Pessoas: 02 — Ela que tinha uma sombra

Quando a conheci ela era mais velha do que parecia ser. Em parte era imaturidade, em parte era só uma tentativa inconsciente de se impedir de envelhecer. Como muitos daquela época, ela havia crescido com a pré concepção de que, quando chegasse numa certa idade, deveria ter conquistado uma lista de coisas. A lista dela estava bem incompleta e por isso ela preferia esquecer de envelhecer, tanto quanto fosse possível.

Fosse como fosse, dava pra notar uma sombra seguindo seus passos onde quer que ela fosse, julgando e ouvindo, ouvindo e julgando. Em tudo que ela fazia, tudo que ela dizia, havia uma ponta de incerteza de si mesma que algumas vezes era compensada com certa agressividade. Ela não fazia questão de ser amiga de todo mundo ou mesmo de aceitar todo mundo.

Como acontece com alguns, ela tinha nascido com uma percepção diferente das coisas, algo que lhe impulsionava vez ou outra a escrever e a perder tempo pensando sobre os porques da vida. Era a irmã mais nova, tinha 2 irmãos mais velhos e cresceu tendo eles como exemplo, inserida em muitos gostos que as pessoas que cuidam da vida dos outros classificam como “coisas de menino”. Houve um tempo que, de tanto ouvir que parecia um menininho que pensou que era lésbica até se dar conta que ela era o que ela era e não era o que as outras pessoas diziam que ela era. A única voz externa que ela realmente ouvia era a dessa sombra.

O pai e a mãe dela tinham um relacionamento estranho. Viviam um desses casamentos que acabou, mas que os pais ainda continuam morando juntos. Não dividiam a cama, nem o quarto. Eles já não eram um casal desde quando ela podia se lembrar. Eram amigos, dividiam a responsabilidade de serem pais dos filhos deles e, ocasionalmente, mais do que ela gostaria de saber, se permitiam ter um dia como se fossem um casal. A primeira vez que ela viu, ficou enojada e irritada. Não era o desconforto natural de ver os próprios pais fazendo sexo, o que a incomodava era a mentira, a aventura o relacionamento talvez não realizado por covardia de um lado, ou do outro, ou dos dois.

A casa era grande, apesar da família não ser rica. Moravam numa das cidades em torno da capital, tinham vindo para cá quando ela ainda era criança, fugindo de outro estado mais longe, mais pobre, com menos chances. Ela tinha poucas memórias desses primeiros anos de vida, mas carregava um trauma pesado a respeito de baratas. Um dia, cutucando uma parede de uma casa velha abandonada, na vizinhança dessa cidade distante da infância, quando ela tinha por volta dos seus sete anos, achou um com um dos irmãos um ninho de baratas. Ela cutucou e um pedaço da parede caiu, revelando o que ela anos depois descrevia como um enxame que subiu por cima dela e do irmão. Os dois correram. Nada de mais aconteceu. Ficou só o trauma e uma lembrança dilatada sobre algo que assim não aconteceu.

Por morar longe da capital, se acostumou a andar muitas horas de ônibus pra estudar, pra trabalhar, pra sair nos fins de semana. Por causa das longas distâncias começou a ler, lia muito, sem ter muita cerimônia na hora de largar no meio um livro que não era tudo aquilo “que disseram que ele iria ser”. Essa era uma sabedoria recorrente em sua vida, a habilidade de pular do barco, de sair sem receio do caminho já percorrido. O passado era passado, era memória, podia doer e podia fazer sorrir, mas era algo que já tinha sido, não dava mais pra querer ter responsabilidade sobre ele. O futuro era precioso, era problema, era potencial, era responsabilidade.

Ela me contou que fez duas faculdades e a primeira foi de design. Apesar de ter intimidade com as palavras, aquilo não era ao certo o que ela queria, mas aqueles primeiros anos de adulta, de vivendo uma vida mais afastada das coisas que “todo mundo já tinha feito”, vivendo uma própria história, foram anos de muitas descobertas. Por ser gente de fora numa terra de gente preconceituosa e por ter uma personalidade forte e que muitos achavam masculina, foi só nessa primeira faculdade que aprendeu certas coisas de mulher. Sua mãe era mulher simples, trabalhava limpando a casa de gente rica e burra e nos fins de semana fazia doce. Sua mãe não ensinou a ela como ser mulher. Ela aprendeu com as coisas, com os erros, com os risos e os ridículos que todo mundo tem quando olha pra trás.

Lembro dela me contar quando fez a primeira tatuagem. Tinha 23 anos, era o último ano da faculdade. No mesmo ano passou a pintar o cabelo, fez mais furos na orelha e deixou de fingir que acreditava na religião que os pais simples, da cidade simples e pobre da infância tinham feito ela se forçar a acreditar e a seguir.

