Pessoas: 01 — Preso em si mesmo no apartamento daqueles dias

Ele está sentado em frente ao computador. É dia. É o meio da manhã. O sol brilha forte, sem nuvens, entra claro e ilumina inteiro o interior do apartamento. Ele escuta a filha que assiste algo no quarto dela. Ele escuta sua mulher fechar a porta de casa e sair. Ele acordou cedo, como se fosse trabalhar, mas hoje vai em casa, como tem ficado em casa desde quando decidiu sair do último emprego porque uma voz dentro da própria cabeça apenas pedia outra coisa.

No computador, tem uma aba aberta no site do banco, outra aba num portal de notícias. Está também aberto um editor de texto com uma página quase que totalmente em branco, ocupada por duas tímidas e vergonhosas linhas que deveriam ser algo muito, muito, muito maior. Ele vê quanto ainda tem de dinheiro, faz contas e estimativas mais uma vez. Ele refaz a conta mais de uma vez ao dia, como se tivesse medo de descobrir que a conta foi feita errado, que tem um fator a mais, uma coisa a mais secreta dessas que inesperadas que surgem e que o tempo que ele achou que tinha pra se encontrar na verdade ele não tem. Sair do emprego foi uma decisão pensada, calculada, mas isso não acalmava as preocupações e culpas de ir atrás de algo que ele próprio não tinha ainda certeza do que era, colocando a mulher e a filha nessa aventura que era um problema dele.

O iluminado do apartamento o incomoda. O incomoda por dois motivos.

Quando criança, cresceu numa casa escura. Uma infância difícil e feliz, mas numa casa escura. Ele é o irmão mais velho e tem mais dois irmãos. A mãe e o pai se divorciaram quando ele ainda era criança. A mãe ficou com os filhos e um senso de responsabilidade que e culpa que ele vê transmitido pra ele. Ele pensa na mãe, no esforço que ela fez pra criar ele e os irmãos, pensa nas coisas que ela deve ter tido que deixar pra trás e que ele talvez não conseguisse deixar, porque ela sendo quem era ensinou que os filhos todos deveriam ir atrás do que queriam, que deveriam acreditar em si mesmos, que deveriam fazer e fazer bem feito. No palco do quintal de casa sempre houve aplauso, mesmo quando a apresentação era um fracasso e isso, que ajudou a construir nele uma auto confiança que foi importante em tudo que ele fez até ali, agora pesava como arrogância diante do mundo real e sua mania incomoda de não dar aplauso ou mesmo palco até para a melhor das apresentações.

A casa escura da memória. Os cômodos confortáveis e o ar dos tempos de quando as preocupações eram bobas. Estava na memória. Estava no passado. Não estava no presente. No presente o apartamento todo acendia em luz e ele se vendo sobre a luz se incomodava.

O segundo problema de toda aquela luz era que ela era excessivamente alegre. Ela passava dos limites em sua alegria. Ele, que acreditava mesmo ser mais especial que os outros por ter tido conquistas ao longo da vida, por ter feito mais do que seus amigos de mesma idade fizeram, por ter se casado e ter uma filha em um casamento que era feliz, por ter crescido com a mãe e seus aplausos, achava mesmo que havia algo muito errado com o mundo ousar trazer tanta luz num momento que pra ele era tão sombrio. Como caralhos o mundo ousava estampar, vibrar e invadir o próprio apartamento dele com toda aquela alegria? O mundo não via que ele estava tenso, aflito, preocupado, pensando em soluções em caminhos, não sabendo se escrevia ou se desenhava, se estudava ou se fazia duas dúzias de currículos e chamava amigos e colegas pedindo indicações e coisas, ao mesmo tempo em que ele não queria voltar para as 12 horas de trabalho em prédios altos de ar condicionado e fala pseudo intelectual onde decisões mercadológicas e estratégicas eram tomadas dando muito significado a mera atividade de fazer alguém em algum lugar comprar mais algo que a pessoa muito provavelmente não precisava.

Ele voltou ao editor de texto, sem saber o que estava mesmo escrevendo. Ele não tinha certeza se era mesmo escritor. Tinha já escrito coisas, mas havia dentro dele a incomoda incerteza de que talvez ele simplesmente não conseguisse fazer igual outras pessoas que ele conhecia faziam, de simplesmente inventar mil histórias a qualquer momento, de fluir por palavras, digressões e pensamentos. Talvez o desejo de se chamar de escritor fosse mais um desejo de ser algo, de atingir uma imagem que significava alguma coisa pra ele e não uma simples expressão de quem ele era. Falando nisso, quem caralhos ele era?

Ele se levanta e vai até o banheiro. Faz um xixi forçado, lava as mãos e se olha no espelho. Os traços do rosto envelhecido lhe incomodam. Ele vê a barba, ele vê o cabelo. Ele decide que talvez deva cortar, deva usar isso para marcar o ponto de mudança, do seu novo eu, do eu que ele quer ser agora e que ele não sabe ao certo como será, mas apenas não sendo o eu que ele tinha sido, especialmente nos últimos 2 anos, já estava bom, já estava muito bom.

