Mentiras explicativas: 06 – Porque algumas pessoas precisam ouvir música alto e sem fone?

Hoje é dia de mentiras. E de que tipo de mentiras estamos falando? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios da universo. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque algumas pessoas precisam ouvir música alto e sem fone?

Motivo 1 – O curto
Porque muita gente falha em perceber que o mundo tem outras pessoas e que essas outras pessoas são diferentes dela, não sendo todos agentes do caos.

Motivo 2 – A história
No princípio tudo o que havia era o silêncio. Ali, na ausência de tudo, só ele era presente e por isso era impossível ignorá-lo. Durante muito tempo o silêncio era o nada, até aos poucos, em passos microscópicos e lentos, por bilhões de anos invisíveis, o nada se tornou Nada e o silêncio virou Silêncio.

Um reconhecia a existência do outro, mas como um era nada e o outro era silêncio não falavam entre si. Mesmo se conseguissem falar, como nada havia, tudo que se poderia falar seria sobre o nada.

Desde aqueles tempos, dizer nada levava ao silêncio, o que fazia a coisa toda se amarrar em si mesma, onde o nada puxava o silêncio e o silêncio puxava o nada, num circulo eterno, auto suficiente e completo, onde dois juntos existiam um dentro do outro, num nível de consciência de havia alguém ali manifestado apenas pelo sentir em si.

Era muito confuso, especialmente para o Silêncio que não sabia nem como verbalizar seus pensamentos para colocar eles em ordem. Era só uma sensação de não solidão e na dúvida se o outro ainda estava mesmo ali, se aquele ciclo e aquela dança era mesmo real, foi ele próprio que deu um passo ao lado, só pra ver o que acontecia.

Um dia se viu em pé e achou muito divertido. Se viu como uma forma e sendo uma forma achou que seria divertido se tivesse um balanço para balançar. Imaginou um desses bem altos, preso num galho forte de uma árvore bem alta. E aí ele viu a árvore, depois viu o balanço. Ficou muito satisfeito, subiu, sentou e começou a se balançar.

Ficou tonto, enjoado, sentiu-se mal, nunca tinha sentido aquelas sensações e ao ver em volta que tudo o que havia imaginado ainda estava lá, percebeu que o Nada havia deixado de existir. Havia agora o tudo e o tudo era horrível. O tudo era complexo, em movimento, com as coisas crescendo umas sobre as outras, se alimentando umas das outras. A árvore agora já estava cercada por um jardim com mais árvores, com flores, com mais tudo aquilo, com as nuvens no céu, flutuando no céu, no próprio céu que agora havia, iluminadas pelo Sol e pela luz que agora havia. Em algum momento se fez a luz e ele não viu.

Não lhe agradava tudo aquilo. Parecia claro que aquele não era um lugar pra ele. Aí, dá mesma árvore onde estava seu balanço, ele viu cair de dentro do topo da árvore uma fruta avermelhada. A fruta atravessou o ar, indo sem pensar, guiada por uma voz invisível, direto ao chão. Quando caiu, se fez algo que o Silêncio nunca tinha visto: Um som.

O som lhe trouxe dor, lhe trouxe uma confusão de pensamentos, uma reviravolta de existência, como se a realidade se desfigurasse, como se as regras conhecidas por milênios se partissem, como se ele deixasse de existir, bem ali, durante o tempo que durou aquele som. Aquela era uma sensação nova e preocupante, assim como eram novos os sentimentos de novo e preocupação. Isto se tem registro bem documentado, a primeira preocupação do mundo, foi quando o Silêncio ouviu pela primeira vez o primeiro som.

A partir daquela árvore o todo se expandiu e cresceu. Logo haviam mais jardins como aquele, além de montanhas, mares e mais. Não demorou muito pra que houvessem frutas caindo o tempo todo. Logo as nuvens aprenderam a virar chuva, a trovejar e molhar a terra lá em baixo. Rios corriam, montanhas explodiam em vulcões. Durante intervalos de tempo cada vez maiores o todo fazia o Silêncio desaparecer.

Quando o mundo estava todo formado, ainda haviam lugares pra onde o Silêncio podia fugir. Porém, quando criaturas surgidas da água começaram a andar, quando nasceu algo chamado voz, não demorou para que o Silêncio tivesse ainda mais dificuldade em existir.

Ele não tinha exato controle, ele sentia os sons e fugia da sensação, buscando distância de tudo até encontrar um lugar onde o vento não trazia nada, onde os rios não corriam, onde nada nascia, chorava, gritava e morria. Em pouco tempo o Silêncio só conseguia existir nos desertos do planeta, onde haviam poucos animais e nem sempre a presença do vento.

Tentando buscar uma solução, uma resposta para aquele mundo todo que havia surgido e que o empurrava de um lado para o outro, o Silêncio decidiu que era tentar falar com alguém, com algum deles, com alguém do todo. Sua primeira escolha foi Vento.

Em um deserto bem escolhido, de forma muito lenta pra não causar nenhum som, o Silêncio escreveu na areia um recado para Vento. Os dois não poderiam conversar de outra forma, já que o Silêncio não era capaz de falar e qualquer coisa que o Vento dissesse iria fazer o Silêncio desaparecer.

