Pessoas: 06 – Ela que só queria cuidar do que era dela

Hoje é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei. Vamos, então, a pessoa de hoje.

Pessoas: 06 – Ela que só queria cuidar do que era dela

É o quarto dia. Mais uma vez, de hora em hora, pessoas aparecem. Entram, sem cerimônia. Andam de cômodo em cômodo, circulam, alguns tiram fotos com seus celulares, mexem neles, e, antes de ir embora, a cumprimentam, sorriem — ou quase isso.

Ela faz questão de cumprimentar todos.

Eles a olham desconfiados e só mudam sua expressão quando ouvem o corretor dizer que ela é a dona do apartamento. Tomados pela surpresa, os visitantes, os interessados, as pessoas que aparecem, lhe dão um sorriso estranho, construído na pressa, com o mínimo necessário pra ser reconhecível e gentil. Alguns se esforçam mais, riem sem motivo e dizem expressões monossilábicas. Opa. Ei. Ah. Sim. Hehe.

Poucos tentam puxar algum assunto, fazer alguma pergunta, mas ela não quer conversar, as frases são curtas e sem caminho, o ar trocado é breve e desconfortável. Ela não está ali para fazer amigos, ela está ali para julgar, pra dizer quais daqueles, dos que eventualmente fizeram uma oferta boa e que forem aprovados pelo seguro e pelo “site”, ela irá escolher pra alugar o seu apartamento.

Ela observa cada visitante com olhos grandes e calmos. Repara no andar e circular de cada um deles, em suas roupas, na limpeza da lente dos seus óculos. Ela segue de longe observando, até finalmente o corretor dizer quem ela é e ela receber o sorriso de despedida. Procura sinais escondidos, pistas incontestáveis, qual deles esconde que não é nenhum pouco normal.

Algumas vezes, durante aqueles dias, ela ficava pensando como é que aquelas pessoas tinham achado o apartamento dela, dentre tantos, pela internet. Porque bem o dela? E como é que tinha tanta gente querendo se mudar? E porque essas pessoas eram tão diferentes?

Um casal de mulheres. Um homem de mais de trinta anos com barba só no queixo, tatuagens nos braços e solteiro. Uma mulher com um brinco bem no meio do nariz. Um cara dono de seis gatos! Isso sem falar no homem que usava dois celulares, como se um já não fosse difícil o bastante!

Ela não gostava de ser assim, de pensar nessas coisas, de filtrar e escolher sem lógica. Fazia ela lembrar de como sua mãe e sua vó brigavam com ela quando ela fazia amizade com pessoas negras. Ela especialmente não gostava das piadas que só faziam sentido se quem conta e quem ouve nunca conheceu alguém negro. Ela não gostava de lembrar das coisas que tinha dito e feito quando na hora de fazer a escolha das coisas acabou preferindo a escolha que lhe causava menos problema. Não conseguia aceitar alugar seu apartamento para um casal de lésbicas com a mesma naturalidade que aceitava para um casal de um homem e uma mulher.

Apesar de entender que agora os tempos eram outros, que aqueles pensamentos eram errados, ela ainda tinha esse incomodo no peito, essa inquietação que dizia que ela devia esperar entrar pela porta um casal recém casado, ou que tivesse um filho pequeno, um que nasceu planejado e não um desses que fosse o motivo de casamento. Um casal, com um homem sem barba diferente, os dois sem tatuagens, sem serem do mesmo sexo, sem cabelos coloridos, sem um dúzia de bichos de estimação.

Em sua cabeça, ela se cesurava de novo, se culpava por pensar aquelas coisas. A própria filha tinha se casado com o primeiro marido porque tinha ficado grávida. Morava agora sozinha com a neta e era dotada de uma força e uma inteligência que ela sabia que ela própria nunca teve.

Sentada, olhando pra porta de entrada, esperando a próxima visita, imaginou como julgaria a própria filha. A viu entrando, usando uma das saias longas e camisetas regatas que ela gostava, mostrando os braços e os ombros, o cabelo cacheado, volumoso, o “cabelo ruim” que sua mãe e sua vó disseram que ela “infelizmente tinha passado pra filha”, transformado em algo bonito como ela nunca achou que fosse possível de tanta era sua certeza de que aquele cabelo era simplesmente “ruim”.

