Mentiras explicativas: 07 – Porque algumas pessoas tem medo do escuro?

Hoje é um dia de mentiras. E de que tipo de mentiras estamos falando? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios do universo. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque algumas pessoas tem medo do escuro?

Motivo 1 – O curto
Porque o desconhecido causa mais medo do que curiosidade.

Motivo 2 – A história
Um dia, numa velha tribo, muito e muito tempo atrás, uma pessoa venceu o sono que vinha pouco depois do Sol se pôr. A pessoa decidiu ficar acordada, mesmo que o Sol ficasse afastado por muitas e muitas horas.

Cercada de escuridão a pessoa apenas observava sem nada poder ver. Sentia o mundo, o vento em seus cabelos, seus ouvidos traziam sons. O vento era vento e o som era som, mas eram outros, era diferente de quem eram quando era dia, quase como se não fossem os mesmos, quase como se fossem irmãos, primos, parentes, reflexos invertidos dos que a pessoa conhecia sempre que era de dia.

Foram muitas horas, tantas que a pessoa sentiu como se fosse um dia inteiro. Queria ficar apenas observando, mas o sono lhe tomava conta, então a pessoa dava um jeito de ocupar. Contava pedras, contava estrelas, escrevia e desenhava na areia. Quando nada dava certo, quando quase sentia que perdia, pegava água pra beber e coisas que comia.

Quando finalmente o Sol nasceu de novo, entorpecida de sono e medo, de barriga cheia, antes de apagar e dormir, pensou confusa se a noite era mesmo noite e se o dia era mesmo dia. A pessoa chegou a dizer “Vi um dia inteiro sem um dia”.

No dia seguinte, quando a pessoa acordou, todos os outros da velha tribo já tinha acordado. Dormiu mais tarde, acordou mais tarde. Os outros da tribo não gostaram, achavam errado que dormisse enquanto os outros trabalhavam, achavam errado trocar a noite pelo dia. A pessoa ainda com sono, tentava falar aos outros sobre o que tinha visto, sobre como o vento parecia outro vento e dos sons que tinha ouvido. Alguns se interessavam, outros achavam que era mentira.

A pessoa quis então ficar acordada uma noite inteira uma vez mais. Procurou por outros que também quisessem e o líder da tribo temendo que aquilo se tornasse um problema chamou quem se chamavam quando alguém fugia do que era o jeito normal do normal de ser. Chamou os pajés, foi ao alto da montanha do leste, acendeu as folhas verde escuro e viu uma coluna de fumaça sair e subir e subir. Já de volta a tribo olhando pro alto da montanha ele podia ver a coluna branca subindo pro céu.

“Nessa noite você dorme. Amanhã os pajés vem e com eles você fala.”

O líder da tribo sabia que seria errado querer impor ou impedir que a pessoa fizesse o que a pessoa queria. O líder sabia liderar e por isso era líder. Entendia que devia cuidar e não impor, que devia guiar e não quebrar, que o curso natural do rio faz o rio ser rio e o lago ser lago.

Foi por isso que o líder não ficou surpreso quando soube na manhã seguinte que a pessoa tinha ficado acordada mais uma noite, que ainda dormia, que todos se irritavam e que ninguém sorria. Ele entendeu que aquilo era sinal de que o desejo que a pessoa tinha, que a curiosidade que a movia era mais forte do que qualquer outra coisa na vida da pessoa. Algo tinha sido visto na noite, algo tinha sido visto no escuro e de repente o líder se viu ele também tentado a ficar acordado pra ver o que a pessoa via.

Pouco depois os pajés chegaram. Vieram em três, duas mulheres e um homem. Seus cabelos diferentes, seus olhos diferentes, sei jeito de andar e falar peculiar. O líder gostava deles, a maioria das pessoas na tribo também, apesar de terem esse ar de algo de fora, todos da tribo já tinham precisado — ou iriam um dia precisar — dos conselhos, remédios e histórias deles. Uns toleravam a diferença. Outros toleravam com admiração.

O líder contou o que havia acontecido e quando a pessoa acordou foram buscar por ela. A pessoa hesitou, sabia que os pajés viriam, mas até então não tinha se dado conta que tinha feito algo que fugia do jeito normal do normal de ser. Era doença? Era loucura? A pessoa não achava que era alguém pra ser como da tribo dos pajés, não fazia como eles faziam, não se via neles.

“Não tenha medo, você. Conta você, pessoa, o que foi que você viu quando o Sol foi embora”.

A pessoa contou. Gaguejando e receando e depois de pouco em pouco sentindo um pouco mais de confiança. Os olhos dos pajés não julgavam, estavam genuinamente interessados. Ouviam com atenção sobre o vento, sobre os sons, sobre como a noite era longa e sobre como o sono vinha e tentava e tentava fazer a pessoa dormir. Falou sobre como conseguia vencer se se ocupasse, se comesse, contou pra eles como fazia.