Logo que terminou a faculdade resolveu que iria fazer outra. Trabalhava, tinha o próprio dinheiro e fez dessa vez algo na área de engenharia. Não se incomodava em ser a única mulher da sala, já estava até bem treinada com todas as piadas e as insinuações. Agora muito tinha mudado e já sabia o que queria, apesar de não saber ao certo o que era exatamente isso que ela queria. Um sentimento que ela descrevia usando palavras de um cantor que não era da época dela, mas que a internet e o interesse fizeram ela conhecer. Ela sentia saudade de tudo que ela ainda não tinha visto.

A sombra olhava a casa dos 30 e dizia a ela que precisava se casar. Precisava ganhar um salário maior e sair da casa dos pais. Precisava ter filhos, mais uma tatuagem e eventualmente sentar e escrever aquele livro, sobre aquela coisa, que ela não sabia ainda o que era, nem sobre o que era, mas que seria sobre ela e que na cabeça dela ela apenas precisava escrever. Estava na lista. A sombra cobrava.

Na rotina das cobranças da sombra ela acabou se permitindo ter com alguém um relacionamento que era uma amizade. Talvez fosse a ironia do estudo da psicologia, jogando na cara dela que não importava o quanto ela tentasse aprender, estudar e saber, sobre a vida e sobre os relacionamentos, se o cuidado devido não fosse dado, era muito fácil acabar sem querer emulando a vida dos próprios pais. Foi isso que quase ela fez.

Encontrou um cara que era legal, mas que não era o a peça certa pro quebra cabeça que ela era. Este era a mais do que qualquer outro que já tinha aparecido, não que tivesse tido muitos relacionamentos, mas ela sabia ver que este tinha, ou pelo menos assim parecia, um potencial pra levar ela pelo caminho que a sombra que cobrava mandava. Quando eu via os dois juntos eu quase podia ver a sombra olhar e aprovar dizendo “este sim é esperto, este sim é bonito, este sim vai ser rico e rico, este sim vai te levar lá e lá e ainda vai te comer e te amar e te dar filhos e filhos. Este sim. Este aqui. Não perde este. Não perde. Se contém. Se refaz. Se transforma. Se encaixa. Vai, este sim, é engraçado sim. Ri dele sim. É inteligente sim. É bom sim. Ora, ora, se comporta, aproveita e aceita. Este aqui. Ah, pare de olhar pro lado, já achou, já chega, é esse, se comporte, deixe de fazer o que você sempre faz. Quer ser sozinha? Quer não ter lista? Quer não ter o que nós queremos ter?”.

Me causava incomodo físico ver os dois juntos.

Um dia, como sempre acontece quando os relacionamentos são baseados em nada, ele não ligou e ela não atendeu. O tempo passou e ninguém se falou e falta ninguém sentiu. E aí depois de novo e aí um pouco mais e eventualmente os dois juntos viraram os dois sozinhos e aí o relacionamento, apesar de estarem noivos e pagando juntos uma casa, grande e afastada da capital, terminaram o que tinham.

Primeiro foi ele que saiu do meu convívio. Depois foi ela. Soube pelas redes sociais e pelo que contam outras pessoas que tem assim esse hábito de amizade executado de forma mais correta, dessas pessoas que acompanham e sabem dos outros e seguem com a vida do outro mesmo quando o momento do encontro já passou. As notícias contavam que ela havia passado um tempo bem mal, mas que depois se encontrou. Depois, achou outro emprego e outras verdades. Eventualmente outra pessoa também.

Um dia, por ironia, recebo um email dela pedindo um orçamento para empresa que trabalho. Ela não sabe que estou do outro lado e que por um tempo eu soube das histórias e da sombra que andava com ela. Da barata, dos pais, das tatuagens e das dúvidas. Dos desejos reprimidos, dos desejos contidos, das coisas adiadas pra sabe-se sei lá quando. Eu vejo o email, é formal, é comercial, é corporativo, ela não faz ideia que sou eu lendo do outro lado.

Num impulso de curiosidade, vejo que ela ainda está conectada comigo em redes sociais. Vejo então uma postagem. Uma foto de casal, comemoram uma nova casa. Vejo a pessoa com ela e tenho um susto, um arrepio, uma sensação do passado de incomodo físico. O novo namorado é quase igual o antigo namorado e na mesma foto, no reflexo do brilho do olho dela, que quase parece conter um choro, vejo a sombra. Ela fala, ela cochicha, ela cozinha algo num caldeirão de palavras.

Passou o tempo. Passaram as coisas. Eu não ouso dizer que nada mudou. Me contento em imaginar que o que vejo é só minha própria arrogância e babaquice. Desejo ser a sombra só um reflexo mal formado, sendo culpado o flash, a camera usada e o momento. Fecho a janela e volto a cuidar da minha vida, esperando que…. esperando que… sei lá. Cada um que cuide da sua vida.

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