Mentiras explicativas: 05 – Porque há quem diga que animais são irracionais?

Hoje é dia de mentiras. E de que tipo de mentiras estamos falando? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios da universo. Hoje, por exemplo, vamos explicar…

Porque há quem diga que animais são irracionais?

Motivo 1 – O curto
Porque nem todo mundo parou pra pensar que, até mesmo a barata quando foge do chinelo, não o faz porque é louca. O faz porque tem noção de causa e consequência. O faz porque tem medo de morrer. O faz porque pensa.

Motivo 2 – A história
Alguém acha muito engraçado quando vem correndo aquele ser humano. Ele ri enquanto vê o ser humano vindo, indo, com muito esforço. Seus músculos, seu corpo todo, em conjunto, passo após passo, seguindo, impulsionando com força em frente. Cada vez mais rápido, e mais rápido, mais rápido, até que de repente ele salta.

É o máximo, é o mais alto que pode, o impulso foi perfeito.

O ser humano faz o seu melhor, mas o seu melhor é muito pouco para Alguém.

Vendo a cena, Alguém continua rindo e rindo muito. “Ai, ai, olha só pra ele como faz que pula, como faz que acha que sabe que pula! Como corre, que vai, que salta! Que ridículo! Ah, mas é mesmo muito engraçado, mas é mesmo cheio de graça!”.

Alguém não apenas acha graça, está também muito satisfeito por ver como o salto do ser humano é pequeno e breve se comparado a seu, longo, leve e veloz. Alguém não é um ser humano. Alguém é um coelho. Um coelho muito esperto, nascido pra ser mais do que os outros coelhos, nascido, como já indica o nome, para ser Alguém.

Ele não apenas é bom nas coisas de coelho. Só de pensar nisso quase se engasga ao tentar conter o riso ao imaginar como será que seria se um dia um ser humano, desses que acham que pulam, resolvessem achar que roíam. Ah, mas que engraçado que seria. Aqueles dedos compridos, gelados e inapropriados. Aqueles dentes curtos frágeis quase todos do mesmo tamanho. Aquele jeito lento e pesado. Ah, mas que engraçado que seria.

Alguém é um coelho que observa. Ele vê as coisas. Vê todos os dias, o tempo todo, até nos fins de semana. O único dia do ano em que para é a páscoa, mas o faz por ironia.

Alguém gosta de entrar sem ser percebido já que acontece que os seres humanos não ouvem bem, não vêem bem, além é claro de, como já dito, não pularem bem nem roerem bem. Alguém fica de olho, observa, aprende padrões, entende reações, fica ali invisível gravando a cena toda e como, e se, ela se repete. Alguém gosta de olhar, acha divertido, acha rico de informações, mas, apesar de ser um coelho que não nasceu pra ser um coelho e sim um coelho que nasceu alguém, Alguém ainda é um coelho e, como coelho, seu melhor talento não é ver, mas ouvir.

De olhos fechados, suas longas orelhas mapeam o mundo. Ele sente lá dentro de sua pequena cabeça peluda e felpuda um mundo que seu cérebro de coelho cria pra ele. Ele ouve e sente o que acontece no mundo não só ali na frente, no óbvio do olho, mas no som e no ar, no envolta e no longe, dali onde está até a linha do horizonte.

Suas orelhas ouvem também mais do que palavras. Ele escuta as pessoas por dentro das pessoas. Ele ouve quando, um desses seres humanos que acha que pula, diz coisas e contorce o rosto, de um jeito que os seres humanos que não veem tão bem não notam. Ele houve junto com a voz do ser humano o coração, o estômago e até os intestinos. Ele se foca no coração porque é ele que acelera e se acalma, da mesma forma que o dele acelera e se acalma quando a vida diz pra ele que é preciso.

Alguém tem grande apreço por momentos de solidão. Vez ou outra em momentos aqui e ali, quando sente que juntou bons pedaços de informação, como roedor que é, vai para um bom canto para sentar e roer tudo o que coletou. Ele pensa. Algumas vezes, fecha os olhos e pensa. Gosta de fazer isso em lugares afastados de tudo, de todos, onde pode apenas ouvir a si mesmo e lembrar das coisas que viu quando com muito cuidado olhou e ouviu das coisas do mundo.

Sentado ele lembra do ser humano saltando. Consegue, após certo esforço, aplicado com o jeito certo no músculo do bigode, conter o riso. Depois, suaviza a tensão e consegue explodir a cena em sua cabeça, acostumada a ver em 360º graus e indo além do que é só visão, ao contrário dos seres humanos que acham que pulam, que só olham pra frente e só confiam no que vêem, naqueles talvez nem 45º de tudo. Em sua cabeça, Alguém quer desvendar a questão “será que o ser humano sabe que não sabe pular? Será?”.

Ele pensa no passado. Ele pensa no futuro. Ele junta as coisas. Ele sabe que os seres humanos acham que são os melhores em tudo que fazem — e que não fazem. Ele ouviu dizerem, ouviu falarem, ouviu gritarem uns para os outros enquanto faziam piada. Ouviu defenderem a tola ideia de sua presença única, de jóia preciosa e isolada na teia da existência do mundo. Alguém fica mesmo contrariado com essa ideia. Com tudo que há e houve no mundo, com tudo que se mexe, se move, nasce e morre, porque é que esses tais seres humanos acham mesmo que são assim tão únicos e separados de todo o resto? E porque é que se acham assim tão melhores?

Alguém está preocupado. Alguém tem dificuldade de entender conceitos como estupro, egocentrismo e suicídio. Especialmente quando não é uma questão química e incontrolável e sim uma escolha, uma colheita de razões semeadas no nada. Ele se pergunta porque estes tais humanos não olham menos pra si mesmos, porque não olham pro mundo do qual fazem parte pra que talvez um dia se deem conta de quão pouco são eles do todo, de quão pouco o todo se importa. Alguém imagina se os seres humanos tem mesmo ideia de que existe um universo lá fora e que aqui onde os coelhos, os outros animais e os seres humanos perambulam não passa de um microscópico quintal de casa.

Alguém consegue acalmar seu coração acelerado de coelho. Alguém não tem pressa. Ele está buscando as respostas e ele sabe que a busca é mais importante que o destino. Alguém, da mesma forma que todos os outros animais, tem um entendimento muito mais completo da vida e da morte, porque sentem o mundo como algo vivo, como algo parte deles, como um ciclo de ciclos, como uma coisa de coisas, sendo eles próprios só mais uma coisa em mais um ciclo. Animais não perdem tempo achando que um deus como eles criou tudo aquilo pra eles. Animais perdem tempo dormindo, comendo e aproveitando boas coçadas.

Alguém é ligeiramente diferente, porque como dito nasceu pra ser Alguém. Ele também é parte do universo e ele é também o próprio universo tentando se entender.

Aí ele corre e salta. Ele gosta de saltar veloz pra bem longe. Observa mais coisas e ouve o dobro. Atravessa cidades inteiras, passa por frestas e furos com um terço de seu tamanho peludo. Segue em sua busca de ser alguém. É silencioso e adequado. Ouve desde daqui até a linha do horizonte. Passa despercebido, deve até ter já passado por mim e por você e bem provavelmente já deve ter rido de nós. Quem é que nunca teve a sensação de que tinha Alguém te observando e te achando ridículo?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: