A famigerada Black Friday

Dá um nervoso. Dá uma raiva. Dá um milhão de pensamentos na cabeça. Tem pressão. Tem contagem regressiva. Tem o receio de perder uma chance única de ter aquela coisa lá que pode ser importante ou só uma idiotice qualquer que te ajuda a viver com mais calma dias não tão calmos. Existe a sacanagem. Existe o dobro pela metade do preço. Existe o receio, a ansiedade, a dúvida, a insatisfação — e — um ligeiro senso de aventura. O nome, senhores, é Black Friday.

Alguns anos atrás, depois de falar esse nome, seria preciso explicar que bicho é esse, o que é, onde vive, o que come, como se reproduz. Nesses tempos (bestas) de hoje em dia, o termo é conhecido e talvez o pacotinho filho da mãe de sentimentos, que descrevi ali em cima, também.

Mas, porém, apesar do termo ser conhecido por aí eu mesmo não sabia muito mais sobre ele do que “um negócio que acontece nos Estados Unidos, na última sexta-feira de novembro do ano, pessoas loucas, promoções agressivas, blá blá blá”. Foi aí que recorri à fonte de conhecimento do idiota padrão, o facebook. Não achei nada de bom por lá e depois de vomitar por algumas horas e querer me matar, decidi que era melhor ir até a Wikipedia.

Lá aprendi algumas coisas, mas só pela piada da coisa, olha a definição que encontrei:

Como muitas vezes acontece com o Wikipédia em português, a informação que estava lá era bem rasa. E, assim, eu sei que eu sou parte do problema, quer dizer, eu poderia dedicar um tempo pra traduzir artigos do Wikipedia inglês e etc, mas como o tempo é pouco, além de curto e ainda diminuto, fica como uma resolução para o ano que vem. É. Vou pensar nisso! Gostei!

Mas, voltando ao assunto em questã, clicando lá na lateral pra ir até o Wikipedia em inglês, acabei de descobrindo muito mais coisa. Algumas que realmente não fazia ideia e que achei bastante interessantes — o que não quer dizer que você também vai achar interessante, já que, como mencionado inúmeras vezes, eu acho tudo “interessante”, “curioso”, “blá, blá”, “etc”.

O primeiro fato que não esperava descobrir é que desde os anos 2000, em especial desde 2010, a Black Friday meio que foi importada para vários países. Em alguns lugares o evento foi adaptado para aproveitar um feriado local, em outros apenas o nome foi mudado e o esquema é mais ou menos o mesmo.

No México, por exemplo, o evento se chama “El Buen Fin”, que seria algo como “O bom fim de semana”. Ele ocorre no fim de semana que antecede o feriado da Revolução Mexicana (que confesso não sei exatamente do que se trata e anotei pra pesquisar depois) e que é comemorado todo dia 20 de novembro. Inclusive vendo isso do México descobri algo curioso, aparentemente, lá os feriados são empurrados para a segunda-feira mais próxima, então os feriados são sempre nas segundas, independente do dia em que eles celebram efetivamente acontece. Na prática a ideia foi aproveitar esse feriado que já era no final de novembro para que a festa da compra (e do desespero) durasse todo o feriado.

Para nós brasileirinhos desta terra tropical onde tudo dá, cresce, rouba, tira sarro e joga bola, o termo “black” não tem a mesma conotação que tem para alguns países, especialmente europeus. Naquela terra onde tem menos sol e menos alegria, mais frio e mais rancor dos vizinhos, o termo “black” algumas vezes é associado a coisas ruins, seja um dia que a bolsa de valores foi pro caralho, seja por causa de uma tal de peste negra que matou tipo um terço da população da Europa lá naquela época maravilhosa da idade média.

Na França, por exemplo, tem um episódio curioso quando a isso. No começo tentar nacionalizar o termo, chamando de “Vendredi noir”, que literalmente significa “sexta-feira negra”, ao mesmo tempo em que algumas lojas, especialmente as de origem estadunidense ainda usavam “Black Friday”, porém devido aos ataques terroristas que ocorreram na França em 2015, no ano de 2016 o evento recebeu outro nome já que se tivesse “black” poderi ser interpretado como referência a algo negativo, nesse os ataques terroristas. Em 2016 o evento foi chamado de “Jour XXL”, que seria “O dia XXL”. Imagino que o XLL seja pra dizer que é o dia de descontos grandes, mas pra ser sincero não achei porque usaram esse nome. Curiosamente, esse ano o termo que eles estão usando voltou a ser Black Friday, em inglês mesmo.

Encontrei também algumas informações a respeito da origem da prática e super descontos e do próprio nome. Como muitas coisas que existem a muito tempo e que são fenômenos sociais e não históricos, pelo que pesquisei, não existe uma versão definitiva de como foi que tudo começou. O que se sabe é que existia nos Estados Unidos o feriado de Ação de Graças e que as lojas meio que esperavam até depois dele para iniciar as promoções de Natal. Pra nós brasileirinhos esse não é um feriado que diz exatamente alguma coisa, mas lá fora é um feriado que é comum ser comemorado com a família, em muitos casos, mais até que o próprio Natal ou o ano novo. O feriado de Ação de Graças é inclusive o feriado que tem mais trânsito em muitos estados lá do país do chanceler Trump. Ao longo dos anos, essa prática foi se espalhando entre os lojistas.

A origem do nome tem também muitas versões. Uma das teorias é mais antiga e tem a ver com o dia receber esse nome porque, como o feriado é na quinta-feira e nem todos os estabelecimentos comerciais emendavam com o fim de semana, muitos empregados faltavam e a havia uma queda de produção e por isso o termo black, em função desse evento “negativo”.

Outra teoria já de uma época onde as pessoas emendavam o feriado, é que por ser um feriado onde muita gente vai pra casa dos pais, existe muito trânsito e bagunças, na sexta-feira seguinte, seja porque tem muita gente voltando pra casa ou apenas fazendo merda porque bebeu e comeu demais. Nessa versão o termo teria sido inventado por policias e bombeiros.

A versão mais aceita, que bate com dados, depoimentos e a memória da vó de muita gente, é que foi durante os anos 80 que o termo virou o que é hoje. Como a sexta-feira seguinte ao dia de Ação de Graças acontecia num feriado e marcava o início das compras de Natal, havia um pico significativo nas vendas, fazendo as lojas “sairem do vermelho” e “irem para o preto”. Em algum momento o termo administrativo foi para o marketing, que juntou com a tradição já existente, que juntou com o termo “black” ter um significado forte e ano após ano o evento cresceu até se tornar o que é hoje.

Em outras palavras, o evento como é hoje, com esse nome e descontos agressivos é algo muito mais recente do que eu imaginava que era. Achei também muito curioso ver que outros países fazem também o que muitos lojistas fazem aqui na Brasil com descontos que são “o dobro pela metade do preço”, ou mudando o nome incorporando os nomes das próprias lojas e — ora, ora vejam só — usando o termo “black + alguma coisa”, para fazer promoções ao longo do ano.

Resumindo, somos uma aldeia global. Somos brasileirinhos que receberam da metrópole vigente mais um hábito de consumo e, por mais que sejamos volta e meia contaminados por nossa habitual síndrome de cachorro vira lata, aí pelo mundo todo, exatamente como aqui, tem lojista que faz a coisa do jeito certo, com bons preços e boas oportunidades e tem gente que faz sacanagem. Agora, vamos todos engolir nossa ansiedade, se focar no que nós realmente precisamos e não comprar de lojas sacanas. É. É isso aí!

E agora memes, porque — claro — nem você, nem ninguém, nem eu, somos obrigados!

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