Ele faz a barba e faz planos de cortar o cabelo. Faz uma consulta mental involuntária em quanto custaria cortar o cabelo e se precisa mesmo fazer isso agora. Ele pega uma xícara de café e volta para frente do computador. Ele vê em cima da mesa um livro impresso numa gráfica. O livro foi entregue por um amigo que quer a opinião dele. É um livro de contos e ele ainda não leu nem metade, mas folheou aqui e ali e parou. Não porque o livro fosse ruim, mas porque a pessoa que tinha escrito o livro o incomodava. Era uma amizade do passado, de outros tempos, de outras cabeças, era um amigo que não era quem ele era, que não tinha vivido o que ele tinha vivido, conquistado o que ele tinha conquistado, vencido os demônios que ele tinha vencido e, ainda assim, petulantemente, apresentava ele assim escrito um dito livro, um dito livro não excelente, não obra prima, mas bom, bom como não poderia ser, como não deveria ser, porque aquele cara conseguir isso não era certo, era certo ele conseguir.

Ele empurra o livro pro lado com mais força que gostaria. O livro cai no chão. Ele se arrepende. Pega o livro, coloca de volta sob a mesa e o empurra pro fundo, pra longe. Pra um pedaço de sombra que a luz clara vindo de fora forma.

Ele pensa em seus outros amigos. Pensa como cada um está melhor do que ele, até os que não estão, mas tomado pelo momento, ele simplesmente perde a noção do julgar. Ele pensa em outros dias. Ele pensa nos momentos em que simplesmente seguia um fluxo invisível de decisões que lhe deixavam claro que aquele era o caminho. Filosoficamente. Semanticamente. Poeticamente. Existencialmente. Agora tudo era uma sucessiva invasão mental de “porém”, de “talvez não seja”, de “não tão bom quanto”, de “perdendo tempo”, de “perdendo dinheiro”, de “não sendo bom o bastante pra minha filha”.

É uma pena que nem todas as pessoas entendam que a partir do momento em que nasce seu filho você nunca mais vai fazer nada sem pensar nele. Ele, por exemplo, sabia. Havia essa batalha interna de ego, de realização pessoal, de se sentir bom o bastante pra merecer mais das coisas e da vida, ao mesmo tempo em que havia uma facilidade grande em aceitar perder parte de si mesmo se fosse para o bem da filha. O emprego que pagava o bom dinheiro, mas que cobrava tempo, estresse e saúde, o tornava irritado e impaciente o suficiente pra que ele sem querer se tornasse um mal pai. Numa tentativa de mostrar pra si mesmo que ainda estava no controle de tudo, ele escolhia dizer que tinha saído do emprego porque queria mudar sua vida, a verdade maior era que ele tinha realmente tomado a decisão de sair quando percebeu que sua filha não só não tinha com ele a mesma intimidade que tinha com a mãe, ele tinha até certo medo dele, já que ele sempre bravo, sempre estressado, sempre ausente, sempre sem paciência.

Ele e sua mulher gostavam de verdade um do outro. Se no começo houve incerteza e apenas a empolgação do sexo jovem e do mundo de possibilidades dos primeiros anos da faculdade, a convivência trouxe maturidade e intimidade e aos poucos um laço denso firme e forte se fez. A junção dos dois era assim, densa. Se gostavam, dava pra sentir no ar. Dava também pra sentir no ar que ela, ao contrário dele, não tinha nascido sensível para o mundo, contaminada por ares de artista, por ventos de imaginação. Ela era o pé no chão, o pé lógico, o abraço, o porto seguro onde pensamentos dessa gente que pensa demais não borbulham, apenas passam como um filme e não como um filme que quer dizer muito mais do que consegue dizer.

Ele junta na cabeça os outros, a mulher e a filha. Junta também os raios de sol, o apartamento para pagar, o cabelo pra cortar, e o reflexo visto no espelho que continua olhando pra ele quando ele fecha os olhos. Ele vê ele mesmo lhe cobrando: “E agora, cara? O que é que nós vamos fazer? O que é que nós queremos fazer?”.

Os dias passam e aos poucos os medos do será são desfeitos porque o futuro se torna presente e o presente trás coisas a toda hora. Nada fica parado. Ele recebe ligações. Telefonemas. Oportunidades. Freelances aqui e ali. Uma visita da mãe, que o aplaude, aconselha e critica. Ele recebe os amigos, eles jogam videogame e ele consegue se focar no jogo, na diversão, na amizade.

Passam mais dias e ele se reconecta com a filha, ela não brinca no quarto, ela brinca na sala. Ele lê as notícias, ele ainda tenta escrever. Ele ainda vê a página do banco e ainda faz contas, mas ele já vê bem claro que esse é o caminho certo. Um dia, na mesma semana em que ele começa um novo emprego pra fazer algo novo e que o empolga o suficiente pra saltar num mar por mais alguns anos, ele descobre, sua mulher conta pra ele: “você vai ser pai de novo”. Alguns meses depois ele descobre que é um menino.

Alguns meses depois o menino nasce. A família continua, a vida continua e ao longo das idas e vindas dos anos, do crescimento dos velhos, da chegada das doenças pra ele e pros amigos, da morte da mãe, da chegada dos netos, ele segue em frente fazendo as coisas, deixando pra trás a sua própria “crise da meia idade”, naqueles dias tão iluminados e tão carregados, preso em si mesmo, no seu apartamento daqueles dias.

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