Mentiras explicativas: 08 – Porque algumas pessoas se sentem culpadas sem terem culpa?

Hoje é dia de mentiras. De que tipo de mentiras estamos falando? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios da universio. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque algumas pessoas se sentem culpadas sem terem culpa?

Motivo 1 – O curto
Porque o que lhe faz mal, talvez não cause nada para a outra pessoa. O certo de cada um nem sempre aponta pro mesmo lugar.

Motivo 2 – A história
Em pé, com as mãos apoiadas no parapeito do muro da frente do castelo, o Imperador vê o horizonte. Já é possível ver uma massa escura se movendo. O ataque chegar é só uma questão de tempo. Ele não está ansioso, ele não tem qualquer medo. Sozinho ao longo de todo muro, a única coisa que lhe faz companhia é uma angústia.

É dia, faz muito frio. O céu é branco e se mistura com o chão e o horizonte, coberto da neve dos últimos dias. O vento é gelado e forte, mas naquele dia não carrega muita neve.

Não é época de guerra. Não é um dia bom para se fazer guerra. Ainda assim, eles insistem em seu desejo. Querem que o Imperador morra, querem lhe cortar a cabeça. Querem dançar sobre seu sangue e fazer a própria justiça.

O Imperador está sozinho e, por opção, não está totalmente protegido do frio. Ele quer sentir parte do frio, do vento e dos flocos de neve. Ele gosta de lembrar o quão frio é o frio, o quão duro pode ser o mundo e porque o Reino é necessário.

Por isso, ele gosta também de sentir a pedra do muro. É firme e antiga. O castelo foi construído há mais de mil anos, por um povo conquistado pelos antepassados dele. Foi reformado, ampliado, preparado e reconstruído. Por mais de mil anos esteve em guerras sem nunca mais ter conhecido derrota. Aquelas pedras dão ao Imperador uma ligação com o passado, com algo místico e poderoso que seus conhecimentos de números e lógica não dão.

É uma luta estúpida. É um mal entendido. É ignorância remexida. É uma briga motivada por paixão e um ataque decidido também assim. Se eles ao menos pensassem um pouco mais. Se eles ao menos tivessem mais calma, se observassem o mundo em volta, saberiam que a vitória era impossível.

O muro é alto demais pra que uma flecha atinja o Imperador e mesmo que uma chegasse, vinda de um arco mágico e desconhecido, o Imperador está bem alimentado, atento e treinado para o combate desde que aprendeu a andar. Ele se preparou para estar ali.

Sua vida foi diferente da deles, acostumado a ter seus dias e suas atenções voltadas para outros assuntos, para outros problemas, coisas que o povo se aproximando agora dos muros jamais poderiam sequer imaginar. As complexas questões das finanças do reino, do preços das coisas, dos valores das moedas, as sutilezas diplomáticas, os favores, os casamentos, as intrigas e a traição de melhores amigos. Isso sem falar nos mistérios do mundo, nos deuses entre os homens, nas lendas que eram verdade.

O povo sabia pouco, por opção, por conforto. O Imperador era bom ao povo. Buscava o que era melhor a eles. Vindo de um berço de poder antigo, tinha mesmo a vocação para estar onde estava. Sua intenção era nobre e justa. Sentia verdadeira alegria em construir um mundo melhor, em aumentar e espalhar riqueza, alegria e sabedoria. Por isso sua angústia.

Estava ali observando como aqueles homens tolos motivados por uma visão distorcida das coisas iriam se matar no frio, no esforço, na tentativa de subir o muro, de quebrar os portões. Era impossível.

Ele tinha tentado argumentar, por meses. Mudou a retórica e os símbolos, mas nada teve sucesso. O caso era desses que um pagamento em sangue era mesmo a única saída. O Imperador estava ali olhando porque queria entender, porque realmente se preocupada. Esperava ver algo que lhe desse uma resposta. Ficar dentro dos muros, numa das salas do castelo, ignorando a tentativa estúpida não iria lhe ajudar. Precisava de novas ideias.

Nos mil anos daquele Reino, aquela era a época de maior paz e maior prosperidade que já se tinha visto. Eram números, não eram opiniões. Os Imperadores antes dele tinham cada um construído pouco a pouco aquilo tudo e ele, como a maioria dos que vieram antes dele, havia feito sua parte para que tudo fosse cada vez mais e melhor. Geração após geração, cada um em seu tempo devido, cada Imperador fez o reino prosperar e crescer.

Era inesperado que, ao mesmo tempo em que tanta coisa boa acontecia, um mal secreto crescesse com a mesma força no coração do povo.

