E aí eu li: Dora

Apenas lembrando, tem umas semanas que decidi dedicar quarta-ferias a olhar, promover e comentar o trabalho que colegas desenheiros e escritores tem feito por aí. Hoje, como já deve ter dado pra ver pelo título, vou comentar a graphic novel Dora, da Bianca Ribeiro. Vamos nessa? É!

Antes efetivamente falar do dito quadrinho, quero fazer um pequeno comentário sobre essa história de opinar sobre as coisas.

Não acho que seja a melhor proposta do mundo eu fazer review de tudo que leio, vejo, jogo e etc. Acho que é mais saudável comentar quando:
– Acabo tendo uma opinião que foge da opinião comum a respeito daquela coisa;
– Quando se trata de algo muito bom que por algum motivo acaba sendo pouco conhecido;
– Quando gosto muito de uma coisa e simplesmente tenho vontade de falar sobre, tipo o Last of Us (já jogou? Não? Considere jogar!).

Tendo dito isso, Dora é uma graphic novel complicada e como minha opinião tendeu mais para algo negativo eu pensei mesmo se valeria a pena escrever aqui. Falar mal por falar mal não é algo que me dá vontade de fazer, ainda mais quando se trata de algo que foi feito depois de horas e horas de trabalho. Isso sem considerar que minha opinião é só minha e que nada impede que outras pessoas achem ótimo algo que eu não gostei.

Fiquei pensando se não deveria ainda assim escrever pela simples motivação de gerar discussão, de gerar algum resultado no google com uma opinião sobre esse quadrinho que não fosse um elogio que parece feito por alguém que não leu ou que é apenas fã ou amigo demais da autora pra ser sincero. Sei lá. Cheguei a conclusão que dava então pra falar, que era importante falar, porque no final das contas existe sim certo valor aqui.

A autora é a Bianca Pinheiro, mais conhecida pela elogiadíssima webcomic Bear, que confesso ainda não ter lido. Como acontece com a maioria das pessoas criativas, aquela não a única história que ela tem pra contar e Dora é uma história que tem uma temática e um clima bem diferente de Bear.

Pelo que entendi, a proposta foi criar uma história de terror num formato de graphic novel. Uma história fechada, curta e com temática mais séria e mais adulta. A primeira edição da história saiu naquele esquema de plataformas de financiamento coletivo. A edição que eu li saiu pela editora Mino e no final tem um texto da autora falando da proposta e é por causa desse texto que estou falando desse quadrinho. Inclusive, como quadrinho impresso, como livro montado, gostei muito do acabamento dado pela editora Mino, outras editoras maiores do mercado nacional não tem o mesmo cuidado que eles tiveram com essa edição, na escolha do papel, na impressão e etc.

A história fala sobre a menina do título, a Dora e sobre como ela sempre foi estranha e do mal e como ao longo de sua vida fez coisas estranhas e do mal e aí pessoas morrem aqui e ali e no final a história acaba de forma meio súbita (e do mal). A personagem da mãe da Dora é quem conta a história, sendo interrogada por um policial. Todos os eventos são narrados como memórias. Existia aqui, especialmente neste personagem da mãe um potencial pra contar a história de uma forma mais completa, simplesmente mais legal, se o foco fosse ela, se o mundo fosse melhor construído.

A história em si cumpre as ideias de ser de terror, de ser fechada, de ter um ritmo com começo meio e fim breve e direcionado. O problema pra mim é que a própria história acaba sendo incoerente e sem profundidade e a sequência dos fatos não é exatamente lógica, como se existissem pontos narrativos a ser alcançados sem a construção das pontes necessárias entre cada um destes pontos. As explicações, quando vem, ficam soltas e algumas vezes incoerentes e no final da jornada fica faltando alguma coisa, fica uma impressão de rascunho, de estudo, de tentativa de fazer algo como experiência e pelo texto do final da edição que eu li foi justamente essa a intenção da autora.

Acabo ficando um pouco contrariado com isso porque a história tem potencial, porque ela poderia ser desenvolvida pra criar algo mais completo e mais legal. Entendo que existe uma necessidade de produzir e de chegar ao fim das coisas, ainda mais pra um trabalho assim financiado por fãs e não feito como um produto maior, dentro de um projeto maior, com um objetivo maior do que ser um teste de capacidade, um estudo de técnica. Entendo também que justamente por ser assim declarado como um estudo é meio injusto querer exigir demais.

Com relação a arte, ela é em preto e branco e tem um estilo mais próximo do quadrinho europeu com uma influência de mangá. Os traços são claros, estilizados, simples na construção e focados mais na funcionalidade. Existe um estilo visual agradável e é fácil dizer que o visual é a provavelmente a parte mais bem acabada do todo.


Dora é um quadrinho difícil de recomendar. Vale a pena se você pegar numa promoção e se você tiver em mente que se a história parece um rascunho é porque é mesmo um rascunho. É uma ideia não exatamente polida, mas que talvez funcione como uma história de terror satisfatória para um público mais jovem, menos chato com narrativas, menos sedento por porques e menos incomodado com incoerências.

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