Pessoas: 03 — Ele e seu planeta

Segunda-feira é dia de falar de pessoas que não existem, ou que existem, ou que eu não sei. Vamos, pois, a pessoa de hoje.

Pessoas: 03 — Ele e seu planeta

Ele estava irritado. Mais uma vez. Muito irritado. Andava pelo apartamento recém alugado, escolhido por ser perto do trabalho e não porque ele gostava. Ainda com o cabelo húmido do banho, seguia até o quarto. Ia andando e falava, discutia e discursava, continuando uma briga imaginária que tinha começado antes do banho.

A briga não tinha lógica cronológica. Misturava conversas que aconteceram, mas que poderiam ter sido de outra forma. Misturava coisas que poderiam acontecer no futuro não tão distante, talvez logo no dia seguinte. Em cada cena imaginada, colocada uma ao lado da outra de uma maneira confusa de fazer sentido, trocavam-se aqui e ali este ou aquele personagem, este e aquele cenário. Apenas duas coisas nunca mudavam: ele, irritado, ela, o adversário.

A culpa era dela, ele tinha certeza. Se outra pessoa estivesse no lugar, alguém que soubesse o que estava fazendo, as coisas seriam diferentes. Com toda certeza, seriam diferentes. Se outra pessoa fosse sua chefe, seu departamento iria ganhar muito mais dinheiro, sua rotina seria outra e ele não viveria sentindo essa angústia de quem vê o barco afundar, tendo apego ao barco o suficiente pra não pular pra fora. Era uma mistura de amor e ódio, um gostar daquelas rotinas ao mesmo tempo em que tinha uma ânsia por mais, porque dentro dele a expectativa era que aquilo fosse só um degrau, só uma porta de entrada pra algo maior, pra algo de mais importância, de maior nutrição a um ego com tanta fome.

Quase 8 anos de empresa. Quase 8 anos vivendo a vida de adulto. A idade já passando dos 30. Sem esposa ou namorada. Sem gato ou cachorro. O apartamento ele e mais nada. As parede ouvindo mais uma noite seus passos e as respostas que ele daria, que ele deu, que ele deveria ter dado.

O salário era bom o bastante. A empresa era boa o bastante. Mas ele queria mais, ele tinha traçado aquele caminho esperando por mais. Seu pai, do outro lado da existência, mesmo depois de morto, ele tinha certeza, estava rindo dele. Rindo do ridículo do filho que se achava tão esperto, tão super esperto. Rindo da escolha dele de faculdade, rindo da escolha dele de apartamento, de corte de cabelo, de roupa, de tudo. Ainda dizendo que ele não passava de um menino chorão. Covarde, ingrato e chorão.

Quando ele ainda era bem criança, antes do divórcio dos pais, quando seu pai e seu irmão ainda eram vivos, numa noite inesperada, ele se deu conta de que estava vivo. Não apenas isso, os outros todos estavam vivos. Eles estarem vivos significava que a qualquer momento, por inúmeros e muitos motivos, eles poderiam morrer. Do nada, de uma hora pra outra, não estariam mais lá. Ainda hoje, ele conseguia se lembrar de forma inconsciente o respirar pesado, o desafinar na voz, o choro contido madrugada a dentro o impedindo de dormir. Ele não podia chamar ninguém, já tinha tido muitos pesadelos naquela semana, já não tinham mais paciência com ele, mas agora ele precisava mesmo. Mesmo, mesmo.

Se acontecesse, quando acontecesse, se todos morressem, quem é que iria cuidar dele? Não, ele tinha que estar preparado. Ele tinha que saber tudo que pudesse saber, pra não depender de ninguém. Tinha que ser independente e forte.

Aquele pensamento o visitou muitas vezes ainda por muitas noites. Aos poucos ele foi deixando de ser um menino chorão. Passou a estar sempre interessado a aprender um pouco mais em tudo que fizesse. Cresceu desenvolvendo um perfeccionismo irritante e uma constante cobrança de si mesmo. Sua necessidade de querer saber tudo e de se colocar a prova pra saber se realmente tinha aprendido as coisas o tornava muitas vezes mal educado e impaciente. Por se esforçar mais que os outros, eventualmente, somando cada pequena porção adicional, ele passou mesmo a ser alguém que sabia mais que a maioria das pessoas, que pensava mais rápido que elas. Em um determinado momento, se perdeu na construção de si mesmo e passou a ter a certeza de que era melhor que os outros.

Foi no dezembro dos seus 19 anos. Fazia uns 2 anos que seus pais tinham se separado e especialmente nessa época de Natal isso o incomodava mais do que ele gostaria. Em sua cabeça, ele pensava como teria feito pra salvar o casamento, pra corrigir as coisas antes delas terem desmoronado. Sem nunca ter tido um relacionamento que tivesse durado mais do que 1 ano, era claro que essa era uma das suposições dele que eram mais tomadas de arrogância do que de sabedoria. Seus pais, como muitos pais daquela época, se separaram quando as crianças tinham virado adultos e o que sobrava do relacionamento era só eles mesmos.

Seu irmão era só um ano mais novo e ao contrário dele, sempre foi um orgulho para o pai. Tinham muito em comum, até quando ficavam sentados em um silêncio similar olhando pro nada ou vendo o jogo de futebol num domingo, algo que ele, depois de certa idade, nunca mais fez. O irmão escolheu a mesma profissão do pai e foi por isso que eles estavam juntos no carro quando aconteceu o acidente. Os dois morreram na batida. O caminhoneiro depois de acertar o carro deles, caiu pela montanha e apesar de ser levado dali com vida, morreu alguns dias depois no hospital. Coube a ele cuidar do enterro dos dois e da vida que continuou seguindo depois que eles já não estavam mais lá. Em sua virtude por saber mais, movida pelo seu medo de que aquele dia chegasse, ele viu que estava afinal, ironicamente, preparado. Preparado para a perda. Preparado para as responsabilidades.

A capacidade de ultrapassar algo assim do jeito que ele conseguiu ultrapassar, lhe preencheu de arrogância. Uma arrogância complicada, dessas formadas por um miso misto de vaidade e justiça. Ele tinha sim sabedoria, potencial e capacidade. Ele estava sim pronto pra fazer mais do que a maioria das pessoas faria. Ele fez por merecer. Ele se esforçou para construir. O problema era que só grande, mas achava que era imenso.

Sua mãe tinha seus próprios demônios. Alguns dias conseguia ser muito amarga. Era receosa da vida que não tinha vivido. Vivia a incoerência de amar o filho ao mesmo tempo em que colocava nele a culpa por ter tido que se casar com alguém que logo ela viu não ter nada a ver com ela. Pros que conheciam seu pai e sua mãe e que eram adultos e não adolescentes arrogantes, eles terem se se parado logo depois dos filhos não precisarem mais deles, era mais do que esperado. Sua mãe era cozinheira, mas há muitos anos já não trabalhavam em restaurantes. Vendia marmitas que fazia em casa. Cozinhava bem, poderia fazer mais com o talento que tinha, mas não queria.

Ele continuou fazendo a universidade pública, ao mesmo tempo em que trabalhava e cuidava da mãe. Foi um dos melhores alunos e tendo feito estágios em empresas de renome conseguiu logo que saiu um emprego na empresa que hoje estava. A última onde tinha feito estágio. Aquela que ele, quando lia o nome e o que faziam, mais lhe dava vontade de fazer parte.

Durante o caminho de ser alguém capaz de cuidar de si mesmo, ele tomou mesmo gosto pela ciência e pelo mistério das entrelinhas do universo. Durante os anos, fosse porque se dava bem com o pai, fosse porque não era o mais popular na escola, fosse porque não teve a como namorada aquela garota que ele tanto queria, fosse pelas dificuldades de escolher e fazer as coisas, fosse pela dureza dos dias de trabalhar e estudar, de enterrar o pai e o irmão, de cuidar da mãe, de estudar mais, de trabalhar mais, de pegar mais ônibus, de dormir pouco, de dormir nunca, de se contradizer por lembrar dos dois, de como sentia falta, de como sentia falta dos natais e dos dias que tinham passado, das dúvidas e dos poréns, dos dias e das noites, da cor das manhãs tranquilas monótonas e boas de domingo onde tudo está bem e bobo.

Alguns dias antes, tinha até conseguido sentir falta de discutir com o pai. De certa forma era por isso que gostava tanto de discutir com a mulher que era agora sua chefe. Era inconsciente, era um símbolo diferente de paternidade, um ritual diferente de necessidade de aprovação, mas, um observador atento veria bem claro mais de uma dúzia de ironias e coincidências.

Na raiva que o acompanhava tanto naqueles dias, nas brigas e descontentamentos, na falta de paciência por achar que merecia mais depois de ter se esforçado tanto, de ter sofrido tanto, de ter passado por tanta coisa ele não entendia que o problema não era a chefe, a empresa, ou qualquer outra coisa externa que ele pudesse querer culpar. O problema era ele mesmo. Era sua visão de si mesmo. Era seu entendimento de quem ele era e as escolhas que tinha feito acreditando que o universo lhe daria coisas por que o universo sabia quem ele era e qual caminho ele tinha atravessado pra chegar até ali.

Apesar de não ser minha a história dele, olho pra ele e vejo esse caminho e essas decisões de becos sem saída. Na impressão que faço pra mim mesmo, aconchegado na minha própria arrogância e na certeza cega e ridícula de que eu sou melhor do que isso, simpatizo com ele. Na minha cabeça, enxergo ele e seu ódio como planetas isolados orbitando ao outro, numa dança dupla ao som de expectativa e dor.

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