O Silêncio escreveu na areia:

“Quem são vocês? Porque querem sempre o meu lugar? Não quero nada além de ficar em paz. Vocês vieram e fizeram o Nada desaparecer. Vocês vieram e agora fazem eu, o Silêncio, também sumir. Porque me odeiam? Porque odiavam o nada? Por qu…”

A emoção fez com que usasse mais força do que deveria e sua própria ação fez com que ele próprio causasse um som na areia, o fazendo desaparecer e parar ali sua escrita.

Quando voltou, se deu conta que talvez ele fosse o culpado daquilo tudo. A morte do Nada, aquele todo, os sons e as coisas, todos eram seus filhos, eram suas ideias e suas emoções indo além, saindo do controle, tomando vida própria ao ponto dele ter que deixar de ser quem era pra poder existir.
Tinha sido ele quem imaginou a árvore. Tinha sido ele quem imaginou o balanço. Ele tinha dado o empurrão inicial de todas as coisas que ele via ao longe, ao longo do horizonte, além do deserto e de todo o resto.

O Vento eventualmente surgiu e leu a mensagem escrita, mas pra ele não fez o menor sentido. Ele nunca tinha visto o Silêncio, nunca tinha visto o Nada, já que a própria existência dele anulava a existência dos dois. As perguntas pra ele não faziam sentido. Pensando sobre o conceito, ele não entendia como poderia ser possível que de alguma forma uma voz invisível existisse, uma consciência invisível existisse e que ela só se materializava quando nada mais se movia. Não fazia sentido algo só existir quando nada mais existia.

Ainda assim, era assim que era.

Levou tempo, muito tempo e movimento, até que o todo produzisse uma forma de vida que pudesse entender que existia algo como o Silêncio. A forma de vida entendia a possibilidade de que alguma coisa poderia mesmo estar ali o tempo todo de forma invisível e que só fosse possível entender essa existência quando todo o resto fosse removido, quando tudo que fosse material fosse embora, quando ficasse apenas a ausência de tudo e a ausência de todo o som.

Enquanto o tempo passou, o Silêncio entendeu melhor seu lugar nessa nova existência. Um dia, se afastando de uma das investidas involuntárias do Vento para dentro de um dos desertos, ele foi ao alto, foi pra cima, se afastou de tudo como nunca tinha feito. Dessa vez não teve medo e se deixou ir até onde fosse possível ir. Já não era mais o silêncio preocupado. Já não era mais o mesmo. Ele seguiu subindo até parar acima do planeta, até parar no espaço.

Lá sentiu uma força que por incontáveis anos não havia sentido. Uma sensação tão antiga que ele já nem sabia que era real, que era possível, uma alegria, uma legítima felicidade e um vigor de infância, da época em que era jovem, dá época em que o mundo era só ele e o Nada, onde tudo era, como toda infância, pequeno, feliz e simples.

No espaço não havia som. Ela havia encontrado um novo lugar pra ele. Um lugar muito maior do que onde ele tinha vivido por tantos e tantos anos, um lugar maior talvez do que o próprio Nada, o qual ele já nem lembrava tão bem.

Ele fechou os olhos e decidiu experimentar uma sensação nova de não existência. Ele se espalhou e se esticou, cobriu o universo inteiro. Cercou todos os pequenos planetas, asteróides, luas e cometas. Se estendeu por constelações, galáxias, aglomerados. Por distâncias impossíveis de medir, bilhões e trilhões de anos luz, tudo que existia era do Silêncio.

Ele era tão imenso, tão grande, que praticamente tudo que havia era ele. Seu tamanho era tão maior que tudo, que quando olhava pra si mesmo não via mais os planetas, não via mais as galáxias, eles eram pequenos demais perto dele, pequenos o suficiente para se tornarem invisíveis. Ele, em si, havia se tornado infinito. Ele havia se tornado o infinito.

De repente, na sua busca por achar um lugar no mundo que ele próprio havia criado, ele havia voltado pro começo da história. Ele estava de novo num lugar que pra ele era como se não houvesse mais nada. Ele ficou assim por muito tempo, pensando na ironia das voltas ao lugares de início.

Agora que entendia que era infinito, podia se permitir algumas vezes olhar pra dentro de si mesmo. Visitava lugares e eventos cósmicos. Visitava formas de vida em planetas de todas as cores, que falavam e pensavam que talvez ele, o Silêncio, existisse. Viu guerras, viu mudanças, viu estrelas se apagarem, galáxias colidirem, viul mil milhões de vezes se repetirem histórias e mudanças cósmicas.

Aos poucos viu tudo que poderia ver. Aos poucos ficou apenas em seus próprios pensamentos, digerindo tudo que tinha visto. O Silêncio ficou assim por bilhões de anos, contemplando sua jornada e de pouco em pouco sua voz passou a precisar falar menos pra si mesmo, cada vez menos, até se calar, até ele não ter perguntas, não ter respostas, até ele se esquecer de si mesmo, até não ser mais nada, até o Silêncio voltar a ser silêncio.

Então, ali, na ausência de tudo, durante muito tempo o silêncio foi o nada, até aos poucos, em passos microscópicos e lentos, por bilhões de anos invisíveis, o nada se tornou Nada e o silêncio virou Silêncio.

As pessoas que ouvem música alta e sem fone estão apenas cumprindo o papel delas de causar movimento e caos no mundo pra que o Silêncio tenha que ir embora pro espaço, pra se expandir e se tornar infinito uma vez mais, recomeçando o começo de novo de todas as histórias.

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