O oráculo havia ensinado certa vez sobre o paradoxo da luz, sobre como quanto maior a força de uma chama, mais ela vai iluminar a pedra, mas mais forte será também a sombra que ela projeta. O Imperador entendia a analogia apenas como um ensinamento de que o excesso era mal, ele não esperava, sinceramente não esperava, que tudo que compõe a alma humana pudesse mesmo ser simplificado a intensidade de uma chama e uma pedra. Ele não conseguia aceitar que as pessoas se tornassem cegas para o valor das coisas boas se tivessem por muito tempo apenas as coisas boas. Ele não conseguia entender que saber pelos livros de História como tudo era pior e sofrido era insuficiente, que a ignorância era mais forte.

A angústia lhe aumentou no peito quando o povo, com armas improvisadas e gritos finalmente chegaram aos muros. O frio, quase como se fizesse um papel consciente na história, quase como se o deus do frio se importasse, aumenta. Aumenta também o vento. Vem também a neve. É como se o mundo tentasse argumentar a sua maneira com aquela gente mostrando que era sábio recuar. Tão eloquentes, tão decididos, tão forçosamente cheios de si, de sentimentos de auto importância, apesar do clima que piora eles continuam decididos a destruir o próprio Reino.

O Imperador em seu pensamento pede que eles vão embora. Ele fecha os olhos por uns instantes, imaginando que quando os abrir tudo não terá passado de um sonho, de um pesadelo. Deseja acordar em febre de um sonho de cura.

O Imperador abre os olhos. Tudo continua da mesma maneira, exceto o frio que aumenta cada vez mais. Ele tem pouco tempo para observar e achar uma resposta, ele sabe, se o frio aumentar ainda mais, ele será obrigado a ir para dentro ou poderá morrer.

O verbo morte lhe distrai do momento. Ele pensa na própria morte. Pensa como seria se soubessem que ele morreu, os observando do alto do muro, tentando aplacar a própria angústia, tentando entender a causa daquela consequência. Ele se corrige em seu pensamento, antes mesmo de pensar qual seria a reação das pessoas. Não importa de verdade o que ele disser, o que ele fizer, se ele viver ou morrer. Ele os perdeu. Em algum momento, tudo se perdeu. Nada do que ele fizer será positivo, a percepção foi perdida, eles estão cegos por mil anos de prosperidade.

A única saída é apagar a luz. A única saída é deixar que vençam.

Agora, o frio é tanto, que os primeiros homens, não preparados como o Imperador, já começam a morrer. O frio os leva. Eles desmaiam, as mãos endurecem. O Imperador começa a imaginar as consequências daquelas mortes.

Se eles não vem a ignorância, se eles não entendem o que acontecem, vão ver a morte desses homens como símbolos, como mártires. As mortes de todos eles vão alimentar ainda mais o fogo da ignorância que os trouxe até ali. Voltarão outros. Voltarão em mais números. Os acordos com outros reinos perderam força, novos inimigos serão formados nos laços de novas amizades por interesse. Nações amigas virão destruir o seu reino amigo.

Não há saída. Apenas angústia.

O Imperador se perde em divagações. O que é possível fazer? Talvez haja um limite de prosperidade, de felicidade, de paz. Deve haver um momento, um ponto definido, a partir do qual o mal começa a ressurgir, a partir de onde a memória do que realmente importa começa a perder força até se apagar por completo e ser reescrita como fantasia.

E se a luz fosse menor? E se o reino fosse menos? E se ele, o Imperador, tivesse deixado de lado mais coisas, se tivesse se importado menos? Ele se questionava se tinha sido sua culpa, se o avanço deveria ser mais lento. Ele podia ter feito menos. Ele podia ter dormido mais. Ele podia ter se permitido ser menos.

Nessa hora, cercado de neve, frio e vento, já não sendo mais possível ver o que acontecia lá em baixo, ele se lembrou de outro dos muitos conselhos do oráculo. Um que dizia que o homem superior não se contenta com a mediocridade dos outros, mesmo que seguir o caminho certo o leve a solidão. A verdadeira inquietação é com a própria alma e o homem pra estar em paz faz o que sua alma pede que ele faça. Talvez o mesmo pensamento guiasse aqueles homens que morriam um a um no vento frio, tentando partir os portões. Suas almas eram inquietas, almas que só nasciam e prosperavam quando o mundo permitia.

O Imperador soube que não tinha culpa, apesar de ainda se sentir culpado. Sua índole o guiava por fazer o bem e por seguir sua alma. Da mesma forma era para aqueles que agora não mais eram seus protegidos.

Reconhecendo o fim, ele subiu no parapeito e pediu ao deus do frio que o levasse embora e o deus do frio concedeu.

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