Um monte de “será?”

A proposta é escrever todos os dias pelo exercício de escrever. É uma necessidade. É a necessidade de se expressar. É a necessidade de desligar o julgamento alheio, se permitindo ser ridículo, dizendo o que você precisa dizer, sem se preocupar com o que os outros vão dizer ou qual cara vão fazer quando você terminar de dizer o que está afim de dizer.

É uma conversa solo. É uma missão solo, é uma busca sua por uma reflexão, por um entendimento, por um motivo pra querer continuar vivo. Não é de verdade pra ninguém além de você mesmo. Não tem problema estar na internet, na verdade, faz parte que esteja. É preciso que esteja. É pra ser ridículo, é pra ser algumas vezes errado e arrogante, é pra ser sincero.

Não faz diferença se alguém vai ser ler ou não. Não tem a ver com vaidade, tem a ver com coisas muito mais internas e muito mais fortes. Tem a ver com dar voz aos seus próprios pensamentos deixando eles no ar pra que outros além de você possam te corrigir e se identificar com você. Tem sempre alguém pensando a mesma coisa, sentindo a mesma coisa, buscando a mesma coisa. Na verdade não estamos mesmo todos felizes e estamos todos buscando um jeito de estar. Vamos comprar isso, vamos fazer aquilo, vamos fingir, vamos refazer, vamos imitar, vamos nos esconder, vamos nos diminuir, vamos nos calar, vamos não nos calar.

Já passou pela sua cabeça quais as possibilidades que você tem na vida? De forma real, de forma contundente, levando inclusive em conta que você venha a se tornar uma milionário — caso você já não seja — ou que você seja um revolucionário que mude o mundo. Eu digo de você ver e conseguir se colocar na situação hipotética de ter o que você almeja ter de tal forma que você consegue, mesmo que de forma errada e incompleta, saber como você iria realmente se sentir? Como se você conseguisse provar o gosto da vitória antes da vitória, os resultados da vitória, as implicações e a nova rotina trazida pela vitória e tudo isso lhe parecesse idiota?

Você quer mesmo comprar esse celular novo? Você quer mesmo ter essa casa? Você quer mesmo essa viagem? Você quer mesmo esse corpo, esse sexo, essa noite? Você quer mesmo aquela promoção, aquele aumento, aquilo tudo? Você quer mesmo continuar trabalhando de segunda a sexta? Você quer mesmo ter que casar, ter que ter filhos, ter que ficar velho, ter que viver as coisas de velho? Tem graça mesmo isso? Te empolga mesmo isso? Essas possibilidades da vida, essa rotina da vida, por mais que você estique os parâmetros, te dando o melhor companheiro(a) no amor, a maior conta bancária, os melhores filhos, o melhor emprego, as melhores férias, será que isso vai ser a coisa certa ou será que vai ser melhor do que uma mera especulação pode dizer?

Será que não é um problema químico? Será que não é um caso de depressão de verdade, dessas que precisam mesmo de remédio e não dessas de merda de palavra da moda usada pra se limitar e se diminuir e brincar de “nossa, gente, não é horrível?”?

Será que não é uma noção de consciência diferente, uma percepção de que tem que existir outras maneiras de viver a vida, de ser a vida, de existir em si. Algo que não seja nesse ritmo de produção e reprodução, algo que não seja só escambo, algo que te cale a voz dizendo que está errado, que é bobo, que é vazio, que tem como fazer mais e perceber mais?

Será que é mesmo impossível fechar os olhos e sentir o planeta girando, rodando em si e em torno do Sol, e o Sol e os planetas vizinhos, rodando na galáxia e a galáxia rodando por aí? Será que é mesmo tão difícil ver os detalhes simples do significado das coisas, da improbabilidade caótica da existência da vida, do encontro de duas pessoas, de um momento no espaço tempo em que você chega no balcão de algo chamado McDonalds, pega um lanche, morde e sente uma explosão química que é outra coisa? O McDonalds é um exemplo, pode ser sorvete, pode ser água num dia de sol, pode ser um xix aliviado depois de estar apertado, a idéia é ter algo simples, que é causado pela combinação de muitas coisas e que te causa uma resposta que não é uma coisa, mas que é um momento, um momento que te ajuda a definir o que é estar vivo, quais as possibilidades de estar vivo.

Eu fico mesmo pensando nos sentimentos de vazio quando encerramos um conflito, quando completamos uma suposta conquista, quando chegamos lá onde supostamente deveríamos estar e as coisas ainda assim parecem erradas. E você dorme e você sonha e você vai pra mundos onde as coisas são outra coisa, com regras malucas, em trechos de momentos que lhe convidam a viver a vida de outra forma. Fodam-se os prédios, os metros, os wi-fis, os iphones, os mcdonalds, os empregos, os dinheiros, os filhos, os amores, as vaidades, os políticos honestos, os políticos corruptos, os médicos, os engenheiros, os padres, os músicos, os filósofos. Foda-se eu, foda-se você.

Fica uma sede por algo de verdade. Fica uma sede por outras coisas da vida. Fica um vazio de dúvida se essas outras coisas existem mesmo ou se a única maneira é essa aí. Pelo menos nesse universo, pelo menos nessa vida, pelo menos por 0 a 100 anos de uma faísca de consciência que fez parte do acaso de existir e questionar num universo em movimento completamente alheio a ela e qualquer outra coisa. A ironia é que a própria faísca também é parte do universo.

Enfim. Depois passa. Depois outras vozes, outros desejos, outras tentativas.

Depois outro dia.

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