Pessoas: 04 – Ela bebia e ia embora carregada

Segunda-feira é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei. Vamos, pois, a pessoa de hoje.

Pessoas: 04 – Ela bebia e ia embora carregada

Ela tem olhos cansados que pra muitos passam despercebidos já que o resto do rosto todo está sempre iluminado e sorrindo, dizendo que todos são bem vindos, como uma mãe de todos. Os olhos contrastam com o resto do rosto, ligeiramente envelhecido, que insiste em emitir risos e sorrisos. Os olhos fazem sombra pra explosão de luz que o resto do rosto tenta ser e é.

Ela está sentada. 90% do tempo está sentada. Desses 90, 40% está no telefone. Desses 90%, 10% está ouvindo o telefone tocar. Ele toca muito. Ele toca o dia inteiro. Depois de tantos anos sentada e atendendo, ela já não se incomoda com o tanto que ele toca. Ela ouve, ela sabe que ele está tocando, mas a experiência dos anos já lhe diz bem certo o quão distante o tocar do telefone é de uma verdadeira emergência, de um verdadeiro incêndio. Sem pressa, sem raiva, sem ultrapassar uma coisa por sobre a outra, ela termina o que está fazendo. Se precisar, fala ainda com alguém, colocando uma piada e um sorriso no meio do caminho, até finalmente atender o telefone e dizer a frase padrão, repetida tantas vezes ao dia.

A frase diz “boa tarde”, ou “bom dia”, diz também o nome da empresa e o nome dela.

Se ouvirmos com atenção, se ouvirmos muitas vezes, notamos como não é uma frase. É uma palavra só, criada a partir da repetição da sentença tantas e tantas vezes dita, até que um dia decidiram se juntar pra valer, já que estavam, afinal, sempre juntas. Na cabeça dela, ela mesma já nem percebe o que diz, apenas diz a palavra da manhã, ou a da tarde.

Sobre sua mesa, além do telefone e do computador, que recebe emails tanto quanto o telefone toca, vemos fotos e pequenos brinquedos. As fotos são da familia, especialmente da filha que parece tanto com ela quando jovem, escutamos os outros dizerem. Os pequenos brinquedos estão aqui e ali, sob o monitor, no canto da mesa, atrás do telefone, do lado dos papéis de coisas pra resolver, assinar, encaminhar e arquivar. Os brinquedos poderiam estar na mesa de uma menina criança, são ursinhos, bichinhos, coisas que os dias de hoje chamam de “fofas”, de “infantis”. O papel de parede do computador tem fotos de seus gatos.

Sob a mesa, uma pequena gaveta, tem bombons e lenços de papel. Os dois costumam servir pra mesma coisa.

A medida que a filha cresceu, o número de gatos aumentou. Hoje são 4, já foram 7, mas gatos morrem, saem por aí, ficam doentes, se metem em coisas de gato. Ela gosta de falar deles pra pessoas que também gostam de gatos. Ela fala sobre como não são ingratos, como não brigam de volta, de como são limpos e inteligentes. Ela não fala que também gosta deles porque eles não dizem coisas, não reclamam, não mudam quem é a pessoa que mais amam no mundo. Ao contrário de filhos.

Dentre as fotos da mesa dela existe uma do marido. Pequena, escondida no meio de todas as outras. Estão juntos a mesma quantidade de anos em que ela trabalhavam onde trabalhava. Que é também mais ou menos a mesma idade que hoje tem a filha.

Aquele ano. Aquele foi um ano onde muita coisa aconteceu.

Ás vezes aquele ano voltava na memória dela a partir de uma combinação perfeita de luz, um cansaço pela manhã e um aroma trazido pelo vento. Aqueles tinham mesmo sido ares de mudança. Em um intervalo pouco maior do que 1 ano, ela o conheceu, ela conseguiu seu primeiro emprego como estagiária, começaram a namorar, ela foi contratada como efetiva, o namorado passou num concurso público, eles se casaram, ela ficou grávida, se mudaram pra casa que moram hoje.

Das pessoas ruins que há no mundo, que volta e meia passam por lá e que ouviram também a história dela, há sempre quem mude a ordem dos fatos e diga que primeiro veio a gravidez, depois o casamento e depois a efetivação no trabalho. Há quem diga até que o filho nem era do marido e que a efetivação foi um prêmio de consolação dado como solução temporária por um chefe sedento por atenção e sexo com alguém 20 anos mais jovem que ele, inexperiente e seduzida pelas possibilidades do mundo e das pessoas interessantes que os dias podem trazer.

Um dia conheci esse tal chefe da época, que a contratou e efetivou, quando “passou aqui por perto e resolveu dar um oi pra todo mundo”. Vi os dois juntos quando fui falar com ela sobre qualquer coisa e vi como havia entre os dois um olhar de história. Um abismo de história. Lembro que preferi sair da sala antes de me tornar uma dessas pessoas ruins que se sente no direito de achar que sabe o que realmente aconteceu na vida dos outros.

Nas festas de final de ano gostava de sentar na mesa dela, ou pelo menos dar uma passada por lá. Ela contava histórias engraçadas sobre clientes e suas solicitações semi analfabetas, confusas e mal educadas. Ela contava histórias sobre os funcionários que tinha visto durante todos os anos que tinha trabalhado ali, de como muitos deles haviam a primeira vez chegado como estagiários franzinos e gaguejantes, incluindo aí eu mesmo. Eu gostava principalmente de ver o quanto ela bebia.

Não era só pela bebedeira em si. Era pelo fenômeno. Não era só por simplesmente encher a cara, mas como ela aproveitava cada copo de cerveja. Como engolia com gosto cada parte do líquido, como se o líquido a enchesse de algo além, como se a preenchesse de qualquer coisa que a vida não conseguia encher. E não era só cerveja, eram histórias e cerveja. Eu não bebia, ela respeitava, ela gostava que eu gostava das histórias. Mesmo as que se repetiam.

Inclusive, era legal quando alguma história se repetia, porque muitas vezes ela se transformava em outra coisa. Talvez fosse o acaso da memória dando um ou outro detalhe a mais. Talvez fosse o aroma nostálgico trazido pelo vento de dezembro e toda a ilusão do fim do ano, do fim do ciclo, do recomeço, da libertação da culpa porque a partir de logo em breve, poderemos todos começar de novo. Ou, talvez, fosse só o álcool abrindo no cérebro e na alma portas de contensão social e emocional.

Nas histórias dela, naquelas tardes longas daqueles almoços que encerravam um ano, aquela escuridão dos olhos, por vezes se expandia por todo o rosto. Descia pela garganta, mudava a voz, mudava o dito. Mas era ela, ainda era ela, ainda havia piada, ainda havia o ar de mãe de todos.

Das histórias eu gostava de ouvir o que estava nas entrelinhas do que tinha acontecido. Gostava de ouvir os comentários de sabedoria capazes apenas de vir de alguém que viveu a vida, que cometeu erros e acertos, que foi, viu e fez, que aprendeu, que se fodeu, que viu o ciclo das estações, invernos e verões. Eu gostava de estar ali, de continuar ali ouvindo, mesmo que o resto das pessoas que ainda ouvisse mudassem, saísse, viessem outros. Nem todo mundo gosta de saber as verdades das coisas, os detalhes das coisas, a merda, o pus e sangue. A flor, o doce e a vida.

As histórias viajavam no tempo. Iam pro passado distante, sobre a tia dela que tinha sido a mãe dela, já que a mãe dela mesmo, havia ido embora de casa quando ela era criança. Iam pra alguma briga com o marido. Iam pro dia que a filha nasceu, pras dores que ela sentiu e como durante muitos dias ela ficou muito triste porque achava que a filha era cabeçuda demais e isso deveria estar errado, que ela tinha que achar a filha linda e misturava riso e culpa e choro e preocupação de ser alguma doença. Iam pro aniversário de 18 anos da filha, dos pedidos de celulares e coisas, das falas sobre faculdades e das dificuldades de pagar tudo, responder tudo, cuidar de tudo. Iam pela história deste tal nosso país, feriados, copas do mundo, golpes, crises, trocas de moedas, trocas de sistemas de orçamento, de diretoria, a instalação do primeiro computador, da primeira rede wi-fi, da primeira impressora laser.

Lembro que, quando o almoço acabava e todos começavam a ir embora, ela se levantava, não com o primeiro grupo, mas também não com o último. Oferecia caronas, faziam mais uma ou outra piada. Se despedia de mim num grande abraço e votos de boas festas. Aí ela andava com calma, num passo lento e tranquilo. Seu passo, de forma nenhuma, entregava o quanto ela carregava naquele dia ou o quanto ela carregava todos os dias.

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