Ela lembrou que a filha tinha tatuagens nos braços, perto dos ombros e que se ela tivesse com uma das tais camisetas regata não daria pra esconder. E a filha gostava de não esconder. A filha dela não tinha muitas tatuagens e cada uma tinha um motivo, uma história. Uma delas tinha sido feita pra ela, pra homenagear a mãe. Ela não entendia como aquilo poderia ser uma homenagem, mas ficava feliz que significava que a filha gostava dela e que aquilo deixava a filha contente. Já era o bastante. Um bastante confuso, mas suficiente e real.

O “homem do site”, o corretor, dizia pra ela que ela não precisava ficar lá. Ele dizia que poderia mostrar o apartamento sozinho, que se tivesse algum problema falaria com ela ou com a filha dela. Ele explicava que aquele não é o procedimento normal da empresa, do aplicativo, que as pessoas normalmente não encontram os donos no apartamento, que no máximo falavam com eles pelo próprio aplicativo, por mensagem de texto, nunca ao vivo. Ela não entendia direito o que era “o aplicativo”, mas sabia que era pelo celular, que tinha “o site” e que foi tudo ideia da filha dela.

O apartamento era antigo, mas bem cuidado. Ficava num condomínio, um conjunto de quatro torres, com parquinho pras crianças e jardim. Muitas famílias moravam lá. Ao longo dos anos ela viu o bairro mudar e crescer junto com a própria cidade. Especialmente depois que o metrô chegou, as transformações foram cada vez mais rápidas. Ano após ano, construções mais altas foram surgindo, comércios mudando, marcas tomando o lugar de negócios de esquina. Depois vieram mais carros, menos árvores, mais ruído, menos silêncio. A medida que sua filha e seu filho cresciam ela e seu marido envelheciam.

Depois, quando os dois filhos crescidos foram embora, primeiro a filha, casando e o filho, indo morar sozinho, o apartamento ficou grande demais e foi ideia do marido dela que se mudassem pro interior. Escolheram uma cidade tranquila e com um dinheiro guardado por anos de trabalho, compraram uma casa que custava bem menos do que custaria na cidade. Não tinha metro, não tinha prédios, mas tinha silêncio e tinha calmaria. De certa forma lembrava o próprio bairro onde ficava o apartamento na época em que o escolheram pra comprar e pagar em vinte anos.

Ela não gostava de pensar nessa trajetória. Não gostava de olhar pros anos e ter a impressão de que a própria vida era algo que só existia no passado, que se ela contasse pra alguém sua história era certo que aquele era o fim, o terceiro ato, o arco final, que a cidade do interior lembrar o bairro do passado era um fechamento irônico do destino. Faltava pouco pra ela ou pro marido morrerem e isso era uma certeza, não era um pessimismo adolescente, não era uma crise existencial filosófica de meia idade, era a verdade, eram os fatos.

O apartamento, com suas paredes tantas vezes reformadas para se manter jovem, era um velho amigo, um conjunto organizado de pedras e cimento, flutuando no ar, no alto impossível do décimo quarto andar. Era a casa dela. Era o que tinha sido a casa dela. Era onde tinha acontecido a vida dela.

Olhando pros cômodos agora vazios ela podia ver os móveis trocando, as portas abrindo e fechando. Os filhos, os amigos dos filhos, namoradas, namorados, o marido e ela, saindo, entrando, ficando, dormindo, acordando, dias e noites onde muito aconteceu. Almoços, jantares, cafés da manhã de domingo, de dia das mães, aniversários e copas do mundo. Brigas e pazes, sua filha contando que estava grávida, gritos e risos, tapas e abraços. Tudo tinha acontecido ali, entre aquelas paredes. Não dava pra deixar qualquer um ter aquele lugar. Não dava pra controlar o preconceito e a vontade de julgar todo mundo quando o que estava em jogo era tudo aquilo.

Não era só um apartamento, era onde a vida dela tinha acontecido.

No final daquele dia o corretor disse a ela que eles haviam recebido algumas propostas e que elas eram boas. Ele disse que ela devia olhar no celular com a filha dela, que elas precisavam responder. Que se tudo desse certo, agora era só uma questão de dias até o apartamento estar alugado.

Ela sorriu sem muita força. Seu coração batia dividido entre o seguir em frente e o ficar porque é meu. Não achou que seria tão rápido.

Sua cabeça, lhe dizia que sua filha iria resolver, que ela saberia escolher a pessoa certa e que ela própria não era capaz, não era uma pessoa boa o bastante pra tomar aquela decisão. Aqueles quatro dias vendo pessoas indo e vindo, de todos os tipos, de todos os jeitos, as julgando como se tivesse esse direito, tinha sido só um exercício de fraqueza, de vaidade, de medo. O tempo havia passado, o novo havia acontecido.

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