Palhaçadas, desabafos, nada acontece feijoada

Aconteceu uns dias atrás e caminhando pelas frases soltas das pessoas que comentam sobre o mundo, achei que deveria reservar algum tempo pra ver do que se tratava essa história. Felizmente, nesses tempos de internet, está tudo lá, fácil de achar, otimizado e indicado quase como se uma inteligência invisível estivesse ouvindo as conversas e direcionando pra mim o conteúdo que eu eventualmente iria ver. Sabe como é?

O primeiro vídeo abaixo é a entrevista concedida pelo Tiririca, falando do de sua carreira política e da experiência que ele teve. Se você não ouviu falar sobre essa entrevista, ele fala sobre estar decepcionado, desapontado com a força política do país, sobre como a corrupção e compra de votos é institucionalizada e feita dentro de rituais pouco envergonhados. Ele fala também da história dele e outras coisas que juntas tentam explicar seus motivos e quem ele é de verdade por de baixo da peruca branca.

O segundo vídeo é o discurso dele “despedida”, ou algo assim, feito na câmara.

Não quero influenciar sua opinião, então, se te interessa discutir essas coisas, se lhe incomoda essa porra toda, veja os vídeos que te espero logo ali em baixo depois deles pra te falar o que eu senti disso tudo, quem sabe você também não viu algo parecido, ou quem sabe você não ganha assim um quinado de motivos para me odiar. Sim? Sim!

Ah, e, especialmente para entrevista com o Roberto Cabrini, recomendo usar a velocidade 2x do youtube, fala sério essa edição lenta dos dias de hoje XD

Pois bem. Começo dizendo aos que se interessaram em chegar aqui, nobres diplomatas, membros do júri, honrados colegas do senado galático, ora, ora, mas que merda. Porque merda? Bom, vamos por partes.

O motivo mais claro é ter, mais uma vez, registrado que as pessoas responsáveis por criar as possibilidades de rumo do país não estão interessadas em fazer isso. É uma merda ver que não existem interessados em fazer o país ser melhor, em resolver os problemas reais, que afetam a vida das pessoas e que, ironicamente, afetam também a própria vida desses que preferem fazer as coisas assim.

É uma merda isso não ser novidade, não apenas porque é óbvio e se sente nas ruas, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, nos corredores do castelo. Um país tão grande e tão rico como o Brasil forçado a ser tão pobre e tão pequeno por motivos de ganância, de egoísmo, inclusive egoísmo é mesmo uma palavra boa já que não é só uma questão de escolher de puxar a brasa pra sua sardinha, mas de ego mesmo, de ego si, de vaidade, de perda de noção da realidade, do que é importante, do mundo de gente lá fora que se fode e ter uma completa desconexão com isso tudo.

Acho também uma merda ver como a verdade realmente se perde num mar irrelevância. Acaba não sendo sério, acaba sendo mesmo irrelevante querer até discutir tudo isso. A descrença é tão enraizada e tão bem definida que incomoda, mas incomoda só um pouquinho, lembrar de histórias recentes, como por exemplo as duas vezes que o Temer se salvou, ou das reformas sacanas, ou das leis de terceirização. Meio que já estamos acostumado a ser tudo uma merda e se a merda é mexida aqui e ali e se brincam um pouco com as leis, com os nomes e os valores, pra nós continua sendo uma merda. Nós não temos exatamente um conjunto de valores que compõe a sociedade brasileira e pelos quais lutaremos e nos revoltaremos. Nós nem sabemos direito o que somos como país. Nós só queremos ficar de boa, em paz, sermos legais uns com os outros, porque todos já estamos cheios de problemas. Novas leis, novos nomes, novas gravações, novos esquemas gigantescos, piadas prontas homéricas, conspirações que de tão ousadas beiram o ridículo. Nós ficamos insensíveis. Nós só queremos chegar em casa e dar risada, jogar nosso video game, ver nossa novela, ler nosso livro, cuidar das pessoas e dos animais de estimação que importam. O país que se foda. O país que apenas faça o favor de não me atrapalhar mais do que ele já atrapalha.

Com relação ao “ato nobre pra entrar pra história” do Tiririca, me vejo num misto de pena e nojo. Pena porque é uma visão exageradamente inocente de como as coisas funcionam ou do quanto as pessoas se importam. É igual pegar, sei lá, uma entrevista do Edward Snowden, aquele cara que ninguém lembra mais, mas que trouxe a público as muitas maneiras que o governo dos Estados Unidos monitora pessoas pelo mundo todo, incluindo você, eu e presidentes de países, indo ao ponto de modificar hardwares em computadores e exigindo a existência de backdoors em celulares, computadores e, possivelmente, até em geladeiras. O mundo não se importa. O mundo está entretido.

O nojo vem da percepção de que apesar da intenção dele de fazer algo nobre, há também um controle bastante afinado na escolha de palavras, na ausência de nomes e de valores, no desabafo que é bastante velado, politicamente correto e que no final das contas chove, chove muito, bem ali, onde já estava bastante molhado. O nojo vem também da percepção de quem tem algo errado em tudo isso, que o discurso foi pré aprovado, que as propriedades e os patrimônios podem até ter vindos de shows e “oportunidades”, mas é incomodo ver como existe uma revolta com o sistema, com um comprometimento com o pobre, com o povo, com a história dele, mas o trauma, a dor, o caminho pra chegar até ali foi tão ruim e pesado que mesmo quando ele se põe a dizer, falar e se rebelar, ele não vai morder a mão do sistema que o alimenta. Ele sabe o que é não ter as coisas. Ele realmente sabe o que é não ter as coisas e talvez por isso o discurso é pequeno, é óbvio, mas bastante apaixonado.

Sei lá, sabe. Eu trabalho num instituto de pesquisas, o maior do Brasil, fazemos com muita dificuldade coisas importantes, coisas que movem e que tem potencial pra fazer ideias novas, tecnologias novas surgirem, ainda assim os valores em termos de dinheiro de que precisamos, as burocracias com as quais lidamos, a realidade crua dos fatos e das coisas é muito mais complicada do que isso que ele fala. Nós brincamos e eventualmente eu vou mesmo acabar escrevendo sobre isso aqui, do instituto Neymar de Tecnologia, sobre como com o dinheiro que ele ganha anualmente ele poderia sozinho financiar um instituto maior do que esse onde eu trabalho.

Em outras palavras, discursos são legais. Desabafos fazem bem. Mas, porra, o que nós precisamos é de ações, é de coisas que façam a diferença. Não é nem correto querer cobrar que o Tiririca crie a solução mágica pros problemas do mundo já que ele conseguiu ter um pouco mais de riqueza, já que ele conseguir ir e ver e fazer um pouco mais. Ainda assim, é correto esperar que ele então use desse seu nome, dessa sua revolta, dessa preocupação com o país pra fazer ações concretas, pra financiar imprensa de qualidade, pra oferecer bolsas de estudo, pra fazer essas pequenas coisas que não custam milhões, mas que constroem uma base que efetivamente, gradativamente, de forma sólida e firme, mudam as coisas. A próxima geração precisa de vozes, de piadas e direção, nós que temos algo a dizer temos que fazer a nossa parte, com blogs, youtube, quadrinhos, livros, o que quer que seja.

Enfim, é foda.

E agora, uns memes, porque não somos obrigados! É!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: