Mentiras explicativas: 04 – Porque todos temos vozes na cabeça?

Hoje é dia de mentiras. E de que tipo de mentiras estamos falando? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios da universo. Hoje, por exemplo, vamos explicar….

Porque todos temos vozes na cabeça?

Motivo 1 — O curto
Porque precisamos ter ideias sobre o que fazer ou não fazer que não sejam nossas, já que, por incrível que pareça, não sabemos de tudo.

Motivo 2 — A história

O mito tal qual se explica de forma franca e rasa nas linhas a seguir parte do princípio de que uma pessoa, seja ela qual for, tem vozes em sua cabeça que lhe dizem coisas.

Nesta definição, as coisas ditas são ditas apenas para a pessoa. Os em volta não escutam, nem mesmo fazem ideia do que as tais vozes podem estar dizendo. As tais vozes não tem som, não tem também presença, tudo o que elas tem são as próprias vozes que são.

Na concepção do entendimento do que poderiam ser as vozes, alguns levantaram as mãos e com argumentos ora idiotas, ora contraditórios, disseram que as vozes que falam em suas cabeças na verdade são todas uma única voz. Eles dizem mais, defendem a ideia de que não apenas é uma voz qualquer, mas é a própria voz, a voz da pessoa em si, seu pensamento. Pra eles, só existiria uma voz e a voz é a voz deles mesmos. Na cabeça deles não há dialogo interior, apenas monólogo.

Vemos no entanto, através da observação atenta dos fatos, que essa ideia é errada, além de chata, feia e boba. Observe. A voz não pode ser você, já que ela é capaz de dizer e diz coisas que você não sabe ou que não entende. Ela especula, ela sugere, ela pede, ela direciona. A voz lhe dá desejos, lhe dá sentimentos, lhe faz comentários a respeito desta ou daquela pessoa com aquela maniazinha de isso e aquilo.

A voz não espera por você para falar, ela fala por cima do que está acontecendo, ela fala até enquanto você, ali, no mundo fora da sua cabeça, está concentrado em realizar outras tarefas. A voz lhe concede, por exemplo, a experiência de ouvir uma pessoa falar, falar e falar e, ao final do falar, você não ter absorvido nada porque a voz apenas conseguia lhe focar a atenção em um pequeno verde e pegajoso resto de couve que estava bem ali preso no dentinho da frente da tal falante pessoa. Nojo.

Vemos então que a voz não é você. Veremos a seguir que a voz não é só uma. Pense, basta uma situação de decisão, seja ela de alto risco ou apenas uma imbecil, prosaica e barriguda, para que a voz na cabeça, de repente, passe a lhe sugerir não apenas uma ação, mas várias. A decisão de escolher entre A e B pode lhe dar a ideia de escolher um ou outro, ao mesmo tempo em que escolhe os dois, ao mesmo tempo em que pensa se não quer A e B vão a merda já que o bom mesmo é ir comer chocolate.

Se a voz não entra em consenso e fala mil direções ao mesmo tempo, é então correto deduzir que não temos apenas uma voz, mas várias vozes em nossas cabeças.

Se temos então várias vozes e se vemos que elas não são quem nós somos, o que é que elas querem conosco? Porque é que não vão limpar a casa, ver séries e jogar video games? Quem sabe um carteado? Onde é que essas vozes moram e de que forma chegam até aqui, no meu, no seu, no nosso cabeção? Quem foi? Quem deixou? Quem, quem? Questão maior, porque essas vozes estão aí? O que querem? Quem lhes deu o direito — ou o esquerdo, para os canhotos?

Foi uma criança que encontrou a resposta. Foi numa praia, dentro de um copo de plástico, desses brancos que fazem pléc pléc, trazido pelo mar. O copo caminhava, subia e descia com as ondas, até chegar na areia. Na areia ficou até ser achado pela criança.

E se as vozes nas cabeças fossem como o mar a carregar o copo, mas carregando a gente pra uma direção definida, pra uma praia distante? E se as vozes na cabeça fossem uma tentativa de direcionamento do próprio universo, tentando nos fazer zerar o jogo de nossas vidas, sendo nós controlados por milhões de jogadores dando comandos todos ao mesmo tempo? Na confusão das possibilidades de pra onde ir, eventualmente uma maioria vence e aponta direção e isto vira uma correnteza e isso vira um desejo e aquilo vira uma ideia que nos motiva, desmotiva, emputesse e empurra a finalmente mandar alguém tirar aquele maldito pedaço de couve, bem ali no dente da frente.

Todos tem pelo menos uma voz da correnteza do tempo dentro de si. Diz-se que existem poucos que tem realmente apenas uma. Diz-se que alguns, esses mais assim sensíveis para as coisas do mundo, tem tantas vozes que poderiam existir apenas na própria cabeça.

As pessoas tem vozes na cabeça porque se dependesse apenas de nós saber para onde ir a seguir, talvez fossemos contra a correnteza e nos destruíssemos por pura estupidez. Ou, talvez, só ficássemos todos enfiados numa areia metafórica, ignorando que o universo inteiro se move, que nós somos feitos de pó de estrela e que existiu um big bang e que ele empurra não só nós, pequenas criaturas cabeçudas, mas também planetas, estrelas e galáxias, talvez também dizendo dentro da cabeça delas pra onde elas devem ir. Será que as coisas caem de volta ao chão porque a gravidade faz elas caírem ou será que a gravidade sugere que caiam e elas aceitam?

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