Jogador Nº 1

Qualquer obra artística é sempre uma reação. Das coisas que você viveu, das coisas que você de alguma forma passou ou pensou a respeito. Sendo assim, de tempos em tempos, quando as gerações mudam, mudam também os elementos das obras, dos quadros, dos livros, da coisa toda. Jogador Nº 1 é um livro contemporâneo, escrito pra alguém que viveu a cultura pop e geek dos anos 80, empacotado numa aventura divertida e de leitura fácil.

Logo de cara, devo dizer que este é um destes livros que, apesar de ter mensagens e construções que tem valor, ele funciona mais como entretenimento. É aventura, não é um tratado filosófico, apesar de ter filosofia. Importante dizer isso, porque pela sinopse, pode ser que você tenha uma outra impressão.

A história se passa num futuro não muito distante, onde as grandes corporações e os países ricos continuaram a fazer as merdas que eles fazem hoje. O mundo tem problemas de clima, de pobreza extrema e empresas com mais poderes do que países. Ao mesmo tempo existe muita tecnologia e gente muito rica.

Nesse futuro, existe algo chamado OASIS, que é uma plataforma de realidade virtual e que as pessoas acessam usando headsets, luvas e tudo mais. Dentro do OASIS um universo todo existe criado digitalmente e, como o mundo está todo fodido, essa plataforma acaba sendo mais do que só um lugar pra se distrair, ela oferece a possibilidade de criar mundos que seriam impossíveis no mundo real, além de soluções para o próprio mundo real.

Por exemplo, é possível se matricular numa escola no OASIS. As escolas ficam no planeta das escolas e durante as aulas os professores ao falarem, sei lá, da Roma antiga, eles podem “transportar” os alunos para uma simulação de como era estar lá, com construções, pessoas, sons e tudo mais, com gráficos realistas o suficientes pra aceitarmos como real. O mesmo vale para uma aula de astronomia, de química ou de qualquer outra coisa. A realidade de dentro do OASIS pode ser programada para ser o que se quiser que ela seja, mudando leis físicas e criando para quem está lá uma experiência muito próxima do real, pelo menos em termos de audio e vídeo. É possível ir, caminhar e ver, qualquer lugar e qualquer coisa.

Outros usos para a tecnologia são os planetas temáticos, inspirados por filmes, jogos de videogame, bandas de rock e outros. Existem também órgãos de governo operando assim, imagine que criar um ambiente virtual para atender as pessoas é muito mais barato do que construir um prédio real, tendo que construir infraestutura de fato de transporte e todo o resto para os funcionários e tudo mais. Fazendo tudo virtual, o prédio pode ter 400 andares, com 4 mil funcionários e não precisa nem obedecer as leis físicas se você quiser, já que é tudo programado. Mesas no teto? Porque não?! Além disso os funcionários todos podem ser avatares de gente que está fazendo o trabalho deles de casa. No livro, um número grande de pessoas trabalham assim.

Esses são só alguns exemplos, no livro tem mais alguns. Inclusive expandindo certas ideias de aparência, de vestimenta, de carro e outros tantos. Veja inclusive que essas ideias fazem todo sentido com o nosso mundo e que é sim bem possível que um dia cheguemos lá.

A história do livro fala do evento da morte de um dos criadores do sistema OASIS e a corrida por quem será seu herdeiro. Sabendo que ia morrer, este dito criador, criou dentro da simulação enigmas relacionados a cultura dos anos 80. Ele escolheu os anos 80 porque era a época favorita dele. O testamento dele diz que a pessoa que vencer o jogo, que decifrar os enigmas todos, será o novo herdeiro, dono da coisa toda, o mais rico do mundo, o malandrão da malandragem extrema.

Considerando que na realidade do livro a maioria das pessoas vive fodida e sem dinheiro, essa oportunidade faz reviver a cultura dos anos 80 já que todos passam a estudar os filmes, as músicas, os jogos, as séries e toda aquela cultura na esperança de decifrar os enigmas e se tornar a pessoa mais rica e possivelmente mais poderosa – e malandra – do mundo. Ao mesmo tempo, empresas concorrentes veem isso como uma oportunidade de tomar para si a plataforma, porque, como sabemos, a única coisa que empresas ricas querem é ser ainda mais ricas. Né?

Como disse lá em cima, esse é um livro melhor apreciado se for entendido como uma aventura. Ainda assim é justo dizer que ele consegue construir personagens com os quais você se importa e a história é conduzida sem ser rasa ou vazia.

É importante dizer que por ser um livro que usa de forma direta e indireta a linguagem dos games e dos próprios elementos dos anos 80, não acho que seja um livro que vai mesmo ser divertido para todo mundo. Acho possível inclusive que o próprio conceito do mundo virtual seja bastante confuso pra algumas pessoas, especialmente pra quem não gosta de videogame ou que leu tudo isso e não ficou minimamente interessado nessa plataforma de realidade virtual onde construir qualquer coisa é possível.

Uma das críticas que ouvi, e que pra mim não incomodou tanto, é que o personagem principal é alguém que estudou tanto sobre a cultura dos anos 80 que ele acaba se tornando “fodão demais” e os problemas que ele resolve acabam não dando tanto impacto porque você deixa de temer por ele. Concordo que algumas vezes as soluções são fáceis demais, mas, mais uma vez, se você tiver em mente que este é um livro que conta uma aventura e que tem muito mais valor pelo mundo e as possibilidades que ele apresenta do que por sua “complexa trama narrativa inesperada uau”, você vai se divertir muito mais.

Por fim, se você se interessou pelo que foi dito aqui, se gosta de games, futuros distópicos e está precisando ler algo mais leve pra descansar este cabeção maravilhoso, a leitura é bastante recomendada.

Ah, e em março do ano que vem estréia a adaptação para os cinemas da história, dirigida por um tal de Steven Spielberg e com roteiro com participação do próprio autor do livro o Sr. Ernest Cline. Eis o trailer:

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