Uma boa coçada nas costas

Considere que, para um dada cabeça – seja ela sua ou não – é importante que as regras do jogo fiquem claras. Bem claras.

Não pode ter essas coisas de “ah não sei, vamos ver, vamos ver”. Tem que ser bem certo, bem direto. Eis o que pode. Eis o que não pode. Causa e consequência.

Para esta dada cabeça as regras serem variáveis e incertas causam estresse, ansiedade, coceira, insônia, irritação e calor.

Talvez seja por isso que as pessoas fazem promessas de fim de ano. Se você anunciar o que vai fazer, antes de fazer, você está colocando as regras, você está se comprometendo, você está dizendo assim “ei, caralho, desejo realizar esta porra, posto que o farei porque estou dizendo que o farei e você que não pense que não, viu? Ora essa!”. Parte da ilusão de se estar fazendo algo também está aí. Só de dizer que se irá fazer, como a opinião dos outros é assim tão poderosa, alguns já se sentem fazendo.

Pois, se assim for, é sempre bom de tempos em tempos parar e olhar com o que é que estamos escolhendo gastar nosso tempo, quais promessas foram feitas e se as regras estão bem definidas.

Foi pensando nisso tudo que acabei pensando numa coisa que não tem nada a ver com isso, porque é assim que algumas vezes as coisas são, sinto muito.

Estava pensando em como escrever e postar, escrever e publicar, antigamente significava criar um compendio mágico de verdade imutável. Você fazer um comentário sobre um jogo, um filme, a puta que o pariu, depois de publicado estava lá lançado pro mundo de maneira eterna e rígida. Hoje, você pode editar o post. Hoje, você pode até escrever um monte de mentiras. Hoje, se você quiser ser correto, você pode simplesmente ser um pouco mais humilde e não cercar tudo que você diz com a obrigação de ser uma opinião definitiva e final.

Em outras palavras, as tecnologias de hoje em dia permitem muito mais que você fale a merda que quiser e coloque na internet pro mundo tudo ver.

Não sei também até onde vai essa pretensão de que tem mesmo alguém lendo, de que tem mesmo alguém absorvendo e sacando e absorvendo as merdas todas que você tão cheio de si tem pra dizer. Eu acho que hoje em dia ninguém lê mais nada e mesmo que eu veja depois que “o seu post recebeu curtidas”, ou “não sei quem está seguindo o seu blog”, a impressão que eu tenho é que é um jogo. Um grupo imenso de pessoas “fazendo o social” nas redes sociais, dando likes e postando e publicando e gritando e dizendo e subindo na máquina de lavar roupa e gritando “essa é a minha opinião e ela é foda pra caralho!”.

Acho que estamos todos muito mais interessados em ficar falando do que ficar ouvindo. Tá certo que escrever é expressão e se expressar é falar não é ouvir, mas acho foda ver como tem muita merda sendo escrita, dita, gravada e publicada por aí como se fosse uma puta opinião embasada. E eu não digo que eu sou a opinião embasada, muito pelo contrário, quero até deixar bem claro que eu sou só mais um idiota que escreve porque precisa escrever e falar coisas, porque falar coisas me dá a ilusão de estar construindo, porque falar, verbalizar, colocar em letras os pensamentinhos do cabeçãozinho faz as coisas funcionarem melhor.

Eu pensei também o quanto certas mídias baseadas em opinião são ultrapassadas. Pensei em como fazer um review em um texto, com uma conclusão e uma nota é algo meio estúpido e vazio. As pessoas mudam, as experiências mudam e revendo as coisas as opiniões podem mudar.

Acho que a mídia de texto comunicativa, essa coisa assim mais despretenciosa, feita pra falar numa boa o que der vontade, é bem mais legal se não for jogo de cliques, follows e likes. E não é só pela internet, não é só no mundinho virtual.

Eis uma metáfora. Num mundo onde ninguém pode coçar as costas de outra pessoa além dela mesmo, vemos uma reunião de pessoas com muita coceira nas costas. Em casa, sozinhos, quando tentam, se esticam e coçam bem pouco, com só um dedo, é o máximo que conseguem fazer. Mas, caralho, eles tanta coceira nas costas, que só aquele dedo já é tão importante. Já é uma puta conquista foda. E aí, eles vivem a vida e continuam se coçando sempre que precisam, dentro das suas limitações de elasticidade e eis que no grande mundo lá foram descobrem outros, pessoas que conseguem se esticar mais, coçar mais, usar até as duas mãos de uma só vez! Existe grande confusão, existe grande ansiedade. É um segredo mágico? É maldição? É benção dos deuses? Será que as pessoas que se coçam melhor, se esticam mais porque se esforçam mais, será que existe enfim uma real necessidade de olhar pro espelho, de encarar os fatos, e ver sincero no fundo dos olhos que falta poesia e esforço, que falta humildade e silêncio, que falta ser e não apenas querer parecer ser? Não, absurdo! Absurdo! Minha coçada é boa! Minha coçada alivia minha necessidade de coceira! Estes coçadores de mão cheia são uns imbecis! Vamos nos unir! Vamos todos nos unir, coçadores de merda, de mão curta de pouco esforço! Vamos todos nos cercar de nós mesmos até que tudo que esteja a nossa volta seja só outros como nós! Até estarmos tranquilos com nossa mediocridade! Até o próximo fim do ano, com mais promessas de coceira mal feita incompleta fruto do próprio pouco parco e porco esforço e de toda a vaidade.

Puta que pariu.

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