Pessoas: 05 – Ele que não estava lá

Segunda-feira é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei. Vamos, pois, a pessoa de hoje.

Pessoas: 05 – Ele que não estava lá

Ele abre os olhos sem pressa e observa o mesmo teto de sempre. O teto o observa de volta. A cama é macia e no canto do teto, logo acima da porta, tem uma camera. Ele não dá atenção, ali todos os cômodos tem cameras.

Ele tira o pijama e sente que precisa ir ao banheiro antes mesmo de terminar de por a roupa do dia. Não é um alerta leve e comedido, é como se suas funções corporais fossem controladas por uma criança desesperada, agitada e elétrica, tudo porque se deu conta de que “ele acordou”.

Sem falar nada, sem mudar a expressão no rosto, ele decide esperar. Decide que vai domar o próprio corpo, porque acredita que é a coisa certa a fazer. Seria errado parar no meio da troca de roupa. Seria errado ser uma pessoa que não consegue esperar, segurar e — calmamente — ir ao banheiro.

O mesmo controle era também aplicado ao sono. Sentia uma leve dor nos olhos e na cabeça. Sentia o corpo pedindo por dormir mais, mas ele calcula que já dormiu o bastante e que não pode ser uma dessas pessoas que dorme demais, dando ao corpo tudo que o corpo quer.

“Esforço. É preciso se esforçar. Nada vem de graça. Nada vem sem esforço.” Ele diz pra si mesmo enquanto escova os dentes, se olhando no espelho, ignorando a camera que também aparece no reflexo, logo acima de sua cabeça.

Ele termina de escovar o dente, enxágua a boca e olha quase hipnotizado como a água gira e desce, escorrendo pelo ralo. O sono tenta transformar a realidade em sonho, tenta ver o fantástico no simples, tenta embalar os pensamentos pra deixem de ser sérios, tentam levar ele para longe, pra fazer com que ele pense mais simples, pense menor, se acalme e descanse, sem tanta pressa, sem tanta coisa. O sono apenas tenta. O sono não consegue.

Com a caneca de café na mão ele sente em frente a tela pra começar a trabalhar. O sono tenta mais uma vez e puxa de leve sua atenção pra janela de fora, pro escuro sem fim, pro mar de estrelas que preenche tudo, não dando a ele nenhum horizonte. Da posição em que está não dá pra ver o Sol e ele sabe que mesmo que desse pra ver, não ia mudar muita coisa. Naquele lugar, naquela janela, o Sol seria só mais uma estrela entre tantas. A luz artificial de cada cômodo foi projetada para dar a ilusão de que o dia está passando, assim como certos cômodos foram construídos para não parecerem só mais uma parte num tubo fino de metal flutuando no espaço. A ilusão ajuda, mas não consegue sozinha, não dá sem esforço.

No canto da tela ele vê a hora. É cedo, mas não cedo o bastante pra que ele esteja satisfeito. Quase se irrita porque pensa que dormiu demais, que demorou demais para se vestir, pra estar ali. Ele não pode ser como uma dessas pessoas que se atrasam e que acham que perder minutos e segundos é algo aceitável. Segundos e minutos, se perdidos todos os dias, ao longo de um ano viram horas, ao longo de anos virão dias. Ele não tinha dias nem horas pra perder.

Esforço. Esforço era a palavra. Esforço era a lição, o caminho, a filosofia de vida. Fazer mais e mais. Mais e mais. Foi o esforço que o fez ser a pessoa certa pra estar ali. A pessoa certa para esta honra. A pessoa certa que sabia as respostas certas nas horas certas. Na nave toda não há ninguém além dele e algumas vezes seu sono o faz achar que nem mesmo ele está lá.

Quando olhou pra tela, ao lado da hora ele viu também o dia. Deu atenção especial ao mês. Não deu muita importância ao ano, apesar de ser o ano o que o fazia voltar para algum lugar e associar aquela data com alguma coisa. Aquele mês era associado a outros dias e funcionava assim porque por alguns poucos anos janeiro não era o mês de acordar cedo, de trabalhar, de sentir sono, de fazer esforço. Janeiro era férias, era sol, era dormir em excesso e sem culpa. Janeiro não era o que agora janeiro estava sendo.

Sua vida de conquistas o havia colocado nesse janeiro diferente, nessa vida diferente, flutuando sozinho em sua “grande posição prestigiosa”. Sua escolha de palavras era irônica ao mesmo tempo em que também não era. Ele sentia mesmo orgulho de estar ali no espaço, naquele espaço, naquela nave, de ser ele a pessoa cuidando de tudo aquilo, ao mesmo tempo em que sentia que a conquista que ele precisava de verdade era uma tranquilidade distante, uma que ele sabia que existia porque já tinha sentido e ainda lembrava na memória, uma paz de um janeiro da infância e não aquele janeiro de agora. O espaço, a nave, as cameras e os números, tudo parecia bem idiota.

O esforço, o controle, o ir sempre um pouco mais além, sempre na corrida, na fuga da foice da ilusão da morte o perseguindo. O esforço e a força, no estudo e no passo, sempre em frente pra não ser a vergonha dos outros ou de si mesmo, pra não ter que ouvir as vozes dos pais dizendo o quanto ele poderia ter feito mais, pra não ter que ouvir piadas e risos, pra não ter que ouvir amigos e colegas, professores e outros idiotas que compunham o ruído incomodo presente em cada interação social com qualquer pessoa que fosse e que não fosse como ele. Na verdade, ninguém era como ele, não porque ele era especial, mas porque ele fazia questão de ser assim.

Levava tudo a sério demais. Levava a si mesmo demais para um caminho de méritos e conquistas que não calavam o incomodo latente gritando em sua ouvido que era janeiro. Latente, numa mesma voz e no mesmo ouvido, ouvia também os ecos das conquistas e do caminho que o havia levado até ali.

Parabéns melhor da turma. Parabéns honra ao mérito. Parabéns cientista. Parabéns pelo salário. Parabéns pelo seu carro. Parabéns pelo seu apartamento. Parabéns pelo seu trabalho. Parabéns pela sua titulação. Parabéns pela sua promoção. Parabéns pela oportunidade. Parabéns pela solidão. Parabéns por ser insuportável. Parabéns por ser grosso e mal educado. Parabéns por estar sempre ausente. Parabéns por ter que corrigir os outros. Parabéns por não estar lá, por não ter visto e nem saber o nome. Parabéns pela sua nave espacial. Parabéns astronauta. Parabéns por não ser uma daquelas pessoas. Parabéns por ser essa sua pessoa. Parabéns pra você no espaço, flutuando sozinho, no meio do nada, estudando e trabalhando, correndo tão atarefado pra resolver problemas que pouco importam até se dar conta de que o que realmente importa é a paz passada e perdida em dias distantes de verão em uma dúzia de janeiros que não voltam mais.

Antes de terminar a caneca de café, ficou pensando se não era a nave, a solidão do espaço e tudo que tinha feito desde que tinha acordado mais um sonho criado pelo sono. Um sonho bem elaborado, lhe dando a mensagem na forma de uma narrativa, lhe dando um simbolismo no lugar da resposta fácil, falando por histórias e não por frases diretas. Um conjunto de imagens e sentimentos pra lhe mostrar o quanto seu jeito de viver a vida lhe tinha feito ficar como se só, distante do próprio planeta, cheio de auto importância, observado por cameras onipresentes, flutuando no escuro do espaço.

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