Calombo

São peças muito pequenas. São partes mínimas e diminutas. Elas se juntam e juntas compõe um todo que nos acertar internamente, na cabeça e na alma, dizendo se as coisas estão ou não tudo bem.

Existe um fluxo de memória, de eventos, de busca por causa para essa consequência. Ao lembrar das coisas pode ser que dê pra ver que existe mais de um motivo pra tudo estar como está e pode ser que a culpa está espalhada por tantas partes que lembra um conjunto de estrelas arremessado no céu.

Nos incomodam mais as que são nossa culpa. Nos incomodam mais o que aconteceu porque mais uma vez não conseguimos, não fomos, não dissemos, não fizemos, falhamos, tentamos e tentar não é o bastante. São as mentiras, as culpas, os jogos psicológicos, as prisões sentimentais, os desejos, os anseios, os anos, as expectativas, as gotas, as lágrimas, a comida e o tempero. Somos nós mesmos olhando pra nós mesmos e achando uma merda o que fizemos e o que somos capazes de fazer.

Há uma boa notícia. Ela não deveria ser boa, pois é plantada em vaidade e em inteligência de manada, em comportamento de grupo. Ela não deveria ser boa porque, de um jeito irônico e paradoxal, defende a individualidade ao mesmo tempo que defende que devemos, como sociedade, ser um conjunto. A notícia é que ninguém realmente se importa. Ninguém notou, ninguém sentiu falta, ninguém viu ou percebeu nem mesmo um terço de todas as coisas que você fez, pensou, disse, achou ou julgou de si mesmo. As pessoas não se importam. Só você se importa. Só você está ali.

Na ilusão das histórias, dos filmes, dos jogos, de tudo que te contaram, sempre tinha um personagem principal. De alguma forma, você passou a achar que pra sua vida também era assim, que você era o personagem principal, que a sua história também era um conjunto magnífico de aventuras. Sem que desse para impedir, você achou mesmo que era tão legal, tão inteligente, tão especial, tão foda para caralho, não só porque teve ao longo da vida sua meia dúzia de conquistas insignificantes na bolinha azul flutuando no espaço, mas também porque você ouviu outros dizerem. Você ouviu dizerem que você era especial, inteligente, engraçado, foda para caralho. Tudo que você ouviu era só um recurso de palavras pra incluir você, como sendo algo especial, na jornada egoísta e individual de outra pessoa. As pessoas não se importam. As pessoas só se importam com elas mesmas.

E você acredita mesmo nisso? E você acha que é mesmo necessário falar assim disso tudo? E você acha que precisa mesmo dizer pra todo mundo? E você acha que a ilusão de colocar pra fora ajuda de verdade em alguma coisa? E você acha que dizer tudo isso só não vai magoar mais gente, fazer quem quer ouça se doer e sentir que o problema é você? E você acha que dizer tudo isso contrói alguma coisa, aproxima alguma coisa, torna de alguma forma melhor o que está desse jeito assim tão ruim? E você? O que você pensa que você acha?

Não há nada pra se ouvir. Não há nada pra se ler. Não há nada além dos fragmentos girando num turbilhão de memórias e histórias, insistindo, mudando, repetindo, mentindo e cantando. Estamos bem. Estamos todos muito bem. Cale a boca você. Cale a boca pessimista.

Vem um jogo logo ali. Vem um filme bem legal. Vem uma promoção daquele livro. Vem encomenda pelo correio. Vem um dia novo, um dia seguinte, o próximo feriado, a próxima refeição, o próximo vídeo de gato, o próximo prato de macarrão, o próximo por do sol. Vai tomar no seu cu. Vai pro inferno. Vai embora e se cala no seu canto e fica bem quieto que ninguém te perguntou nada. Vai embora e fica calado que você não sabe nada.

O turbilhão, as memórias, o momento momentâneo, a facilidade de dizer que o problema é como as coisas são e não como elas estão. O comodismo de se focar no pedaço que interessa pra validar o argumento de que você fez o melhor possível, quando na verdade você sabe bem que ainda não fez. Vá a merda. Vá ao fundo da merda. E saia de lá e lembre que as histórias dos heróis e da merda toda que você ouviu não é invenção ou fantasia. Que você descende de homens das cavernas que pelados caçavam e passavam frios.

Você é o produtos de gerações em guerra, de uma sucessão incompreensível pra sua cabeça diminuta de boas ideias, de pessoas inteligentes que pouco a pouco fizeram o mundo a sua volta. Você é a sucessão de milhares de guerras, de milhares de mortos, de milhares de pessoas que fizeram, que viveram e morreram e deixaram algo para o mundo que ficou. Tudo isso a sua volta veio de algum lugar. Alguém criou cada parte do conhecimento que tornou possível você tomar banho, a água encanada, o shampoo vindo no pote plástico, o desenho do pote, o rótulo do pote, impresso colorido numa imagem sugestiva pra você. Um mundo todo pra você. Um monte de coisas mostrando que o teu momento repentino de desarranjo não é um problema com o mundo, não é um problema “com todos”, não é um problema de verdade.

É só uma vírgula. É só um calombo na estrada. É só um pequeno vale, é só uma pequena depressão. No todo, no real todo, no tudo, no pedaço que te cabe da bolinha azul flutuando no meio do nada, há muito pra se fazer e a escolha de olhar o tudo e não a merda, é sua.

Publica. Cala a boca. Escreve de novo. Espera pelo dia seguinte. Vai comer alguma coisa. Vai em frente. Ainda tem muita coisa pra dizer. Mais uma vez.

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