Todos sentados de pernas cruzadas no chão, na sombra confortável da tenda do líder, uma pequena fogueira aquecia um chá de hortelã cujo perfume preenchia o ambiente. Os pajés se entre olharam e disseram um depois do outro, se alternando na história.

“Dizem que há pessoas que falam com outros mundos.”

“Dizem que há pessoas que podem ver e são puxadas a ver o que outros não podem ver”

“Contam que, de tempos em tempos, surge uma pessoa que pode ver, perceber e falar com outros mundos.”

“O sono que da pessoa foge, foge porque a energia que acorda de dia vem na noite de outro lugar. A energia que acorda na noite, não é a mesma que acorda a pessoa no dia.”

“Contam que existe muitos mundos além e depois, na frente, atrás, dos lados, em cima e ao mesmo tempo, todos juntos com nosso mundo.”

“Se a energia que te acorda na noite te chama, você é um alguém capaz de ver esses outros mundos.”

O líder deu a cada um pequeno pote e colocou dentro de cada um uma concha do chá.

A pessoa segurou o pote e sentiu o líquido quente, sentiu o calor lhe aquecer as mãos. Se sentiu confortada, mas não ficou feliz. A pessoa não se sentiu bem. A notícia de que era algo que não esperava ser e que haviam mundos junto com os mundos lhe deu medo, lhe deu suor, lhe deu fraqueza. Por sobre a pilha toda de sentimentos e reações do próprio corpo e do brilho do olhar, a pessoa se deu conta de que era um pajé e que pajé não queria ser e que nunca se havia ouvido falar de alguém virar pajé já depois de certa idade.

“Não quero ser pajé!”.

Os pajés se riram divertidos e com olhos amigáveis, no crepitar seguinte da fogueira, respiraram os três ao mesmo tempo um respirar profundo, como se saboreassem e tirassem do aroma de hortelã parte da sabedoria que tinham.

“Você não pode não ser o que não é.”

“Uma pessoa não pode também querer ser o que não é”

“Você é o que você é”

“E o que eu sou, então?”

E os três em uma voz disseram: “Você é um xamã.”

Os pajés então explicaram e a pessoa então ouviu. Nunca tinha ouvido aquela palavra antes, mas como se ela fosse o som certo pra dizer o que a pessoa era, sentia-se confortável e bem ao som que saia quando os pajés pra ele diziam o que um xamã fazia.

Cabia a ele sentir os diferentes sons do vento e ouvir os diferentes sons da noite. Disseram a ele que haviam histórias sobre outros mundos que podiam ser sentidos no por do sol, no nascer do sol, na sensação da temperatura certa da mistura de areia, mar e Sol. Disseram que havia pontos pra outros mundos em tudo que existia e que poucos eram os que eram capazes de ver a ligação das coisas e força de tudo havia. Disseram que o que tornava ele um xamã era uma percepção mais forte que todos já possuíam, um talento mais forte, um traço mais forte, mas algo que todas as pessoas tinham, já que se não tivessem, seriam incapazes de perceber a própria realidade.

A pessoa então disse “E agora? E agora o que eu faço?”.

E os pajés disseram, com calma e ritmo, um após o outro.

“Vai e vive.”

“Vai e faz.”

“Aprende e volta.”

“Conta o que aprendeu.”

“Pra nós e pra todos.”

“Mas especialmente pra você.”

A pessoa então passou a viver outra vida, diferente da vida das pessoas da tribo. Passava horas as vezes olhando o nada. Os outros não entendiam. Passava noites em claro. Passava horas acordado de olhos fechados. Os outros não entendiam. Não incomodava ninguém, não exigia nada de ninguém, apenas absorvia.

E foi assim que viveu até o dia que desapareceu.

Das muitas histórias que contou antes de sumir a que ficou mais famosa dizia que na escuridão havia um mundo, tal como o nosso. Dizia que a nossa volta, sempre que falta luz é a vez deles tomarem conta. Dizia que a vida que tinha começado no mar tinha evoluído de muitas formas e em muitos mundos e que uma forma era aquela que aparecia quando acabava o dia. Havia um monte de seres e coisas, nascidos na sombra, adaptados a estar na sombra, relacionados com não ser visto, com não ver o Sol e achar que a noite era o dia. Ele dizia que esses seres estavam o tempo todo conosco que eram nosso perfeito oposto, que nós da luz não poderíamos viver sem eles e eles sem nós.

De todos que ouviram a história se propagou o medo do desconhecido presente. O peso das palavras de que havia algo lá ficou pra sempre amarrado nas histórias e nas cabeças do povos que vieram depois.

Ao mesmo tempo, como o xamã era alguém que tinha apenas mais algo que todos já tem, a sensação de nunca estar sozinho, de que tinha sempre algo no escuro, não era só uma superstição, não era só uma impressão, era total realidade.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: