Big Little Lies

Há quem diga que sucesso tem a ver com o momento certo, mais do que com a qualidade ou o merecimento. Mas, quando pensamos em criações artísticas, é bastante normal que o próprio momento inspire o que é criado. Big Little Lies é uma série baseada no livro de mesmo nome (que por aqui chama “Pequenas Grandes Mentiras”) da autora Liane Moriarty. A autora, além de ser arqui-inimiga de Sherlock Holmes (cof cof cof), tem alguns outros livros que são também bastante elogiados.

Começo já falando da autora, do livro, que ela tem outros livros e etc, porque essa é uma dessas séries que deve muito todo o peso que tem ao material que tem como referência. Existe peso na apresentação dos personagens, numa construção de história que mostra um evento, levando em conta que esse evento é só momento um na vida de personagens que tem um passado distante e recente e esse passado não necessariamente é mostrado na série. Existe uma linguagem que não nivela totalmente a profundidade das cenas e dos diálogos. Existe muito silêncio, existe muito fluxo de imaginação, existem muitas mensagens na entre linhas, corridas na praia ao som de música, olhares pro horizonte, expressões faciais ao invés de palavras. Só é explícito o que precisa ser explícito pra que a narrativa da história faça sentido.

Falando na narrativa — e falando como alguém que também cria histórias — a premissa principal da série é uma dessas que é bem divertida de escrever e também de desenrolar. Resumidamente, em uma cidade de pessoas de alto poder aqui$itivo, em uma festa, alguém foi atacado e morreu. Não sabemos quem foi e a partir desse evento e do depoimento das pessoas que conheciam os envolvidos, a história volta dias antes e vai construindo as tramas que fariam alguém atacar alguém ao ponto dessa pessoa morrer. É uma contagem regressiva, numa dança de pessoas que se toleram, que mentem, que seguram as coisas dentro de si, até o ponto em que uma delas vai perder a cabeça e outra vai morrer.

Não gosto muito do título por achar que ele vende mal a história. Parece uma história mais leve, pertencente a outro gênero. Ainda assim, o título tem bastante sentido com a história, porque são mesmo mentiras pequenas, mas que ocultam coisas grandes.

Quando eu falei lá no começo da história se comunicar com o momento de agora, um lado disso é justamente esse jogo de aparências. Pessoas teoricamente bem sucedidas, com passados pesados, com merdas na cabeça, com atitudes de aparência, com a tentativa frustrada de tentar buscar pra si mesmo uma justificativa de vida. Nem tudo é exatamente o que parece, ao mesmo tempo que é justamente o que parece, mas revestido de pequenas mentirinhas que escondem o quão real e profunda uma impressão pode ser.

Outro aspecto da história que se comunica com o momento é que a história tem como protagonistas personagens femininas, ou, como dizem os antigos, mulheres. Sim, mulheres, mulheres mesmo, não uma versão masculinizada, ou hiper sexualizada da coisa. Por colocar mulheres como protagonistas existe um lado forte da história relacionado a criação dos filhos, mas de um jeito mais realista, não é só o clichê de “virarei uma leoa para defender minha cria”, mas levando em conta essa discussão de uma forma mais adulta, mais real, envolvendo questionamentos do tipo “mas será que meu filho não faria mesmo isso? Será que ele é mesmo bom? Porque meu filho não fala comigo? Porque meus filhos me odeiam?” e coisas desse tipo.

Existem ainda outras questões do universo feminino que eu prefiro não abordar, porque existe um limite pra minha capacidade de empatia e porque entraríamos em spoilers. Inclusive, imagino que essa seja uma série, justamente por contar a história do fim pro começo e depois de volta pro fim, que saber o final afeta sua experiência. Se puder fugir de spoilers, fuja, pois.

Por fim, devo dizer que gostei muito da série e espero que tudo que eu escrevi até aqui possa lhe dar vontade de querer assistir. Contudo, devo dizer que, minha atitude de querer citar a autora Liane Moriarty, lá no começo, aqui de novo e no final vou por link pra livros dela, inclusive, é que essa é uma dessas adaptações que faz um ótimo trabalho no sentido de criar uma obra que perceptivelmente tem uma base anterior que serve de alicerce pra criar o que é visto, mas, além disso, mesmo sendo tão bom, tão belo, tão justo e necessário, como alguém que escreve histórias, ver a série me deu vontade de ler o livro, pra poder ver o aprofundamento completo das personalidades dos personagens e de cada uma das suas pequenas mentiras (ha!).

A srta. Liane Moriarty tem alguns livros lançados na Brasil, se lhe apetecer, veja que conveniente (!), clique abaixo para ir lá no site da amazon, talvez comprar um deles (ou mais de um) e gentilmente me dar uma comissão (há! – 2). Lo agradeço-no.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: