Eu amo meu país – dizem

É muito mais divertido falar sobre coisas idiotas. É muito mais legal discutir entretenimento ou falar das coisas da vida com o rótulo de coisas da vida, sendo mais filosófico e poético do que prático. É muito mais incomodo falar de problemas, atitudes, pessoas e sistemas que controlam muito mais diretamente a maneira que a nossa vida funciona do que gostaríamos de aceitar.

Ontem aqui no Brasil um monte de pessoas votaram para livrar uma pessoa. Se for ver os dados rapidamente, se pegarmos os fatos, os históricos dos envolvidos, as regras do circo e tudo mais, toda a elaboração realizada se torna idiota e incômoda. É idiota porque é idiota julgar culpa quando existe tão pouca dúvida da honestidade de qualquer político no Brasil, ainda mais com evidências, testemunhos, gravações, peças de um quebra cabeça que se estivesse em uma obra de ficção, na nova série do Netflix, ou qualquer coisa assim, seria fácil de deduzir os culpados, os vendidos, os certos e os errados. Ainda assim circo se fez, se faz e o resultado é o que é e daí vem o incômodo.

Veja, incômodo não é revolta. Poderia ser. Deveria ser. Devíamos todos nós nos unir, pegar tochas, foices e vuvuzelas e tomar as ruas. Cortar cabeças desonestas e restaurar o motivo de pagarmos tantos impostos, de escolhermos ser uma nação, de não ser só 20 centavos. Mas o dia seguinte vem como um dia normal e nas conversas nas filas, nas copas das empresas, nos corredores e nas vias dos carros e ônibus que transitam, tudo que houve é falado e passado, como um assunto incômodo que logo em seguida é deixado de lado pra falar de outra coisa que nos dê mais alegria.

É uma merda o sentimento de desilusão e a imagem pré concebida de que as coisas aqui são uma merda, que ser uma merda é assim mesmo e que não tem jeito. É uma merda estarmos já tão cansado e preocupados com tanta coisa que falta fogo nos olhos pra fazer algo mais do que ficar incomodado e depois falar sobre o filme do Thor. É uma merda sermos uma nação de abusados já tão abusados que o estamos realmente acostumados. Acostumados a não ter. A não ser. A não ser tão bom. A ser só isso aí.

A barreira de intelectualidade que a imensa maioria da população não consegue saltar impede que as pessoas entendam as causas e consequências das decisões tomadas por esses senhores políticos com toda essa disposição pra lamberem o próprio ego. Os valores roubados estão escondidos atrás de termos e processos, fica turvo ver como são altos os valores. Fica complicado entender como essa e aquela decisão afeta o todo, como afeta o agora e como afeta – em maior escala – o país que o Brasil poderá ser no futuro. As atitudes se perdem, as declarações não existem. Idiotas ocupam cargos que nos fazem passar vergonha por sermos brasileiros.

Do lado de cá improvisamos no que podemos. Somos uma nação de improvisadores, de criativos, de escritores, de mentirosos, de bem humorados irônicos. Respondemos como memes, respondemos com piada, rimos para não chorar. Fodidos, fodidos e ok. Tem banana, tem nutela, tem futebol e tem novela.

Me preocupo de verdade com o caminho pra onde o país vai e vez ou outra tenho um sentimento de desespero, desses de dar suor frio. Eu que acho legal estudar, eu que acho legal saber das coisas, o porque das coisas, o antes das coisas, de onde viemos e pra onde vamos, sinto real desespero quando penso no futuro. Penso de verdade que é uma necessidade ir embora. Penso de verdade que por meios legais e pacíficos nada poderá ser feito. Penso de verdade na minha idade e nas coisas que já perdi e que poderia ter feito, vivido e construído se tivesse nascido em outro país. Eu não estou sozinho nesses pensamentos e nesses sentimentos.

Somos um país com um potencial enorme. Recursos minerais. Recursos naturais. Uma população rica, feita de povos misturados de todo o mundo. Me parece ilógico que alguns idiotas achem que é melhor governar uma nação de fodidos pra brigar por quem será o rei dos mendigos comendo mais migalhas. Me parece imbecil ser incapaz de ver que é melhor fazer o melhor pro país todo e não só pra um grupinho vergonhoso. Se o país todo se torna mais rico o mais rico do país se torna também mais rico. É uma conta simples e que mede riqueza indo além do dinheiro. É felicidade, é orgulho, é fazer o bem pros seus sem ter que carregar a culpa de fazer mal pra tantos outros.

Numa sala na capital do mundo existe uma cadeira pra pessoa mais rica e mais poderosa de cada país. Na cadeira do Brasil, se senta um homem que acredita ser poderoso e rico. Pelas suas costas, os outros riem dele, porque sabem que ele é esfarrapado, ignorante e tem um poder que só existe caso ele pague uma mesada mensal a uma dúzia de desgraçados lá no seu país. Em seu país ele é motivo de piadas e ironias que ele próprio não entende e tomado pelo ego do rei do esterco, bate palmas pra si mesmo, acha ótimo e diz assim “Eu amo meu país”.

E agora uns memes, porque eu não sou obrigado.

É.

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