versão diferente para o que aconteceu.

A minha favorita é quando ele conta que foi atacado por um javali, que os cortes foram feitos pelas presas dele. Ele corria do bicho até cair num buraco fundo. Ele se machucou com a queda, mas para o javali, um bicho muito menor, mais pesado e sem um joelho vindo dos macacos, a queda foi muito pior. Ele contava como teve que ver o javali sangrando com as patas quebradas. Descrevia o cheiro, os sons. A história terminava com o pai dele o encontrando, tirando ele do buraco e os dois iam comer bolo de laranja.

Veja, a pessoa que percebia a cicatriz e não deduzia o que era, era a mesma pessoa que ouvia essa história do javali e acreditava nela. Note como as duas coisas estão relacionadas. Percebe? Pois é.

Em todas as mentiras que ele contava pra explicar o que tinha acontecido, sempre se repetiam o pai salvando, sangue aqui e ali e bolo de laranja. Era sempre interessante ver qual seria a próxima mentira que ele iria inventar.

Em seu estado contador de histórias, falando como ele agora fala, as pessoas em volta todas sabem o que realmente aconteceu. As histórias que ele conta e os comentários que ele faz são apenas corredeiras de pensamentos sendo colocados para fora sem filtro. Eu sei que ele não é uma má pessoa, apenas está enebriado de alegria, ele está mesmo contente de ter a atenção daquelas pessoas. Tão contente, que por mais uma hora, antes de irmos embora, ficamos todos lá vendo ele falar mais merda e ser aqui e ali, um babaca. Talvez seja um sentimento primitivo em relação ao suicídio, não que as pessoas não gostem mesmo dele, mas o motivo maior da companhia não é afinidade, é apenas cada um fazendo sua parte para impedir que mais um de nós se mate.

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