Mentiras explicativas: 02 – Porque as pessoas tem gripe

Sexta-feira é dia de mentiras. E de que tipo de mentiras estamos falando? Ora, mentiras que importam, mentiras que explicam e revelam os mistérios da universo. Hoje, por exemplo, vamos explicar….

Porque as pessoas tem gripe

Motivo 1 – O curto
As pessoas tem gripe porque não levaram blusa.

Motivo 2 – A história
Se bem me lembro, foi mais ou menos um mês e meio antes de ser dado o play na existência. Quase tudo que iria existir e as regras de como tudo ia funcionar já estavam definidas. Na verdade, não 100%, mas considerando o prazo que ainda sobrava todos os envolvidos tinham certeza que aquele job seria entregue em tempo.

Desde o princípio, um dos pontos centrais de tudo que foi projetado, era que mecanismos para evitar a imortalidade eram necessários. Se fosse possível viver para sempre, era bem provável que ninguém fizesse coisa nenhuma.

A primeira criação nesse sentido foi a fome e a sede. Algo ligeiramente curioso é que, no papel, fome e sede eram pensadas como ferramentas do controle da imortalidade de plantas e animais. Era totalmente secundário que fome e sede pudessem também ser ferramentas para matar humanos, dada a abundância de recursos que foi colocada no mundo.

Eu lembro que foi só uma galera do DIPDUM (“Departamento Isso Pode Dar Uma Merda”) que aventou a possibilidade de que, dadas as condições ideais, criaturas humanadas dotadas de inteligência (ou “inteligência”, neste caso), poderiam infligir umas sobre as outras abusos e sofrimentos em prol de desejos egoístas — e imbecis. No cenário apresentado por eles, não bastava o mundo ser farto para todos, um bando de imbecis poderia, como eles disseram “foder a porra toda”. Muita gente poderia morrer de fome e sede se isso acontecesse. Ninguém deu ouvidos e nenhum mecanismo foi criado para evitar isso. A verdade nua — e crua — é que ninguém achava que o mundo seria um lugar com tanto filho da puta.

Depois da fome e da sede, criou-se o tempo como um fator acumulador de experiências e a isso se deu o nome de idade. A idade era uma variável usada em uma série de equações que determinavam de muitas formas rumos e possibilidades na vida de uma pessoa. Junto com o conceito da idade, criaram-se as doenças.

As doenças eram necessárias porque se uma pessoa morresse do nada, seria muito sem graça, ou como alguns disseram “deselegante para com a existência”. Além disso, doenças associadas com o conceito de idade, permitiram diferentes tipos de morte, permitindo uma versatilidade muito maior de possibilidades para os roteiristas da existência, quando tivessem que criar as histórias que cada alma humana teria que passar.

A idade acabava sendo o fator de maior peso na hora das pessoas morrerem, já que os pequenos acúmulos disso e daquilo era que determinava qual doença a pessoa teria antes de vir finalmente a morrer. Era parte do briefing do projeto que — sempre que possível — inseríssemos ironia nas regras da existência e a doença escolhida para cada vida era um ótimo exemplo disso. Veja, a doença que matava a pessoa era resultado da pessoa ter feito, ou não feito, demais algo em sua vida. Simples assim. Elegante assim.

Comeu demais tal coisa? Fez demais exercício? Fez pouco exercício? Dormiu demais? Dormiu de menos? Não importava, para cada caso, uma doença foi projetada para impedir que os humanos alcançassem a vida eterna. A morte era literalmente construída com cada pequena decisão no dia a dia.

Perceba, até este momento, todas as doenças levavam a morte. Nessa versão da existência, nenhuma pessoa jamais ficaria doente mais de uma vez, então saber que se estava doente era iniciar a sua contagem regressiva final, passando pelo sofrimento final, em função da vida vivida e da doença resultante. Podia ser breve, podia se arrastar por anos. Fosse como fosse, não tinha saída além da morte.

Novamente, foi uma galera do DIPDUM que encontrou um problema. Na imaginação deles, uma pessoa que nunca tivesse ficado doente na vida poderia ficar maluca quando finalmente chegasse sua vez. A transição de um estado de saúde para um estado de doença seria brusco, violento e intimidador. Sabendo que estar doente era morrer, se não tinha como fugir e era fato que os anos de doença terminal eram de sofrimento e dor, era lógico que a imensa maioria simplesmente optasse pelo suicídio. E isso era um problema.

Era necessário que cada pessoa passasse pela doença que lhe cabia, levando em conta a vida que ela viveu e a missão dela naquela visita à existência. Era importante que ela vivesse a doença e, pra isso, a solução encontrada foi que as pessoas tinham que acreditar que uma cura era possível, que ela realmente poderia sair dessa.

Apesar do avançado do projeto já em sua reta final e do cansaço visível de toda a equipe, o argumento foi aceito com unanimidade. Mesmo todos sabendo que o trabalho adicional necessário seria bem grande. Era quase certo que seria necessário pedir mais prazo ao cliente. Se não me engano ele nos deu mais duas semanas ou algo assim, já que ele também entendeu a importância dessa modificação, especialmente para os propósitos irônicos que ele tanto adorava.

Foi assim que um imenso conjunto de doenças, projetadas para não matar ninguém, foi criado. Foi introduzido o conceito de cura. Agora as pessoas saberiam como é estar doente, viver a doença e passar por ela. Agora elas iriam viver até o fim, com todas as implicações e ironias necessárias. Gripes, viroses, dores de barriga. Bastava repouso. Bastava uma sopa. Bastava lembrar de levar uma blusa.

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